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“Criminalidade” é uma palavra com definição ampla que incorpora todas as ações e fatos considerados crimes pelas leis do país. A amplitude da palavra, porém, traz o defeito de colocar no mesmo conjunto eventos com efeitos diferentes em termos de gravidade e dano individual ou coletivo. Como exemplo, um mero xingamento contra um político cada vez mais tem sido tipificado como crime (calúnia, injúria ou difamação), assim como é igualmente chamado de crime o ato de assassinar brutalmente uma pessoa (homicídio) para tomar-lhe a carteira, o celular e um relógio (roubo).
O estudo sobre a criminalidade exige separar e classificar os tipos de crimes segundo seu grau de violência e tamanho dos danos a pessoas, instituções e coisas, como também devem ser separados e classificados os efeitos sobre o conjunto da população e sobre posses, integridade física, direitos e liberdade dos indivíduos. No Brasil, os crimes contra a vida (homicídios, feminicídios, tortura e maus-tratos físicos), somados aos crimes de trânsito, furtos, roubos, destruição de propriedade, corrupção e outros contra o ser humano, a propriedade e os bens públicos ou privados, atingiram o grau de epidemia e tragédia socioeconômica.
O Brasil se transformou em uma sociedade do medo em larga escala, e essa realidade se tornou uma espécie de doença crônica com a qual a sociedade convive e segue a vida
Além dos efeitos em termos de dor e sofrimento sobre indivíduos e famílias, a criminalidade impõe custos, perdas, ineficiências e consumo de recursos humanos e financeiros que, de outra forma, seriam usados para produzir bens e serviços destinados à melhoria do bem-estar das pessoas. Essa realidade cria desestímulos que inibem o crescimento econômico e o desenvolvimento social, de forma que a criminalidade de fato responde por enorme parcela da miséria, da pobreza e do atraso. Se a criminalidade fosse menor, equivalente à de países como Bélgica, Dinamarca ou Suécia, a gigantesca soma dos recursos necessários para enfrentar seus efeitos poderia ser alocada em atividades construtivas e enriquecedoras, como educação, saúde, transporte e outros tantos setores que melhoram a vida da população e seriam capazes de proporcionar o crescimento da nação como um todo.
Não é difícil imaginar os custos com os aparatos de policiamento, vigilância, segurança, capturas, processos, julgamentos, punição e manutenção de prisões e estruturas de detenção, e o quanto de dinheiro esse sistema todo custa para os bolsos da população e os cofres públicos. Apesar da difícil mensuração, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgaram estudos recentes informando que os gastos públicos com polícia e sistema prisional, mais custos privados com segurança, seguros e o impacto na produtividade com perdas precoces de vidas e invalidez, atingem 11% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, mais de R$ 1 trilhão por ano.
O Brasil se transformou em uma sociedade do medo em larga escala, e essa realidade se tornou uma espécie de doença crônica com a qual a sociedade convive e segue a vida, sem deixar de pagar o elevado preço em termos psicológicos, financeiros e de bem-estar pessoal. O medo se espraiou por várias ramificações da vida: medo de golpes materiais e financeiros, medo de furtos, medo da violência física – incluindo o medo de morrer sob ação de criminosos de várias espécies –, medo de transitar pelas ruas à noite, medo de ter suas residências invadidas, seus bens roubados e suas vidas eliminadas. A lista de medos é grande e está estampada nos muros, nas cercas e na baixa circulação das pessoas pelos parques, ruas e locais públicos principalmente à noite, além dos bairros, vilas e regiões sob o domínio do narcotráfico e do crime organizado. As restrições e os medos são tantos – incluindo o medo de parte da população dentro de seus próprios lares, evidenciado de forma horripilante pelos 1.518 feminicídios ocorridos em 2025 – que, de certo modo, o Brasil é uma prisão.
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O Brasil está em sétimo lugar entre os dez países mais violentos do mundo, conforme relatório publicado em 2025 pela ONG ACLED Armed Conflict Event Location and Data Project (Projeto de Localização e Dados de Eventos de Conflito Armado), atrás apenas de países conflagrados como Síria, Palestina e Nigéria, ou onde o crime organizado exerce dominância muito maior, como o México; mas ainda mais violento que nações como o Haiti ou o Paquistão. Este é um vexame político, cultural e civilizacional, que contribui para a pobreza econômica e para certo isolamento do país em setores como o turismo e a atração de investimentos, negócios e eventos internacionais.
As eleições federais e estaduais deste ano são um bom momento para a sociedade recuperar sua capacidade de se indignar e desenvolver a ideia de não aceitar essa tão degradante realidade, exigindo que as lideranças políticas, empresariais e sociais se unam para enfrentar de uma vez por todas essa doença degenerativa da sociedade brasileira. Se o processo de expansão da violência e da criminalidade em sentido geral não for contido, com destaque para o crescimento do crime organizado, o Brasil pode se tornar uma espécie de zona de exclusão, onde a vida normal, a paz e a segurança se tornarão impossíveis.







