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Editorial

Condições desiguais

Os pífios resultados quanto ao nível de aprendizado denunciam não ter havido preocupação em promover a melhoria qualitativa do ensino público

A partir do governo de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990, o Brasil apresentou considerável avanço na educação fundamental. Caracterizou-se este período pelo esforço de universalizar o ensino de modo a incluir todas as crianças em idade escolar. Até então, cerca de 15% das crianças nessa faixa não frequentavam os bancos escolares, quer por falta de estabelecimentos ou de vagas, quer porque as famílias não se sentiam obrigadas e/ou estimuladas a matricular seus filhos.

Após poucos anos, ao fim do ciclo de FHC concluído em 2002, o índice de inclusão chegou perto dos 98% de matriculados no nível fundamental – conquista importantíssima que foi mantida ou ampliada nos anos seguintes. Pode-se afirmar que, hoje, é apenas residual o número de brasileirinhos sem acesso à escola. Na se­quência, deve-se à gestão do presidente Lula o crescimento de matrículas também no Ensino Médio, assim como a criação de facilidades ao ingresso às universidades.

Entretanto, se os investimentos públicos foram, acertadamente, neste primeiro momento, voltados para a universalização, os pífios resultados quanto ao nível de aprendizado denunciam não ter havido preocupação em promover a melhoria qualitativa do ensino público. Tal deficiência fica evidente em todos os processos de avaliação promovidos pelo próprio governo. Instrumentos como o Ideb e o Enem expõem a incapacidade do sistema escolar de transmitir conhecimento aos alunos. Duas áreas essenciais sofrem desse mal – o domínio da língua e a Matemática. Concluída a primeira etapa do ensino fundamental, verifica-se que a maioria dos estudantes apresenta ainda dificuldades extremas na leitura e interpretação de textos simples, sem falar na generalizada incapacidade de escrevê-los. São, apesar dos anos de estudo, considerados analfabetos funcionais. Na Matemática, a realidade não é diferente, evidenciando-se que nem ao menos para as quatro operações nossos alunos saem com grau suficiente de domínio.

Rankings internacionais, especialmente os que aferem o nível de ensino em ciências e Matemática, confirmam essa realidade. Neles, o Brasil em posições sofríveis, abaixo dos nossos pobres vizinhos latino-americanos e de subdesenvolvidas nações da África. A distância é abismal quando nos comparamos aos tigres asiáticos, ou aos países desenvolvidos do hemisfério Norte. Se os estudiosos quiserem encontrar explicações sobre os baixos indicadores sociais e econômicos do Brasil não encontrarão nenhuma dificuldade em identificar no nosso precário sistema de ensino a causa principal. Não há país no mundo que ocupa patamares avançados de desenvolvimento e que ofereça padrões de vida superiores às suas populações sem que, antes, tenham investido pesadamente na qualidade da educação.

Não temos capacidade de inovar, de agregar valor tecnológico aos nossos produtos; sequer temos mão de obra qualificada em nível técnico para suprir as necessidades de produzir mais, melhor e mais barato. São insignificantes nossos processos de qualificação de professores dedicados ao ensino fundamental e básico – e colocamos em nossas universidades, de modo geral também precárias, estudantes cujo aproveitamento final fica abaixo do mínimo ideal. O governo detém todos os instrumentos de avaliação e conhece sobejamente as deficiências do sistema educacional. Entretanto, não podem ser considerados notáveis ou importantes os esforços visando a formular políticas públicas e para direcionar investimentos significativos voltados para o incremento da qualidade. A tradução prática dessa realidade é o alongamento do tempo para colocar o Brasil em igualdade de condições para vencer os desafios que o mundo globalizado nos impõe.

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