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editorial 1

De tragédia em tragédia

Foi no dia 18 de março de 1967. Algu­­mas poucas horas de tempestade e ocorria a tragédia de Caraguatatuba. Centenas de deslizamentos na Serra do Mar derrubaram pelo menos 30 mil árvores, atingindo com toneladas de lama, pedras e vegetação a cidade do litoral norte paulista. Passado o espanto, o medo e o drama das buscas a vítimas e desaparecidos, o resultado: 500 mortos e muito a reconstruir, incluindo, na sequência, a recuperação da imagem da cidade como um polo turístico. Em pouco tempo, Caraguatatuba voltou a ser o que era, mas sem esquecer, no entanto, a catástrofe.

Lamentável, no entanto, é que aquele e muitos outros episódios, como as enchentes do ano passado em Santa Catarina e as que se repetiram e se repetem em São Paulo, Rio de Janeiro e em outros estados, não tenham representado uma lição de peso suficiente para a tomada efetiva de providências em grande escala contra as catástrofes naturais. E agora, com os trágicos acontecimentos em Angra dos Reis, comprova-se, mais uma vez, o despreparo para encarar desastres naturais. São desastres naturais, mas com uma incrível, irresponsável e crescente contribuição humana. Por trás da maioria dos problemas o que se tem, geralmente, é a ocupação irregular de áreas de risco, mais a construção desenfreada de casas, prédios, pousadas e hotéis sem respeitar regras mínimas de segurança. Não é propriamente o boom imobiliário, mas a especulação imobiliária, pura e simples, que corre à solta pela falta de fiscalização. Ou, quando não, pelo conluio do poder público com empresas do setor. Acrescente-se a isso a falta substancial de obras de infraestrutura para evitar desastres e a própria precariedade do sistema de defesa civil, em todos seus níveis.

Como tem sido demonstrado quase à exaustão, é preciso respeitar estudos técnicos que apontam quais áreas oferecem riscos e incorporá-los ao planejamento urbano. Incorporar e seguir como base em toda e qualquer iniciativa de urbanização. Na Ilha Grande, por exemplo, os locais arrasados estavam nas encostas de morros cobertos por forte vegetação. Seriam necessários, porém, estudos de risco geológico que mostrassem qual exatamente o tipo de solo e de rocha, permeabilidade e inclinação, além dos aspectos da cobertura vegetal. Tal avaliação deveria estar presente em todos os planos diretores dos municípios e ser seguida religiosamente, mas essa não tem sido a regra.

No caso de Angra, pela última estimativa da prefeitura, os deslizamentos de terra provocados pela chuva na virada do ano causaram um prejuízo de cerca de R$ 250 milhões. Esse valor calculado pelo município não inclui o que a cidade deixará de arrecadar nas áreas de turismo, comércio e serviços. E não contabiliza as despesas para a desapropriação e demolição de dezenas de casas, como no Morro da Carioca, que não estão em áreas de risco, mas em áreas de alto risco.

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