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Copiar, inovar, criar: os três estágios da tecnologia e o Brasil
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

A renda por habitante – usualmente citada nos livros e textos econômicos como “renda per capita” – é uma medida essencial para definir o grau de desenvolvimento de um país e as possibilidades de bem-estar social médio de sua população. A renda nada mais é que o outro lado do produto, pois um bem ou serviço vendido por um valor monetário tem esse valor distribuído por todos os fatores que participaram no processo de produção, que são: trabalho, recursos naturais (matérias-primas), capital (máquinas e instrumentos de produção) e iniciativa empresarial. Os economistas usam um modelo macroeconômico para medir o produto nacional (bens e serviços de consumo, e bens de capital físico) e a renda nacional (salários, aluguéis, juros e lucros). Renda e produto têm valores iguais, pois, como dito, são as duas faces da mesma moeda.

O produto que é feito dentro do território nacional e sem calcular o desgaste do estoque de capital físico usado no processo produtivo é chamado de Produto Interno Bruto (PIB). O valor do produto por habitante (ou da renda por habitante) é obtido dividindo o PIB pela população total. Pela acumulação de dados sobre a realidade ao longo dos séculos, sabe-se que o padrão de vida médio de um país depende do tamanho do produto (ou renda) por habitante, e o conceito de país desenvolvido vem da constatação de que assim é definido aquele no qual praticamente não há miséria, a pobreza é bastante reduzida e o bem-estar social médio é bastante bom em termos de satisfação das necessidades de conforto material.

Para importar tanto mais quanto possível da revolução tecnológica que roda o mundo, o país necessita ampliar a abertura internacional e elevar sua participação no comércio exterior

Não há dados exatos, mas estima-se que a renda per capita em dólares capaz de propiciar um padrão médio considerado desenvolvido esteja em torno do mínimo de US$ 25 mil/ano. Para comparar, a renda per capita brasileira em 2020, medida pelo “dólar PPC” (paridade de poder de compra), estava em US$ 11 mil/ano, enquanto a dos Estados Unidos era de US$ 44 mil/ano. Isto é, a renda por habitante no Brasil representava um quarto da norte-americana; logo, o bem-estar social médio possível do Brasil é bastante inferior ao dos Estados Unidos. O único meio de haver aumento da renda por habitante é o PIB crescer anualmente mais que a taxa de aumento da população, o que exige aumento significativo da produtividade (produção por hora trabalhada). Esse é o maior desafio brasileiro para o crescimento econômico e o consequente desenvolvimento social, para o qual os dois fatores cruciais são o trabalho e o capital físico.

Quanto ao trabalho, não custa repetir que a população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar, no total 106 milhões atualmente) precisa evoluir em termos de escolaridade média e aumento da qualificação profissional. Em relação ao capital físico, é necessária sua expansão em termos quantitativos e sua modernização em termos tecnológicos. Esse quadro coloca o país diante de duas expressões mágicas: educação e qualificação técnica (para o trabalho) e incorporação tecnológica (para o capital físico). O conhecimento tecnológico em si tornou-se quase um quinto fator de produção, tal é sua relevância para promover o aumento da produtividade. Porém, ainda que grande parte da tecnologia esteja embutida dentro de máquinas, equipamentos e sistemas físicos, aí incluída a inteligência artificial e os robôs cognitivos, os trabalhadores em sentido geral também precisam incorporar as novas tecnologias em seu domínio intelectual e em suas habilidades técnicas. Dizendo de outra forma, a tecnologia é um conjunto imenso de processos e meios de executar atividades internalizados nas máquinas e nos sistemas produtivos, sobre os quais as pessoas atuam segundo sua qualificação profissional em face do atual nível do conhecimento tecnológico.

Ocorre que a tecnologia moderna é revolucionária, capaz de gerar expressivo aumento da produtividade, e está sendo desenvolvida fora do Brasil. Para importar tanto mais quanto possível dessa revolução tecnológica que roda o mundo, o país necessita ampliar a abertura internacional e elevar sua participação no comércio exterior, ainda que somente isso não seja suficiente. Quando o país importa tecnologia estrangeira, o sistema produtivo interno realiza a primeira fase, que é aplicar o que comprou do resto do mundo, ou seja: copiar, porém pagando. A segunda fase se dá quando o país desenvolve novos processos e novas técnicas de forma a inovar sobre a tecnologia que foi importada, e isso exige investimento em ciência, pesquisa e programas de aperfeiçoamento da tecnologia conhecida. A terceira fase é a de criar, no sentido de desenvolver tecnologias inéditas e inovações que o mundo ainda não conhece. Nesta fase, com exceção de um caso ou outro de sucesso (como aconteceu com as técnicas agrícolas), o Brasil é ignorado pela pobreza de sua criação tecnológica.

A discussão sobre o subdesenvolvimento, a baixa renda por habitante e a pobreza brasileira roda e roda... e acaba sempre no mesmo lugar: o déficit educacional e o baixo conhecimento tecnológico incorporado ao sistema produtivo. Apesar de algumas honrosas exceções em que a tecnologia desenvolvida internamente está presente, no geral o atraso econômico brasileiro tem causa nas duas questões referidas: educação e tecnologia. Por óbvio, também o elevado desemprego contribui para piorar o atraso, ao deixar uma gigantesca massa de trabalhadores fora da produção que entram no denominador da fração usada para calcular o produto por habitante. Embora possa parecer que se está tratando de questões técnicas e econômicas complexas não populares, o problema do conhecimento tecnológico insuficiente e a dificuldade do país em evoluir nos três estágios – copiar, inovar e criar – são questões que precisam entrar no debate público e na agenda dos políticos para, a partir daí, tornarem-se prioridades nos programas governamentais nacionais e regionais.

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