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 | Felipe Lima
| Foto: Felipe Lima

Expor nossa visão de mundo, como a Gazeta do Povo faz agora, é em alguma medida uma demonstração de que acreditamos na capacidade de o ser humano, por meio do uso da inteligência, atingir a realidade, ainda que de forma imperfeita e incompleta.

É uma crença ousada, em tempos de tanta dúvida acerca do poder da razão, de tanta desconfiança com relação à capacidade cognoscitiva do homem. Se em todas as épocas houve pensadores que levantaram a bandeira dessa desconfiança, os últimos dois séculos viram essa tendência agigantar-se, a ponto de ter conquistado muitos dos mais brilhantes filósofos deste período. Não são poucas as razões que militam a favor desta descrença, mas ainda assim preferimos nos unir àqueles pensadores que, malgrado todas as dificuldades, não se desanimaram com a força da razão, convencidos de que mil obstáculos não formam necessariamente uma dúvida.

Se não há verdades objetivas, abre-se espaço para o voluntarismo

Mas em que se manifesta essa descrença? Ela existe mesmo? Poderia parecer que não. Afinal, as pessoas, os próprios filósofos, os cientistas, os empresários, os homens públicos continuam vivendo e fazendo uso da inteligência, da razão. É verdade. São poucos os que são completamente céticos quanto ao poder dos recursos cognoscitivos humanos. Mas essa desconfiança existe, está alastrada e se situa sobretudo na capacidade de a razão ser a porta de compreensão do que é mais importante para o homem. De compreensão e de guia para nossas decisões. Nas palavras do filósofo escocês Alasdair MacIntyre, há atualmente “um cinismo generalizado em nossa cultura quanto ao poder ou mesmo à relevância do argumento racional em questões consideradas suficientemente fundamentais”. Isto é, quando se trata das questões mais decisivas para o homem – seu destino, a felicidade, a finalidade da vida em sociedade –, há uma descrença quanto à capacidade de a razão ter realmente algo a dizer. A filosofia pós-moderna, como elaborada por eminentes pensadores como Jean-François Lyotard, Jacques Derrida e Jean Baudrillard, se propôs a demolir quaisquer pretensões de existência de verdades objetivas. Na cultura e ambiente, por assim dizer, “pós-modernos”, que não se confundem necessariamente com o pensamento daqueles autores, ser convincente passou a ser mais importante que estar certo – até porque, sem verdades objetivas, ninguém poderia considerar que está certo sobre algo. A constatação do mesmo MacIntyre é certeira: “Os argumentos, é preciso dizer, passaram a ser compreendidos em alguns círculos não como expressões de racionalidade, mas como armas, técnicas de exposição que constituem uma parte decisiva das habilidades profissionais de advogados, acadêmicos, economistas e jornalistas que, através delas, dominam aqueles que não têm fluência ou articulação dialética”. Não é esse o nosso olhar sobre o poder da razão.

Descartes, nos albores da filosofia moderna, trouxe ao mundo a ilusão de que o homem seria capaz de compreender a realidade em sua inteireza, desde suas causas mais remotas até suas consequências mais imprevisíveis. A frustração dessa pretensão, nos séculos subsequentes, deu lugar a seu oposto: um relativismo generalizado que, em sua formulação pós-moderna, esconde uma contradição autodestrutiva, pois a afirmação da inexistência de verdades objetivas é imposta como verdade objetiva, ou seja, como aquilo que se pretende negar. Nem sempre é fácil perceber essa incoerência, mas ignorá-la conduz a que o relativismo permeie a sociedade, com todas as suas consequências. Se não há verdades objetivas, um núcleo central de princípios que não podem estar sujeitos a relativização, abre-se espaço para um voluntarismo que se manifesta individualmente – a escolha quanto a visões de mundo, ao que é essencial para o homem, aos valores, se torna uma questão de decisão não racional, insuscetível de compartilhamento por via de argumentação – e coletivamente, quando se consagra a vontade da maioria como “verdade” ou diretriz para a vida, sem espaço para a salvaguarda de direitos fundamentais das minorias, que precisam estar fora da ditadura da maioria.

Preferimos nos unir àqueles pensadores que não se desanimaram com a força da razão

À convicção de que o homem é capaz de atingir a verdade segue-se a convicção de que ele é capaz de recebê-la e de compartilhá-la. Revelar e propor aquilo em que se acredita é sinal claro de respeito ao outro, à inteligência do outro. Se a disposição ao debate estiver de mãos dadas com o respeito à autonomia do outro (que se fundamenta, por sua vez, na convicção forte de que a dignidade do homem requer que a busca da verdade e a orientação da própria vida sejam alcançadas pelo esforço próprio e jamais impostas de fora) e com a disposição de retificar quando se percebe o erro, será possível evitar diversas armadilhas derivadas do voluntarismo relativista, como a intolerância contra as ideias que não estejam na moda – em outras palavras, a opressão do politicamente correto. A ascensão, inclusive no meio universitário, do que se convencionou chamar de “microagressão” é prova de que essa opressão está atingindo um nível tal que até mesmo o ambiente que deveria ser o mais propício à discussão e à busca da verdade está se fechando a essa possibilidade.

As grandes questões da humanidade, é claro, não se resolvem em questão de minutos. Algumas delas consumiram vidas inteiras de labor filosófico e séculos de debates. Mas a complexidade da realidade não deveria servir para desanimar quem se entrega a essa busca. A realidade é complexa, inesgotável, mas não inatingível.

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