Antônio Carlos Magalhães, falecido ontem, aos 79 anos, marca o último meio século da vida brasileira. Político afirmativo, seu desaparecimento fecha uma geração que conviveu com o período autoritário da segunda metade do século XX, tendo atravessado a redemocratização como líder de dimensão nacional: governador, ministro de Estado, senador da República e presidente do Senado.
Seu papel teve início na Bahia natal, onde ocupou os cargos mais relevantes, inclusive, por várias vezes, o de governador. Mas sua liderança no cenário baiano foi ainda maior, representando nos últimos tempos a maior figura produzida por uma terra tradicional pela densidade de seus homens públicos. Misto de expoente do coronelismo da Primeira Republica e dirigente partidário contemporâneo, ACM como era conhecido dominou com vigor a máquina pública como fazedor de prefeitos, deputados e governadores.
Embora tal hegemonia tenha empalidecido nos dois últimos anos, ensejando a eleição de um governador em oposição à chefia política do senador o petista Jacques Wagner , ACM ainda mantinha rédea firme sobre a maioria dos diretórios políticos do interior baiano e uma bancada parlamentar fiel à sua voz de comando. Não obstante, ele será lembrado por seu papel no cenário mais amplo, de dimensão nacional, onde foi presidente de empresa estatal, ministro das Comunicações e senador destacado.
Sua posição já exponencial, se firmou durante a transição democrática: dissidindo do regime autoritário que dava mostras de tendência continuista, ACM apoiou a formação da Frente Liberal, hoje reunida sob a sigla DEM, que deu base à vitória do então governador Tancredo Neves. A partir desse gesto de 1985, o senador ganhou lugar definitivo no "podium" federal, passando a figurar como conselheiro privilegiado dos sucessivos governos que se formaram na esteira da redemocratização, até ver um de seus filhos, o deputado Luiz Eduardo Magalhães, eleito presidente da Câmara dos Deputados.
A morte prematura de Luiz Eduardo, em 1998, foi o primeiro abalo em um organismo revestido da fortaleza própria dos homens nordestinos. Mesmo assim, ACM ainda se elegeu para o Senado, que presidiu num momento crítico pela acusação de ter tolerado a violação do painel de votação eletrônica. A mancha o forçou à renúncia para escapar da cassação, revertida em seguida com nova eleição para a Câmara Alta. Porém, as seqüelas emocionais resultaram em moléstias que terminaram por lhe causar a morte.
O Paraná deve ao senador Antônio Carlos Magalhães um gesto típico de seu perfil afirmativo. Quando nosso estado foi acossado pela tentativa de divisão territorial, em 1993, apelou-se para ACM, lembrando que fora outro baiano Zacarias de Góes e Vasconcelos o instalador da província paranaense. Num curto telegrama ACM respondeu: "A Bahia não faltará mais uma vez ao Paraná" e desencadeou logo a corrente de apoios que ajudou a derrotar no Congresso o malsinado projeto separatista.







