Antes das denúncias de corrupção, o Brasil já navegava a estibordo do programa de governo eleito nas eleições de 2002. Agora, está à deriva.
Num interessante trabalho do NOP World, instituto com sede em Nova Iorque que elabora estudos comportamentais, o Brasil ficou abaixo da média mundial de 6,5 horas semanais de tempo dedicado à leitura. E, o que é mais grave, com apenas 5,2 horas, posicionou-se em 27.º lugar dentre os 30 países focados. A pesquisa ouviu 30 mil pessoas com mais de 13 anos. No caso brasileiro, apontou, de forma aguda, uma tendência de se despender menos tempo à leitura do que à televisão, ao rádio e à internet.
Claro que é importante o acesso às mídias eletrônicas, em especial aos programas informativos, culturais e noticiosos do rádio e da tevê e aos sites de conteúdo educativo e informativo da Web. Porém, é inegável o significado da mídia impressa em especial livros, jornais e revistas para a formação de uma sólida base educativa e cultural e o ingresso de uma nação no mundo desenvolvido.
Para quem conhece o mercado editorial, os dados do NOP World não causam surpresa. Apenas referendam as estatísticas dos índices de leitura no Brasil, que continuam abaixo dos verificados em outras nações emergentes e muito distantes quando comparados com países desenvolvidos. Recente pesquisa do Ministério da Cultura revela que as editoras brasileiras estimam a venda de 178 milhões de livros em 2005. Este total exclui os cerca de 100 milhões de volumes anuais comprados pelo governo federal no âmbito do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático). Assim, basta uma conta de dividir para constatar que cada um dos 180 milhões de brasileiros, na média, não chega a comprar espontaneamente sequer um livro por ano. Reverter este quadro é fundamental. Trata-se de um dos desafios do processo de desenvolvimento, consubstanciado nas promessas de crescimento sustentado da economia, mais atenção ao social, à cultura, à educação e nos programas de inclusão social nos quais mais de 50 milhões de brasileiros votaram nas eleições de 2002. Mais uma vez, contudo, as prioridades da Nação esbarram na incapacidade gerencial que permeia o Estado. Novamente, o governo parou. Não há mais governabilidade. Governança, então, nem pensar. O que se observa diante das denúncias de corrupção que campeiam no Planalto é simplesmente a gerência política da crise, na busca de tênue sustentação do governo até as próximas eleições.
Fica muito claro, para quem já viu este filme, que as atividades técnicas do governo ficarão restritas ao controle ortodoxo da inflação, pelo menos até meados de 2007, quando o presidente emergente das urnas de 2006 terá começado a estruturar sua administração. Antes de explodirem os escândalos dos Correios e do mensalão, Brasília já navegava a estibordo do conteúdo programático vendido aos eleitores no pleito de 2002. Depois da eclosão das denúncias, contudo, ficou quase à deriva.
Confiando nas boas intenções do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto à realização do programa de governo que anunciara e também na sua inocência em meio ao mar de lama no qual parece chafurdar o Planalto, é impossível acreditar na sua plena capacitação para o cargo, à medida que não consegue impor ao seu quadro de ministros ação programática voltada ao crescimento, criação de empregos e inclusão socioeconômica e cultural e na proporção em que se mostra incapaz de diagnosticar manobras sub-reptícias intra e extragoverno, conforme consta das denúncias.
Tom Peters, um dos gurus mundiais da área de administração, acentua que cada pessoa tem um limite de capacidade para determinadas tarefas ou missões. Nesse espectro, são brilhantes; além dele, tornam-se comuns ou ineficazes. É o caso de alguns governantes, ministros de Estado, presidentes e diretores de companhias de economia mista e políticos, eficazes em suas atividades profissionais e classistas de origem, mas pouco eficientes na gestão do setor público. No Brasil, com seus 180 milhões de habitantes, graves gargalos socioeconômicos e uma predisposição histórica à corrupção, os desafios parecem transcender aos seus limites de competência. Em meio a uma conjuntura mundial altamente favorável às exportações e ao crescimento econômico, um governo estabelecido por estrondosa vontade popular e respaldado por expressivo índice de aprovação (agora já declinante) começa a perder histórica oportunidade de trilhar um atalho de eficácia entre o Brasil da mesmice comezinha e o vaticínio de "potência do futuro".
Mílton Mira de Assumpção Filho é diretor da Editora M. Books e membro da Academia Brasileira de Marketing.







