Rio de Janeiro – Não havia mídia naquela época: nem rádio, tv ou internet. Os poucos jornais eram oficiais ou oficiosos, mal feitos, de circulação simbólica. As notícias eram poucas, nada acontecia de importante, além do expediente funcional. Afinal, "era no tempo do rei" – a frase que inicia as "Memórias de um sargento de milícias".

Não havia mídia mas havia as comadres, sobretudo a "comadre", a personagem mais importante da literatura brasileira, depois de Capitu. Ela tudo sabia, todos a procuravam para abastecê-la ou para se abastecer. Tinha acesso aos quartéis, à copa e cozinha das autoridades, às alcovas do poder e da plebe. As coisas só aconteciam se passadas por ela, na mão ou na contramão, sempre acrescidas pelo conhecimento da sociedade em geral. Além de noticiosa, era o arquivo, a pesquisa e a memória ambulante de seu tempo.

Evidente que não poderia concorrer com a eficiência midiática de hoje, mas fazia o mesmo efeito. À primeira vista, poderia ser considerada uma fofoqueira que bisbilhotava a vida alheia, apurava muito mas só "editava" o que julgava interessar àqueles que nela procuravam informações e opiniões. Era honesta. Como famoso dono de um jornal do século 20, só se vendia por um almoço que ela mesma pagava.

Se a comadre ainda estivesse em atividade, teríamos material mais suculento sobre os dois casos que estão emocionando a nossa mídia: as trapalhadas do presidente do Senado e as confidências e inconfidências do Supremo Tribunal Federal a propósito do mensalão.

Apesar de desprovida de recursos tecnológicos, a comadre tinha a vantagem de ser amiga do major Vidigal, a suprema autoridade policial da época. Ela podia mandar prender ou soltar suspeitos e insuspeitos.

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