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Agiu bem a presidente Dilma Rousseff em exigir uma retratação do ministro Carlos Lupi, do Trabalho, que diante das denúncias de falcatruas que pairam em sua pasta afirmou duvidar de que fosse demitido. Com a soberba própria daqueles que se consideram acima do bem e do mal, Lupi disse, em alto e bom som, que só deixaria o ministério à força, frisando: "Daqui ninguém me tira. Só saio se for abatido à bala e tem que ser bala de grosso calibre porque eu sou pesado". O tom desafiador calou fundo no Palácio do Planalto, com Dilma incumbindo a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, de transmitir a sua insatisfação. No pito passado, foi lembrado a Lupi que "ele e todos os ministros do governo sabem que quem nomeia e quem demite é a presidente da República".

Recado dado, recado entendido, com o PDT, partido do qual o ministro é o presidente licenciado, se apressando em divulgar nota afirmando que as suas declarações "não foram de ameaça à presidente, mas sim um desafio aos acusadores anônimos". A arrogância do ministro, que parece acreditar ter cadeira cativa na pasta do Trabalho, é preciso que se diga, caracteriza uma afronta à autoridade presidencial cometida por um subalterno passível de demissão a qualquer tempo; uma reação de quem se considera com as costas quentes o suficiente para peitar até a autoridade maior do país.

O fato ocorrido também mostra com nitidez cristalina os vícios crônicos da política brasileira, particularmente no tocante ao loteamento dos governos, o que ocorre a cada eleição realizada. Pelos acordos de bastidores e de campanha, cada partido acaba virando donatário de um ou mais ministérios – segundo o peso da agremiação – o que faz do eleito um refém dos compromissos eleitorais assumidos. Essa prática espúria coloca o compadrio e os conchavos como a regra dominante, a tal ponto que mesmo quando da demissão de assessores encastelados em postos-chave do governo o substituto, via de regra, é oriundo da mesma panela. É a maneira usualmente empregada para evitar estremecimentos maiores na base de sustentação do governo, ainda que para isso muitas concessões sejam feitas. Tudo em nome da tal governabilidade que nada mais é do que a prática de não desagradar aos aliados, mesmo aqueles flagrados em atitudes nem um pouco republicanas.

A presidente Dilma Rousseff já demitiu nada menos que seis ministros, cinco deles por suspeitas de corrupção – Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Pedro Novaes e Orlando Silva – além de Nelson Jobim, por insubordinação. A lista recorde em menos de um ano de mandato pode ser ampliada agora com o titular do Ministério do Trabalho, Carlos Lupi, que teve assessores diretos envolvidos no repasse irregular de recursos para organizações não governamentais. Ontem, Lupi compareceu à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, quando negou envolvimento nas denúncias de irregularidades ocorridas em seu ministério. Ainda que não seja defenestrado agora, com a anunciada reforma ministerial prevista para o início do próximo ano considera-se como muito difícil a possibilidade de que ele venha a emplacar sua permanência no governo em 2012.

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