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Os investimentos e o Produto Interno Líquido
| Foto: Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

Na economia, há certas expressões que passam a ser repetidas diariamente, tornam-se amplamente conhecidas, entram para o imaginário popular e muitas vezes não são entendidas de em sua concepção teórica correta. Uma dessas expressões, e que está entre as mais importantes para definir o grau de desenvolvimento do país, é “Produto Interno Bruto (PIB)”. É “produto” porque se refere à totalidade dos bens e serviços produzidos num determinado período de tempo. É “interno” porque diz respeito ao que é produzido dentro do território nacional. É “bruto” porque demonstra o total da produção nacional sem considerar o desgaste e diminuição do capital físico envolvido no processo produtivo.

O PIB é feito com o uso dos chamados “fatores de produção”, que são os recursos naturais, o trabalho, o capital físico e a iniciativa empresarial. A riqueza gerada durante um ano, por exemplo, é composta da totalidade dos bens e serviços e, ao ser dividida pela população, informa qual é o produto nacional por habitante, ou PIB per capita, que tem a renda per capita como o outro lado da mesma moeda. Pela nova metodologia internacional, medido em dólar PPP (purchasing power parity, isto é, “paridade do poder de compra”), o PIB brasileiro é de US$ 3,154 trilhões, o que, dividido pela população de 213,9 milhões de habitantes no fim de 2021, resulta no PIB per capita de US$ 14.745/ano, enquanto os Estados Unidos devem atingir o produto per capita de US$ 62.580 (PIB total de US$ 20,933 trilhões para uma população de 334,5 milhões). Ou seja, o produto per capita brasileiro é 23,5% do norte-americano, o que dá uma ideia do baixo nível de desenvolvimento do Brasil.

Para alavancar a taxa média anual de crescimento econômico, o país precisa elevar a taxa de investimento como porcentagem do PIB

No meio dessa realidade, há uma questão pouco debatida, porém relevante para o crescimento do PIB, que é o aumento do capital físico, entendido como a soma da infraestrutura física, a infraestrutura empresarial e a infraestrutura social. Ocorre que, de todo o PIB feito em um ano, usando o exemplo de 2021 em que o PIB em reais está estimado para chegar a R$ 8,08 trilhões, 81,5% é a parcela composta de bens e serviços de consumo e 18,5% é a taxa de investimento, a parcela de bens de capital destinados a se incorporar ao estoque de capital físico. Para ilustrar, o investimento em 2021 deve ser de R$ 1,495 trilhão (18,5% sobre R$ 8,08 trilhões), o qual é chamado de “formação bruta de capital fixo”. Além de estar muito abaixo do ideal, não significa que o aumento do estoque do capital físico total será de igual valor, por uma razão: durante o ano, o capital físico se desgasta no processo produtivo, cujo cálculo é feito sob o título “depreciação”, e parte do investimento anual é destinada a repor o capital depreciado.

O conceito de Produto Interno Líquido surge quando, do Produto Interno Bruto, se abate o desgaste do capital físico que permitiu elaborar o produto total do ano. O aumento líquido do capital físico do país resulta do investimento nacional (R$ 1,495 trilhão) menos a parte destinada a repor o capital desgastado. Essa é a principal razão a justificar a crença de que o investimento nacional anual deveria ser pelo menos 25% do PIB, mas, para isso, os bens materiais e serviços de consumo deveriam representar 75%. Como o Brasil consume 81,5% do PIB, a redução dessa fração para apenas 75% somente se torna viável se o PIB crescer, pois, com produto estagnado, mais investimento significa menos consumo, ou seja, mais redução no padrão de vida. Mas nada disso impede que a baixa taxa de investimento durante anos seguidos faça que a estrutura geral do capital físico seja fator de restrição ao crescimento do PIB. São dilemas do Brasil que somente o forte crescimento do PIB poderia amainar.

É por essas e outras razões que a economia é conhecida como a “ciência da escassez” e a realidade mundial mostra que, dos 201 países existentes, não mais que 35 deles são considerados países desenvolvidos. Enquanto o Brasil padece de várias restrições econômicas, a condição de país pobre e a pandemia criaram outra situação socialmente cruel: o gigantesco desperdício de força de trabalho, revelado na informação de que, dos 106 milhões de pessoas em condições de trabalhar, em torno de 14 milhões estão desempregados, 4,5 milhões subocupados e 5 milhões desistiram de buscar trabalho. Essa força de trabalho é fator de produção não utilizado para produzir, ainda que todos tenham de consumir para sobreviver.

Esses problemas precisam ser divulgados, analisados, debatidos e serem elementos das propostas e decisões necessárias à construção do futuro. O momento de eleger novos governantes e parlamentes nos estados e no Executivo e Legislativo federal é boa oportunidade para tratar de tais temas, especialmente o fato de que, para alavancar a taxa média anual de crescimento econômico, o país precisa elevar a taxa de investimento como porcentagem do PIB. E a única forma de fazer isso sem prejudicar a produção de bens e serviços de consumo é elevar a taxa anual de crescimento do PIB, ou seja, é o retorno à ênfase no crescimento econômico como prioridade nacional.

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