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O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou.| Foto: Walter Paciello/Presidência do Uruguai

O governo uruguaio está disposto a não deixar que o protecionismo de alguns membros do Mercosul atrapalhe as perspectivas de inserção comercial do país, o menor dos integrantes do bloco, mas o que apresenta maior liberdade econômica. Na reunião do Conselho do Mercado Comum (CMC) realizada por teleconferência na quarta-feira, dia 7, o Uruguai anunciou que passará a negociar acordos comerciais isoladamente. Não se trata nem mesmo de buscar a anuência dos demais membros; os uruguaios simplesmente comunicaram que passarão a agir desta maneira, gostem ou não os demais parceiros.

O movimento uruguaio não chega a surpreender quando se considera que há tempos os países do Mercosul discutem a flexibilização da regra que exige a negociação de acordos como bloco – norma que, segundo o governo do Uruguai, “nunca foi internalizada”. E tal discussão só vem ocorrendo porque o Mercosul não tem cumprido a contento sua missão de fomentar o comércio entre seus membros e de atuar como player importante no comércio internacional. A inserção internacional deixou de ser uma política perene do bloco para ficar sujeita aos caprichos dos governantes de plantão, principalmente de Brasil e Argentina: sempre que a esquerda protecionista chegava ao poder em algum país, tinha o poder de engessar qualquer tentativa de abertura comercial envolvendo o Mercosul.

Que o Uruguai tenha resolvido abrir mão de pegar carona nos dois maiores mercados consumidores do Mercosul para costurar seus próprios acordos comerciais é sinal de que Montevidéu não vê perspectivas animadoras para o bloco no curto prazo

Mesmo quando os dois principais países do bloco eram governados por presidentes ditos liberais – o que ocorreu em 2019, quando Jair Bolsonaro e Maurício Macri ocupavam o Planalto e a Casa Rosada –, a ideia de dar mais autonomia aos membros não caminhou, embora tenha sido neste período que o Mercosul conseguiu seu avanço internacional mais ambicioso, com a assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia. A derrota de Macri para o esquerdista Alberto Fernández, que tem como vice Cristina Kirchner, campeã do protecionismo durante o tempo em que foi presidente da Argentina, foi prenúncio de tempos mais complicados para o Mercosul.

Os uruguaios sabem muito bem que perdem poder de fogo negociando apenas como um país de 3,5 milhões de habitantes, e não como integrante de um bloco de quase 270 milhões de pessoas com status de potência agropecuária. Portanto, que o Uruguai tenha resolvido abrir mão de pegar carona nos dois maiores mercados consumidores do Mercosul para costurar seus próprios acordos comerciais é sinal de que Montevidéu não vê perspectivas animadoras para o bloco no curto prazo. Fernández enviou um recado inequívoco neste sentido quando rechaçou de imediato a proposta brasileira de reduzir gradativamente a Tarifa Externa Comum (TEC), aplicada aos produtos que vêm de fora do Mercosul, e a flexibilização da regra para acordos comerciais, proposta pelo Uruguai e que já recebeu apoio brasileiro em diversas ocasiões.

Com a movimentação uruguaia, o Mercosul não tem mais como fugir do dilema que o atormenta: afinal, o bloco quer ou não ser um instrumento de fomento do comércio, seja entre os membros, seja deles com o resto do mundo? Caso se comporte mais como obstáculo que como incentivo, o grupo tende a se tornar irrelevante, assumindo no máximo o papel de clube ideológico que teve quando a esquerda governava simultaneamente o Brasil, a Argentina e o Uruguai. É muito pouco, considerando o potencial do bloco e os resultados que ele poderia atingir caso seus membros tivessem compromisso autêntico com a inserção no comércio global.

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