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Editorial

Nada a comemorar

O centenário da Revolução Russa tem de ser recordado, por ser um evento que definiu o século 20. Mas é insensato festejar a ascensão de um regime totalitário

  • PorGazeta do Povo
  • 06/11/2017 23:01
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| Foto: Reprodução

Na noite de 7 de novembro de 1917 (ou 25 de outubro na Rússia, que ainda não adotava o calendário gregoriano), os bolcheviques, com apoio das forças armadas, deram o golpe final e assumiram o poder no ato decisivo da Revolução Russa, derrubando o governo provisório que havia sido instalado em fevereiro daquele mesmo ano, quando havia caído o czar Nicolau II. Com a chamada Revolução de Outubro, que agora completa 100 anos e é recordada mundo afora, Vladimir Lenin e os bolcheviques deram início a um capítulo longo e sangrento da história da humanidade.

O que veio depois é a imposição brutal, pela força, do regime socialista. Da Revolução Russa não se pode dizer nem mesmo que teve um bom início, ou que era movida por boas intenções de uma sociedade mais justa, e as ações tomadas imediatamente após o golpe de outubro o demonstram. Poucos dias depois, os bolcheviques eram minoria na Assembleia Constituinte eleita e que só durou um dia, pois foi dissolvida por ordem de um comitê central executivo – este, sim, dominado pelos bolcheviques. Algumas regiões não russas do antigo império aproveitaram o caos para declarar independência, mas acabariam, mais cedo ou mais tarde, submetidas e integradas à União Soviética, criada em 1922, ao fim de uma guerra civil. Àquela altura, o regime já contava com polícia política e já tinha estatizado toda a propriedade do país, com a entrega das fábricas aos sovietes e a coletivização dos campos.

Da Revolução Russa não se pode dizer nem mesmo que teve um bom início, ou que era movida por boas intenções de uma sociedade mais justa

O regime stalinista apenas intensificou o horror que já tinha sido iniciado por Lenin. A perseguição política, com os infames “processos de Moscou”, as execuções e os gulags, foi usada por Stalin para consolidar seu poder e eliminar qualquer aspirante a seu posto. Entre 1932 e 1933, milhões de ucranianos morreram vitimados pelo Holodomor, a grande fome resultante da coletivização da agricultura e de decisões centralizadas que contrariavam diretamente a dinâmica natural dos campos daquela região. Um autêntico genocídio ordenado por Stalin para submeter de vez o povo ucraniano, estratégia repetida em outras regiões da União Soviética.

O mesmo roteiro foi empregado em todas as outras nações que adotaram o regime socialista, seja após a invasão militar soviética durante a Segunda Guerra Mundial, seja por revoluções fomentadas internamente (com ou sem auxílio soviético). As nações da Europa Oriental, a China, países do Sudeste Asiático, Cuba: todos eles viram desaparecer a democracia, substituída por uma “ditadura do proletariado” que igualou as pessoas apenas na escassez (com exceção, claro, da elite dirigente dos Partidos Comunistas). A fome, que havia vitimado ucranianos e cazaques na União Soviética, matou pelo menos 15 milhões de chineses nos anos 60, sob Mao Tse-Tung. No Camboja, o regime do Khmer Vermelho levou à morte de um quarto da população, por fome, doenças ou execuções políticas. A ditadura cubana foi mais letal que qualquer um dos regimes anticomunistas instalados na América Latina nas últimas décadas.

Mesmo este histórico não impede que outras nações continuem se tornando vítimas do autoritarismo socialista: na Venezuela, o “socialismo do século 21” de Hugo Chávez fez o país regredir com surtos de desabastecimento e caos econômico generalizado; e, para fazer frente à crescente insatisfação popular, a ditadura bolivariana tem recorrido cada vez mais à força bruta dos “coletivos” armados.

Leia também: A revolução que mudaria o mundo criou uma pilha de cadáveres (artigo de Ricardo Vélez Rodríguez, publicado em 5 de novembro de 2017)

Demétrio Magnoli: O mito do século 20 (23 de fevereiro de 2017)

Espanta mais ainda saber que os horrores perpetrados pelos regimes socialistas ao redor do mundo são vistos de forma condescendente, e que as ideologias que embalaram tais horrores ainda sejam abraçadas com entusiasmo por muitos. Em 1994, o historiador Eric Hobsbawm afirmou, em entrevista a Michael Ignatieff para a BBC, que as dezenas de milhões de mortes sob o stalinismo teriam valido a pena se a utopia socialista tivesse se tornado realidade. Em nome do Partido, em nome da causa, tudo se tolera, até mesmo o genocídio.

Recordar o centenário da Revolução Russa? Certamente, pois se trata de um evento que definiu o século 20 e cuja influência ainda se sente hoje. Mas comemorá-lo? Ora, festejar o centenário de um acontecimento a partir do qual metade do mundo foi colocada sob regimes assassinos, ainda que em diferentes épocas, é semelhante a festejar a eleição parlamentar alemã de 1932, o incêndio do Reichstag ou a Noite das Facas Longas. Que o socialismo e o comunismo, aliás, não tenham o mesmo tratamento dado ao outro grande regime totalitário do século passado, o nazifascismo, mesmo que aqueles tenham sido bem mais mortíferos que este, é uma das grandes falhas do nosso tempo.

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