Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Editorial

O dólar em queda e a preocupação dos exportadores

editorial dólar exportações
Dólar tem fechado abaixo de R$ 5 nos últimos dias. (Foto: ChatGPT sobre foto de Valter Campanato/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

O dólar encerrou a última semana cotado em R$ 4,98, alertando os exportadores. Há pouco menos de um ano e meio, mais especificamente em 18 de dezembro de 2024, o preço nominal de fechamento da moeda norte-americana havia sido de R$ 6,26. Essa desvalorização de cerca de 20% fez com que exportadores levantassem a voz, diante da perspectiva de prejuízos em suas receitas e pressão para reduzir as exportações brasileiras. Uma das causas desse movimento de baixa na taxa de câmbio está na situação da balança comercial brasileira, que encerrou 2025 com superávit de US$ 68,3 bilhões, o terceiro maior da série histórica, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

O dólar não se desvaloriza apenas diante do real; este é um movimento mais amplo, com a moeda norte-americana perdendo terreno globalmente. Uma das explicações é a política econômica executada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e idealizada pelo Conselho de Assessores Econômicos (CEA) da presidência norte-americana, sob a liderança do economista Stephen Miran, indicado por Donald Trump também para integrar o Conselho de Governadores do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Este movimento do dólar já estava delineado no documento conhecido pelo nome de “Acordo Mar-a-Lago”, idealizado pelo CEA sob a liderança de Miran, contendo princípios e propostas para a reforma da ordem financeira mundial e a recuperação da indústria norte-americana.

Não é possível entender as variações no preço do dólar sem conhecer as políticas defendidas pelas autoridades econômicas dos EUA

Esse acordo ficou disponível ao público sob o título técnico de A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System – Executive Summary, com 41 páginas a respeito dos aspectos teóricos, princípios e medidas de política econômica para os Estados Unidos. No documento, sobressai a crítica contra a política de vários grandes países que desvalorizam suas moedas nacionais em relação ao dólar, prática que os autores do documento consideram prejudicial ao comércio exterior norte-americano. Vêm daí medidas como o tarifaço de Donald Trump; desvalorizar o dólar ajuda a reduzir importações feitas pelos norte-americanos, estimula as exportações e atrai de volta empresas que saíram do país, como é o caso da indústria automobilística.

Não é possível entender as variações no preço do dólar, portanto, sem conhecer as políticas defendidas pelas duas principais autoridades econômicas dos Estados Unidos, Bessent e Miran, bem como as tendências da política econômica deste segundo mandato de Donald Trump. Por esse prisma, as bases que levam a essa queda na cotação do dólar em relação ao real não devem mudar nos próximos meses e anos, para preocupação dos exportadores brasileiros.

VEJA TAMBÉM:

A atual taxa de câmbio pode reduzir pressões inflacionárias ao reduzir o custo de itens que o Brasil importa, mas é considerada baixa pelos exportadores para viabilizar a capacidade competitiva das empresas brasileiras e estimular as exportações do país. A continuação desse movimento de queda teria o potencial de desarranjar o comércio exterior do Brasil, incluindo o risco de, não havendo mercado interno para os produtos que deixariam de ser exportados, haver recessão no setor. Esse é o caso do agronegócio, que tem um volume de produção muito superior ao que é demandado pelo mercado interno.

O Brasil mudou a realidade de suas contas com o resto do mundo (expressadas no chamado “balanço de pagamentos”, que inclui a balança comercial, a balança de serviços e a balança de capitais), reduziu os déficits externos, diminuiu a dívida externa e chegou a acumular US$ 358 bilhões em reservas cambiais, sobretudo pelo efeito das elevações de preços das commodities exportadas pelo país desde 2003 e pelo aumento das safras agrícolas e produtos industriais do agronegócio. Porém, neste início de 2026, com os preços do petróleo explodindo e a taxa de câmbio baixando, o Brasil foi pego em uma armadilha: ao mesmo tempo em que reduz as receitas de exportações devido à queda no preço do dólar, insumos importados (como os fertilizantes) se tornarem mais caros em função de conflitos bélicos internacionais, especialmente a guerra no Oriente Médio. O atual momento é complexo e a grita dos exportadores precisa ser ouvida, pois não se trata de um problema de um setor específico: trata-se de um problema do Brasil.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.