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Editorial

Carro faz mal à saúde

Relatórios da OMS mostram que bons programas de mobilidade podem reduzir mortalidade em até 30%. Nenhum remédio ou terapia para hipertensão ou diabete tem desempenho semelhante

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  • 24/08/2013 21:02

O trânsito se tornou um problema de saúde pública. E a recíproca é verdadeira. Por mais truncada que pareça a afirmação, tudo indica que chegou a hora de colocar na mesa os benefícios que os transportes públicos trazem ao bem-estar da população. Não se está falando apenas de ar menos poluído e menos barulho, mas de redução drástica dos índices de hipertensão, obesidade e diabete – que, ao lado dos distúrbios psiquiátricos, são as epidemias do século 21.

A sinalização de que uma coisa tem a ver com outra vem de uma fonte altamente confiável – relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) recentemente divulgados. E são precisamente 300 documentos, todos ocupados de mostrar a relação íntima entre programas de mobilidade eficientes e vida saudável. Se os indicativos forem levados a sério, como se espera, tudo indica que os gestores urbanos terão mais um bom motivo para aumentar a rede de ciclovias, criar canaletas e arrumar dinheiro para fundar metrôs. A economia para o sistema de saúde seria brutal.

Não se trata de demagogia. São números tinindo de bons. A dizer. Um dos relatórios afirma em alto e bom som que em Copenhague, na Dinamarca, 30% dos usuários de bicicleta têm saúde acima da média. O detalhamento é primoroso. O número que gerou, nem se diga. De acordo com tecnocratas do ramo, são raros os remédios ou terapias capazes de alcançar índices dessa monta. E, caso algum descrente já tenha na ponta da língua que na Dinamarca qualquer um melhora os batimentos cardíacos, um alerta: em outras cidades do mundo, estudos com metodologia semelhante ostentam os mesmos resultados.

As variantes que fecham essa conta são simples demais. E esse pode ser o problema. Os dados da ONU vilipendiam políticas de saúde gastadeiras. E as políticas que se rendem ao mais poderoso dos lobbies, o que vem da indústria farmacêutica. Podem não agradar, afinal são baratas e dependem de práticas de prevenção, assim como de investimentos em mobilidade.

As afirmações chegam a ser ofensivas, de tão óbvias. Quem utiliza ônibus, por exemplo, caminha de 8 a 25 minutos, cumprindo na ida ao trabalho ou à escola o tempo médio de exercícios recomendado pelos médicos. Os ganhos ao sistema cardiovascular encontram ecos na literatura especializada, de modo que não se fala mais nisso. Tomar o coletivo, a lotação, a jardineira é um santo remédio.

Se não for argumento o bastante, que se anote o dado mais estarrecedor fornecido pela organização – 1,2 milhão de pessoas morrem todos os anos em acidentes de trânsito. Tinha de ser um dado estampado nos outdoors, para não deixar esquecer a tragédia bélica em que nos metemos desde que automóvel virou cacho de banana.

Se as pesquisas não deixam dúvidas, resta saber quando e como os setores de mobilidade e os de saúde vão sentar para conversar. Difícil. O Brasil, em particular, tropeça quando o assunto são as trans e multidisciplinaridades. "Não há Cristo", como diziam os antigos. Vide a dificuldade geral da nação em fazer os observatórios de trânsito – aquele documento unificado que permitiria saber quantas vítimas de acidentes de trânsito morrem nos hospitais. Do jeito que está, ou morre no asfalto ou não é vítima de automóvel. Sem esse acompanhamento de causa e consequência, as estatísticas de que dispomos continuam furadas.

Mais. A partir do momento em que trânsito for declarado assunto de saúde pública, mais e mais os profissionais do jaleco branco vão se envolver no assunto e orientar sua clientela. Sabe-se a demora geral da nação em fazer uma legítima sociologia da saúde. Não entendemos o quanto as unidades e hospitais definem as relações sociais, a convivência, a organização da cidade. Uma pena – nossa ignorância em saúde funciona como prova de que não estamos entendendo nada.

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