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O presidente da Argentina, Mauricio Macri.
O presidente da Argentina, Mauricio Macri.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Está na moda dizer que o liberalismo não deu certo na Argentina e, portanto, o liberalismo não funciona. Dada a agonia econômica e a calamitosa situação dos principais indicadores macroeconômicos do país, o argumento pode parecer razoável. Ou seja, se a Argentina está mergulhada em profunda crise e se o presidente Maurício Macri se apresentou como um liberal, a conclusão é de que a culpa é do liberalismo. Mas o fato é que Macri fez tudo ao contrário do que reza o figurino liberal e, mesmo que um plano possa fracassar por não haver receita milagrosa em todas as circunstâncias, o presidente argentino precisa ser classificado em outra categoria: aquele que, pouco importa o rótulo que a ele se atribua, é apenas mais um governante que seguiu o roteiro que há mais de meio século vem quebrando a Argentina, um roteiro nada liberal.

Quando Macri assumiu o governo, em fins de 2015, substituindo Cristina Kirchner, a Argentina apresentava a doença crônica da América Latina: déficit orçamentário gigante, na casa de 5% do Produto Interno Bruto (PIB); impossibilidade de o país tomar empréstimos no mercado internacional em função da moratória decretada no início dos anos 2000 e repetida em 2014; carga tributária nas alturas (era a mais alta entre 138 países analisados pelo Fórum Econômico Mundial), portanto, com inviabilidade de aumentos de impostos; produção nacional em queda; inflação em alta; desemprego subindo; e padrão de vida médio decaindo.

Macri, o autodeclarado liberal, negou completamente seu rótulo político e não fez nada do que se esperaria de um governo que assim se denomina

O tamanho do gasto público havia chegado a cifras astronômicas: 47,9% do PIB, o que fez o governo Kirchner mandar o Banco Central emitir moeda e repassar ao Tesouro Nacional, cuja consequência foi óbvia: perda do controle sobre o volume de moeda circulante no país. O resultado foi o de sempre: a inflação explodiu, como meio de absorver a expansão monetária sem o correspondente no produto nacional, e chegou a 30% em 2015. Quando a inflação de um país sobe, o preço da moeda estrangeira – o dólar – também tem de subir, sob pena de desorganizar o comércio exterior e criar colapso no fluxo de capitais financeiros com o resto do mundo.

Pois foi o que aconteceu na Argentina. Como o governo havia criado o tal “cepo cambial”, pelo qual os cidadãos locais ficavam impedidos de comprar dólares e obrigados a manter suas reservas na moeda local – o peso argentino –, o caos nas importações e nas exportações, de um lado, e na compra e venda de moeda estrangeira, de outro, somado ao fato de que o governo não tinha crédito para tomar empréstimos estrangeiros, criou enorme embaraço para a economia interna, sobretudo para os setores vinculados ao comércio internacional. Os setores exportadores entraram em crise, reduziram a produção e o desemprego aumentou.

Leia também: Congelamento de preços: o caso da Argentina (artigo de Jackson Bittencourt, publicado em 6 de maio de 2019)

Leia também: A Argentina perde o bonde da história (artigo de Irineu Berestinas, publicado em 10 de outubro de 2018)

Macri, o autodeclarado liberal, negou completamente seu rótulo político e não fez nada do que se esperaria de um governo que assim se denomina. Não cortou gastos públicos, não combateu o déficit fiscal, não privatizou empresas estatais, concedeu aumento para funcionários públicos, aumentou as aposentadorias, manteve até as estatais deficitárias nas mãos do governo – como a empresa aérea Aerolíneas Argentinas, que houvera sido estatizada pelo casal Kirchner – e não mexeu nos 4 milhões de funcionários públicos com seu conhecido número de 280 mil funcionários fantasmas. O discurso do presidente era não fazer ajuste cirúrgico, rápido, mas ir fazendo ajustes graduais, coisa que não deu o menor resultado, como era previsto.

O presidente tomou algumas medidas boas no início, tentou se reaproximar do mercado internacional e começou a liberar parcialmente a compra de moeda estrangeira pelos habitantes locais. Porém, ele não tocou um dedo nos maiores problemas do país: o imenso déficit fiscal derivado da gastança do governo, o inchaço da máquina pública, a inação no programa de privatizações e no controle dos salários do funcionalismo – pelo contrário: enquanto o país definhava, Macri concedia aumentos para tentar agradar os sindicatos. A lista de políticas, medidas e práticas do atual governo argentino é longa, cheia de detalhes, mas tudo pode ser resumido em uma frase: o presidente Macri vestiu um chapéu de liberal durante a campanha e implantou um conjunto de medidas antiliberais e bem ao gosto da esquerda latino-americana.

Portanto, mais uma vez, o liberalismo não passou de um slogan sem nenhuma aplicação prática que pudesse testá-lo. Não que o liberalismo seja perfeito e infalível, mas o fato é que, na Argentina, ele não foi o remédio usado pelo atual governo.

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