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A guerra chega ao preço do pão
| Foto: Agência Brasil

A mesa dos brasileiros será afetada pelos conflitos no Leste Europeu. Desde o aumento dos combustíveis neste mês, essa certeza já vem se materializando no orçamento doméstico de muita gente, mas efeitos piores ainda estão por vir. A subida no preço do diesel deve ter impacto inflacionário em cadeia, com a alteração no preço do frete sendo jogada para os produtos finais. Porém, já nas próximas semanas, é no preço dos panificados que os brasileiros irão sentir os efeitos da crise.

Nos 12 meses anteriores a fevereiro, o preço dos panificados viu um incremento de 9,28%. Até o dia 23 de março, o preço do contrato futuro de 5 mil bushels (136,1 toneladas) aumentou 75% em dólares em um ano, uma alta que chegou a quase 20% somente no mês passado. Alguns moinhos já estão observando altas na casa dos 40% no preço médio do grão.

Não se pode dizer que esse impacto era imprevisível. Ucrânia e Rússia exportam juntas mais de um quarto do trigo do mundo, alimentando milhões de pessoas que consomem pão, massa e alimentos embalados. Também são fornecedoras de cevada, óleo de sementes de girassol e milho, entre outros produtos.

Nos últimos dias, o preço dos produtos agrícolas tem flutuado acentuadamente à medida que as tensões em torno do Mar Negro ameaçam perturbar os carregamentos globais de muitos desses produtos. Essas perturbações, assim como o custo dos combustíveis e dos fertilizantes tem estressado os mercados e contribuem para o crescimento nos preços. Nos próximos três ou quatro meses, quando começa a colheita de trigo, o impacto pode ser ainda maior se o conflito se prolongar ou se houver danos ainda mais severos às instalações portuárias e ferrovias ucranianas.

É claro que a guerra agravou tudo, mas desde o ano passado a Rússia já vinha limitando os seus próprios carregamentos de trigo com uma taxa de exportação destinada a conter os preços internos dos alimentos. Uma vez que os mercados de produtos agrícolas são globais, qualquer redução na oferta afeta a procura e os preços do trigo cultivado noutras partes do mundo, incluindo a Austrália, a Argentina e os Estados Unidos

Com uma guerra longa, não há muitas opções para amenizar seus efeitos por aqui. Uma delas tem a ver com os estoques da indústria moageira, providenciados na colheita doméstica no final de 2021. Eles têm contribuído para o retardamento da alta dos preços nos supermercados brasileiros frente aos praticados nas bolsas globais. Na medida que o Real continuar ganhando força frente ao dólar, isso também impacta positivamente para reduzir o percentual de aumento esperado no mercado local.

Nos próximos três ou quatro meses, quando começa a colheita de trigo, o impacto pode ser ainda maior se o conflito se prolongar ou se houver danos ainda mais severos às instalações portuárias e ferrovias ucranianas

Também é possível que o aumento na área plantada na próxima safra possa ajudar. O país teve uma produção nacional recorde de 7,8 milhões de toneladas na última safra. É esperado que a crise possa levar a um aumento ainda maior da produção nacional neste ano. Outros países também podem seguir o mesmo caminho, como a Índia, a Austrália, que tiveram ótimas colheitas nos últimos anos, a um preço competitivo.

Entretanto, o fenômeno climático La Ñina e as alterações nos preços dos fertilizantes, dado o papel central da Rússia nesse mercado, são os elementos de incerteza no desempenho dessas alternativas. Ademais, existe muita dificuldade no mercado para precificar a commodity sem a produção do Mar Negro e a tendência é que o pessimismo impere.

No curto prazo, dependendo do tamanho do impacto na mesa dos brasileiros, talvez seja preciso cogitar reforços nos programas de transferência de renda para garantir a segurança alimentar dos mais pobres.

No médio e no longo prazo, o Brasil pode se beneficiar da expansão da área destinada ao trigo, com estímulos para o plantio de grão em áreas do Nordeste e no norte do cerrado, apontadas como promissoras pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Assim como no caso das máscaras, dos fertilizantes, dos combustíveis e de outros produtos afetados pelas crises globais, o preço do pão vem lembrar ao país a importância de uma política econômica soberana, que não deixe a população tão à mercê de forças econômicas globais cuja lógica nem sempre é a do funcionamento normal do mercado.

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