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Editorial 1

Família é uma questão social

Durante uns bons carnavais, família, no Brasil, era assunto de padre, pastor e vovozinha. Fora da esfera da religião e dos próprios clãs, apenas o psicanalista, a portas fechadas, parecia ter um bônus extra para mexer nesse vespeiro. É fácil explicar tantos dedos. A ordem burguesa fez da família um assunto mais íntimo do que sexo, provavelmente como modo de se defender das críticas à nova ordem trazida pela revolução dos costumes na década de 60. Não causa espanto que, depois do anúncio oficial da Era de Aquário, falar dos laços que unem pais e filhos tenha ganhado rótulo instantâneo de caretice. Sua defesa, via de regra, passa a soar como conservadorismo, uma afirmação de valores que o vento levou.

De resto, é fato que a família virou um debate elaborado demais para ser feito em praça pública. Depois do furor causado pelo divórcio, pela pílula, pelo amor livre, tornou-se raro encontrar quem não tenha provado o prazer da liberdade, mas também o gosto amargo da desagregação familiar. Mesmo assim, a conversa foi escanteada. A família rarefeita parecia ser um preço a ser pago pela modernidade. Com o tempo, contudo, tornou-se um fado: pais, mães, seus filhos e seus problemas voltaram a ser assunto da hora. E não só nos divãs e nos púlpitos, mas principalmente no campo minados das políticas públicas. Família é uma questão social.

Ao contrário do que mostram as propagandas de margarina e de eletrodomésticos, as famílias continuam repetindo o estigma descrito por Tolstoi na abertura do romance Ana Karenina: "Todas as famílias felizes são iguais. Todas as famílias infelizes o são a sua maneira." Trata-se de uma relação delicada. De um lado, ela é a fonte primeira dos maiores problemas. Por tabela, é o mapa da mina que pode levar à solução dos grandes dilemas sociais. De outro lado, é instrumentalizada. O mito do amor romântico se abastece dela. A própria indústria cultural tem na família um de seus produtos mais bem-sucedidos, capaz de entupir magazines em pelo menos três meses do ano: maio, agosto e dezembro.

Basta pensar na quantidade de filmes em que heróis se digladiam com bandidos – ajudados por uma miríade de efeitos especiais – para nada mais fazer do que defender a célula mater da sociedade. Steven Spielberg virou expert no assunto, firmando a família no grande shopping dos objetos de desejo. Graças, talvez, a essa aura tão idealizada, o tema custa a vingar fora do mundo do folhetim e da ficção – justo onde é mais trágico, cruel e merecedor de esforços concentrados.

Resta trabalhar para romper o ceticismo que ronda a questão. É preciso estar atento e forte: a sociedade tem não só o direito como o poder de arbitrar sobre essa matéria. A casa não é barreira maior do que a Muralha da China. É possível sim robustecer os mecanismos sociais capazes de ajudar pais e filhos – particularmente os miseráveis – a refazer o caminho de volta.

As estratégias podem ser simples, a exemplo da sugerida à Gazeta do Povo pela secretária da Criança e do Adolescente, Thelma Alves de Oliveira: a criação de uma "escola de pais" na mesma estrutura das escolas públicas. Na mesma reportagem, a assistente social Maria de Lourdes San Roman, diretora de Proteção Básica da Fundação de Ação Social, matou a charada: "Fortalecer as famílias é a mais barata das políticas públicas. O problema não se resume às falhas do Estado e à pobreza. Há meios de chamar os pais à sua responsabilidade." Não há nada de caretice nisso.

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