Donald Trump anuncia sanções econômicas ao Irã
Donald Trump: sanções econômicas ao Irã serão respostas mais fortes aos ataques no Oriente Médio.| Foto: AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interrompeu temporariamente a escalada de violência no Oriente Médio quando respondeu ao lançamento de mísseis iranianos contra alvos norte-americanos impondo novas sanções econômicas, em vez de retaliar com mais ações militares. O Irã havia assumido quase que imediatamente a autoria do ataque a duas bases dos Estados Unidos no Iraque, mas, como nenhum soldado ficou ferido e os danos foram “mínimos”, segundo o presidente, não haveria resposta militar, mas econômica. E Trump foi além: afirmou estar disposto a cooperar com os iranianos no combate a inimigos comuns, como o Estado Islâmico.

Com a decisão de não realizar, por enquanto, novas incursões militares, Trump deixa evidente o critério que pretende usar. Enquanto os danos forem apenas de ordem material, a resposta virá por meio de sanções econômicas; no entanto, a perda de vidas norte-americanas não será tolerada – a ação que matou o general Qasem Soleimani, recorde-se, era uma retaliação à morte de um civil americano durante um ataque de milícias xiitas apoiadas pelo Irã contra uma base dos Estados Unidos no Iraque.

Ainda que Irã e Estados Unidos estejam efetivamente dispostos a evitar novos ataques mútuos, permanece uma questão de fundo: o programa nuclear iraniano

A política de traçar “linhas vermelhas” que não podem ser cruzadas sem uma resposta à altura não é novidade; o fato novo é que essa política esteja sendo colocada em prática, ao contrário do que ocorreu em governos anteriores. O exemplo mais evidente é o da Síria. Em 2012, Barack Obama delimitou uma “linha vermelha”: o uso de armas químicas pelo governo sírio na guerra civil que destrói o país há anos não seria tolerado. Mas o ditador Bashar Assad manteve a prática sem que nada lhe acontecesse. Foi preciso que a Casa Branca mudasse de ocupante para que as forças sírias fossem atacadas pelos Estados Unidos após voltarem a usar armas de destruição em massa.

Além da declaração de Trump, também há sinais de distensão vindos de Teerã. O chanceler iraniano, Javad Zarif, escreveu no Twitter que as ações de retaliação à morte de Soleimani estavam “concluídas” e que o país não desejava a intensificação no conflito. No entanto, o país perdeu a chance de um gesto de boa vontade, negando aos norte-americanos o acesso às caixas-pretas do Boeing 737 de uma companhia aérea ucraniana que caiu logo após decolar do aeroporto de Teerã nesta quarta-feira, com destino a Kiev. Segundo o protocolo internacional de investigações de acidentes aéreos, o país onde ocorre o acidente comanda a apuração das causas, mas em cooperação com a nação da companhia aérea envolvida no acidente e o país onde a aeronave foi fabricada – respectivamente, Ucrânia e Estados Unidos. Por mais que não haja obrigação expressa de os iranianos entregarem as caixas-pretas a autoridades americanas ou à Boeing, fazê-lo também ajudaria a apaziguar os ânimos.

Ainda que Irã e Estados Unidos estejam efetivamente dispostos a evitar novos ataques mútuos, permanece uma questão de fundo: o programa nuclear iraniano. Trump afirmou enfaticamente que, enquanto estiver na Casa Branca, os iranianos jamais terão uma bomba atômica. O que Trump não disse é até onde estaria disposto a ir para cumprir sua promessa, até porque o regime iraniano é explícito sobre sua intenção de continuar enriquecendo urânio apesar de já estar sob uma série de sanções.

Um país que, sem a bomba atômica, já é causador de instabilidade no Oriente Médio e fora dele – basta lembrar as fortíssimas suspeitas de envolvimento iraniano em dois atentados na Argentina, em 1992 e 1994, que mataram mais de 100 pessoas – não pode conseguir acesso a armas nucleares; uma vez que essa fronteira tenha sido cruzada, o diálogo se tornará muito mais difícil, como bem sabem os americanos que precisam lidar com o norte-coreano Kim Jong-un. A comunidade internacional precisa ter claros, desde já, que meios podem ser usados para frear as ambições atômicas de aiatolás dispostos a seguir em frente com o programa nuclear mesmo sofrendo punições econômicas.

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