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Editorial 1

A arte está nua

Reza o senso comum que o cinema brasileiro "só tem palavrão e gente sem roupa". E que a televisão "só mostra casais transando". Fora o "só tem" e o "só mostra" – injustiças típicas das opiniões emitidas no calor da hora – tais críticas têm um fundo de verdade.

À revelia das glórias da tevê e da cinematografia nacional, que não são poucas, raro encontrar a indicação de um filme que não venha acompanhada de um expresso "cenas de nudez". Na telinha, idem. De tão propalado, o uso de imagens impróprias para um veículo que reina na sala das casas tem gerado rusgas constantes com o Ministério Público e um debate – já com modos de censura – sobre o controle da programação.

Ora, não faltam sinais de que alguma coisa está fora de ordem – e não é de hoje. Mesmo assim, o manifesto contra a nudez gratuita, dito e feito pelo ator Pedro Cardoso – o popularíssimo Agostinho da série Grande Família – foi recebido como uma mensagem alienígena. Pedro se pronunciou no início do mês, no Festival do Cinema do Rio, mas sua fala virou o assunto do ano no circuito cultural, acompanhado de sirenes, patrulhas ideológicas, chacotas e pedras à mão.

É como se a Cardoso, na qualidade de artista, coubesse a missão de defender a nudez, nunca de castigá-la. O lugar que ocupou, ao condenar a transformação do nu em entretenimento – logo, em pornografia –, caberia aos "caretas": religiosos, moralistas, profissionais ligados ao Estatuto da Criança e do Adolescente, promotores, fundamentalistas em particular e mal-resolvidos em geral. Enfim, gente que em tese não fala a língua de arte.

A estranheza do manifesto, contudo, virou a alma do negócio. Para quem não faz novela, teatro ou cinema – ou tampouco tirou a roupa para participar de performances e happenings da geração 60 e 70 –, caiu por terra a idéia algo ingênua de que a condição artística pressupõe a disposição em se despir. Finalmente, em alto e bom som, alguém disse que estar pelado não diz nada sobre seu ofício. Com essa revelação, foi-se outra certeza ralo abaixo – a de que a nudez tenha sempre função dramatúrgica e que nasça de um acordo de cavalheiros entre atores e diretores.

Tanta roupa suja junta só tem uma explicação: a "nudez artística" sempre esteve blindada. Não se diz um pio, sob pena de inquisição. É o que se pode fazer diante de uma estética legitimada pelo próprio circuito artístico. Um ou outro diz em entrevista que é pago para interpretar, não para tirar a roupa. Mas é mais comum encontrar quem defenda cada cena ousada com o mesmo orgulho com que conte ter interpretado um Shakespeare ou ganhado um prêmio.

Os argumentos são clássicos, entre eles "é o personagem, não sou eu". Não que os declarantes sejam parte de uma farsa. Impossível. Seria a piada do século. Mas o que parece haver é uma obediência servil à idéia de que o gesto criativo só é válido se vir acompanhado da transgressão. Um segundo equívoco, associado a esse, é entender presença de transgressão como ausência de roupa. Não se trata de um silogismo perfeito.

Aparentemente, a confusão entre uma coisa e outra se deu no momento em que as vanguardas da primeira metade do século 20 caíram no gosto da indústria cultural. Já que não podia com elas, que ficasse a seu favor. A nudez, de ironia modernista, virou produto à venda. Mas para não vê-la confundida com os baralhos eróticos que os garotos viam às escondidas, o mercado lhe deu aura de obra de arte. Deu no que deu.

O manifesto de Pedro Cardoso trata dessa distorção infame. Distorção – agora se sabe – que causa desconforto e revolta em muitos dos que vivem de sua arte, mas se vêem transformados em fetiche. O alcance de fala de Cardoso, contudo, corre o risco de cair no ridículo, já que nasceu rotulada como uma marcha-à-ré em pleno século 21 – como se a nudez fosse uma panacéia, uma prova de que voltamos ao Paraíso, onde ninguém provou ainda o fruto da Árvore do Bem e do Mal. Não é.

Não se trata, é claro, de abrir temporada de caça aos pelados. O nu figura entre os temas da arte, como a paisagem, a natureza-morta, o ícone ou a abstração. E há um sem-número de casos em que se faz imprescindível. Mas não custava nada aproveitar a deixa para minorar um dos maiores infortúnios da modernidade: o exílio da arte nos grandes debates mundiais.

O alerta vem de críticos da cultura, como o britânico Terry Eagleton. Em seus escritos ele fala da falência da arte como força política. Com as vanguardas, os avanços formais foram tantos que se transformaram num fim em si mesmo. "É como se tudo devesse se tornar estético", protesta Eagleton – inclusive a moral, que no campo da arte se viu reduzida a estilo, prazer e intuição.

O saldo não é positivo. A arte passou a ser vendida para o público como laboratório da loucura, do delírio e da subversão. Reduz-se a um convite a viver intensamente. A uma tática de guerrilha. Mas também pode se revelar vazia e insensível aos grandes dramas humanos. Está aí o mundo da moda para comprovar. Idem para o flerte com a pornografia.

Não por menos, fala-se do efeito estufa, da contenção da violência, do abrandamento da pobreza, da favelização do planeta e muito pouco da redenção que vem pela cultura. É como se ela fosse um adorno na polis, sem força política ou ética. A arte está nua.

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