Os dias de turbulência vividos durante a semana no mercado financeiro mundial devem servir de alerta ao Brasil. Ficou provado que bastam alguns pequenos movimentos ou incertezas em outras paragens para que, imediatamente, eles se reflitam aqui na forma de desvalorização da Bolsa de Valores, na exacerbação do dólar, na fuga de capitais e na alta do risco-país. Sinal de que a resistência da economia brasileira aos ataques externos não é algo tão formidável quanto costumam apregoar as autoridades.

A causa primária do frisson desses dias foi o temor de alta da inflação dos Estados Unidos, o que forçaria o FED – o banco central norte-americano – a elevar a taxa de juros. Foi o suficiente para que o mercado global fosse abalado e percebesse duas perspectivas: a) aplicar em papéis do governo americano passaria a ser mais atrativo; b) a economia dos países emergentes seria afetada por condições menos favoráveis ao crescimento.

Diante disso, como bons capitalistas que são, os investidores, por um lado, começaram a trocar os títulos brasileiros por outros considerados mais seguros e, por outro, a aplicar suas poupanças em dólar. Foram estes dois movimentos que provocaram as fortes oscilações e o generalizado nervosismo que tomou conta da semana.

Veja-se só: não estamos diante de nenhuma catástrofe, como as que testemunhamos seguidamente nos anos 90, a exemplo da crise na Ásia e da moratória russa, nem o planeta está preocupado com um blecaute petrolífero. Nem mesmo as guerras no Oriente Médio ou no Iraque são agora motivo para tanta exacerbação. Trata-se agora apenas de um pequeno e ainda não inteiramente confirmado tremor de terra na economia norte-americana.

Ainda assim, o Brasil, mais do que muitos outros países, emergentes inclusive, entrou em ebulição. E isto é um sinal evidente de que ainda somos muito vulneráveis, ao contrário do que nos acostumamos a ouvir nos últimos tempos. A capacidade de resistência brasileira assentava-se, segundo o governo, na solidez de alguns dos fundamentos, tais como inflação sob controle, balança comercial saudável, altos superávits primários e dívida pública interna e externa em processo de alongamento ou de redução.

Estaríamos, assim, no melhor dos mundos. Mas não foi isso que constatamos na semana passada. E simplesmente porque as antenas sensíveis e impessoais desse ente chamado genericamente de mercado perceberam que o Brasil deixou de cumprir outras tarefas fundamentais – sem as quais a higidez e a segurança de sua economia jamais serão alcançadas.

Um exemplo? O excesso de gastos governamentais improdutivos e a falta de investimentos em infra-estrutura voltada para o desenvolvimento. Apenas para citar um caso clássico de dispêndio de recursos públicos que poderia ser evitado, lembremo-nos de que, só no mês passado, o déficit da Previdência Social cresceu 25%. Até o fim do ano, o déficit ultrapassará R$ 50 bilhões – dinheiro alto o bastante para desequilibrar fortemente as contas públicas.

A solução seria colocar em marcha a Reforma da Previdência, de tal modo que o sistema se torne auto-sustentável, sem necessidade de recorrer a aportes do Tesouro Nacional. Este fator de desequilíbrio, entre tantos outros ainda não superados, enfraquece a economia, aumenta a carga tributária, emperra o crescimento e eleva os índices de desconfiança. Conseqüentemente, deixam-nos também mais vulneráveis a qualquer tipo de solavanco externo, por menor que seja.

Portanto, se não houver um compromisso firme deste e dos futuros governos em produzir as condições ideais para o saneamento das contas públicas mediante profundas reformas estruturais, continuaremos sempre sujeitos a situações como as vividas na semana passada. Se não fizermos isso, só nos restará rezar para que não apareçam crises maiores do que a simples notícia de que Tio Sam aumentará seus juros em mísero 0,25%.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]