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Enquanto folheio o caderno dos classificados de empregos, a melodia doída do Lenine diz que tudo pede um pouco mais de calma; cursos profissionalizantes, concursos para carreira militar ou civil, desfilam diante dos olhos. O boleto da mensalidade da faculdade sobre a mesa, a vida adulta dos filhos chegando antes do juízo chegar, a preocupação com o futuro, o desejo de vê-los bem-sucedidos, independentes, responsáveis por uma família e, ao mesmo tempo, a sensação de descompasso, de que as realizações até o momento não legitimam expectativas relevantes. Depois das anotações, se vai para a página eletrônica do jornal e se faz o envio, para a caixa postal daquele filho reticente, das oportunidades de trabalho para quem está terminando o nível superior. Essa rotina foi repetida tantas vezes que as mensagens vão com confirmação de leitura para que não haja a desculpa do não recebimento. Aquela música acabou, outra está tocando, mas não a ouço porque parei no verso que indaga se é tempo que falta para perceber, será que há tempo a perder.

Os filhos se tornam adultos, nós, velhos. Há sim mudança da direção das expectativas; quando infantes, esperavam nutrição, amor, condições para a formação emocional e intelectual. A madureza para namorar, viajar, dirigir, enseja a legítima esperança de que o cumprimento das expectativas seja bidirecional e começam as cobranças e as afirmações sobre ter paciência. Tenho andado impaciente porque o tempo não para. Nunca pensei que juntaria fragmentos de Renato Russo e Cazuza para expressar angústia de pai. Também somos construídos de poesia e os poetas de cada geração entregam o auxílio luxuoso dos versos para expressar pensamentos que de outra forma seria apresentados de modo rudimentar, talvez até boçal. Ao pensar nisso, me lembro da letra sórdida, quase nojenta, de alguns estilos musicais que tocam em aparelhos de som equipados com carros; quando os jovens que hoje apreciam essas obscenidades forem quarentões passados será esse o repertório de versos disponível para expressar sofrimentos da meia-idade? Contudo, não é essa dúvida que me pôs mais de uma hora a esquadrinhar o caderno de empregos; foi a sensação de que os filhos me alegrariam se estivessem à cata de emprego, fazendo glosas marginais no jornal, e, efusivamente, enchessem a vida de alma, mas, ainda os versos do Lenine, enquanto o tempo acelera e pede pressa, se recusam, fazem hora, estão na valsa.

Mostrar o jornal, o caderno de empregos, pedir que leiam as ofertas e oportunidades, que pensem na própria existência como algo único a ser vivido com intensidade e reciprocidade. Muxoxos, evasividades, sinuosidades semânticas, o domingo se torna mais cinza ainda. Aliás, quem disse que São Paulo é a terra da garoa e o túmulo samba não conhecia Curitiba. A garoa engrossa, as goteiras pingam dentro das calhas e fazem barulho ritmado, delicioso, que convida para o cochilo vespertino dominical debaixo de cobertas pesadas. O dia não terminou.

A semana rugindo, trabalho, estudo, consertar a campainha que entrou em curto-circuito de­­pois que um galho do jerivá caiu sobre a fiação e, num dado e esperado momento, a pergunta de dez megatons: você fez algum contato à procura de emprego? Aí, reinicia o curto-circuito que havia sido apenas abrandado e acende queimando todas as caravelas. O almoço fica azedo e o dia acaba. De novo se ouve que é preciso ter paciência. Não sei. A pa­­ciência é ativa; a prostração é passiva. Não consigo calar diante do desperdício de bem escasso: a adulta juvenilidade de quem tem o mundo e não o quer.

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