Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Editorial

Os tentáculos do Banco Master no Planalto

ECA Digital
Agência vinculada ao Ministério da Justiça, comandada por Ricardo Lewandowski, ficará responsável por fiscalizar conteúdos (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, pode legitimamente se orgulhar de um feito raro: poucos empresários no Brasil conseguiram construir uma rede de relações tão ampla e tão bem posicionada no coração do poder. Sua teia de influência não alcançou apenas setores do Judiciário, incluindo o STF – como defendemos antes, Dias Toffoli, relator do inquérito contra o Master no STF, já deveria ter sido alvo de impeachment por sua relação pessoal com o banco. Também o Palácio do Planalto e figuras centrais do Partido dos Trabalhadores mantinham vínculos diretos com Vorcaro, entre eles o próprio presidente Lula, que dias atrás condenava em público os “sem-vergonha” envolvidos em golpes financeiros.

Os registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) são claros: Vorcaro esteve no Planalto ao menos quatro vezes entre 2023 e 2024. Mais grave, porém, foi a reunião reservada ocorrida em dezembro de 2024, quando o banqueiro encontrou-se com o presidente da República justamente em meio a uma crise de liquidez do Banco Master. O encontro, mantido fora dos registros oficiais, contou ainda com a presença de Gabriel Galípolo, então indicado à presidência do Banco Central. Segundo relatos, Lula teria aconselhado Vorcaro a não vender o banco. Não se trata de detalhe irrelevante: trata-se de uma conversa privada entre o chefe de Estado, um futuro regulador e o controlador de uma instituição financeira em dificuldades.

Será preciso esclarecer, com rigor e transparência, até onde efetivamente se estendem as relações de Daniel Vorcaro dentro dos Poderes da República. O que já veio à tona é suficientemente grave para afastar qualquer tentativa de relativização, mas também é insuficiente para encerrar o assunto

Além de bem relacionado, Vorcaro revelou-se um empregador generoso. Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda no governo Dilma Rousseff, foi contratado como “consultor” do banco por um salário nababesco de R$ 1 milhão mensais, por indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. Mais do que aconselhamento técnico, tudo indica que Mantega funcionava como ponte política, responsável por facilitar o trânsito do banqueiro nos corredores do Planalto e aproximá-lo do presidente.

O petista Jaques Wagner também esteve por trás de outra contratação relevante do Master: a do escritório de advocacia de Ricardo Lewandowski, pouco antes de sua nomeação para o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Do início de 2023 a agosto de 2025, período em que Lewandowski ocupou o cargo no governo Lula, seu escritório teria recebido R$ 250 mil mensais do Master. Ainda que a versão oficial tente blindar o ex-ministro, fontes indicam que sua associação ao escândalo foi determinante para sua saída do governo, no início de janeiro.

Diante da gravidade dos fatos, a resposta do governo, como de praxe, foi minimizar e desviar o foco. A ministra Gleisi Hoffmann tentou naturalizar o encontro entre Lula e Vorcaro, alegando que o presidente “recebe muita gente” e que reuniões desse tipo seriam da “natureza do cargo”. Não são. Não há normalidade institucional em encontros fora da agenda com empresários em crise financeira, conseguidos graças a influências compradas a peso de ouro. Vorcaro construiu deliberadamente uma rede de proteção, contratando figuras próximas ao centro do poder, não apenas para obter aconselhamento, mas para garantir acesso, influência e blindagem política. Até onde, de fato, vão seus tentáculos, ainda não se sabe.

O aspecto mais perturbador desse episódio, porém, é sua progressiva normalização. O país parece ter se acostumado à ideia de que autoridades da República mantenham relações reservadas com empresários envolvidos em escândalos, como se isso não configurasse conflito ético relevante. Mais inquietante ainda é constatar que ministros de Estado e integrantes do Judiciário não vejam problema no fato de escritórios de familiares próximos – esposas, filhos – receberem valores vultosos de empresas sob suspeita ou tenham parentes envolvidos em negócios com o banco que investigam.

VEJA TAMBÉM:

Ainda que tais relações possam, em tese, ser formalmente defensáveis sob o prisma estritamente legal, elas estão muito longe de atender ao mínimo exigido por uma ética republicana. A República não se sustenta apenas pela legalidade fria dos contratos, mas pela aparência de probidade, pela separação inequívoca entre interesse público e conveniência privada e pela obrigação moral de evitar qualquer situação que comprometa a confiança da sociedade nas instituições. A pergunta central não é apenas se algo é permitido – é se é aceitável em uma democracia madura. E, à luz dos fatos, das relações de Daniel Vorcaro e do Banco Master com as altas esferas do poder de Brasília, a resposta é inequívoca: não é.

Será preciso esclarecer, com rigor e transparência, até onde efetivamente se estendem as relações de Daniel Vorcaro dentro dos poderes da República. O que já veio à tona é suficientemente grave para afastar qualquer tentativa de relativização, mas também é insuficiente para encerrar o assunto. Justamente por isso, o caso não pode ser empurrado para o arquivo morto da indignação episódica, tampouco dissolvido na rotina cínica de escândalos sucessivos que o país se acostumou a assistir.

Quando fatos dessa natureza surgem, o dever das instituições não é proteger reputações, mas iluminar as zonas cinzentas do poder. Abafar o tema, tratá-lo como desgaste passageiro ou apostar no esquecimento coletivo equivale a admitir que a promiscuidade entre interesses privados e funções públicas é um traço estrutural da vida republicana brasileira – e essa é uma concessão que não se pode fazer.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.