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Desta vez, a crise crônica que acompanha, desde a posse, o governo do presidente Lula, chegou muito próxima da perfeição na vereda das contradições, da omissão e do desastre administrativo, com os três poderes de mãos dadas, nos saracoteios do samba da irresponsabilidade.

É preciso limpar os óculos, abrir os olhos e duplicar a atenção para não perder os melhores flagrantes da festança dos escândalos e acompanhar o desempenho do elenco.

A começar pelo principal ator. Lula está conseguindo superar seus recordes no alegre giro por quatro países do mais sofisticado dos roteiros turísticos da Europa. Lá é verdade que se delicia com molho extravagante, como um amigo nordestino que estala a língua com a mistura de carne-de-sol com bananada.

Nos dois dias passados em Roma, na suntuosa hospedagem no Palazzo Pomphilli, na Piazza Navona, endereço nobre da Embaixada do Brasil, Lula e dona Marisa, acompanhados por membros da comitiva, saíram pelos fundos e despistaram os repórteres e fotógrafos de plantão, para passear pela fabulosa capital italiana.

Um toque de prudência e sabedoria da turma do Itamarati: o que vazou das inconfidências, indica que a refinada curiosidade do casal se satisfez com o modelo do clássico roteiro do tour de duas horas de ônibus e o guia que recita o blablablá decorado, com paradas de minutos na Basílica de São Pedro, no Vaticano; no Coliseu, na Colina de Gianicolo e demais novidades. Foi o melhor do passeio na trégua dos tropeços de costume.

O azar castiga a imprevidência. Lula viajou no pior momento, justo quando o requinte da viagem e dos seus compromissos oficiais, a fuga dos aborrecimentos da detestável rotina administrativa coincidiu a sucessão de tragédias e vexames que castiga o país. A seca na Amazônia brada pela reavaliação do projeto de oportunismo eleitoreiro da transposição do Rio São Francisco para aliviar a seca de áreas do Nordeste e que se pretende iniciar a toque de caixa no último ano do mandato do candidato à reeleição.

Não é só. O surto da aftosa em Mato Grosso do Sul, que se alastra, com quatro focos confirmados pelo Ministério da Agricultura e três sob suspeita, expôs o presidente ao constrangimento de afirmações levianas e a desmentidos chocantes.

No açodamento do improviso, garantiu que o único foco estava controlado exatamente quando soava o alarme, exigindo medidas radicais, com o sacrifício de milhares de reses das áreas suspeitas. Na tentativa de transferir a carga para ombros alheios para driblar o erro inicial do corte de verba para a compra das vacinas e a ridícula liberação de apenas 1,6% da dotação orçamentária, culpou os fazendeiros pela desídia – o que é uma meia-verdade na garupa da meia-potoca. A ambos compete o cuidado elementar na vacinação do rebanho bovino. Um pouco tarde para o acerto de conta.

Para não perder o hábito, mesmo lá das doçuras européias Lula meteu o bedelho na crise do lamaçal do mensalão e do caixa 2 em que se afunda o PT e recomendou aos deputados petistas ameaçados de cassação que renunciassem aos mandatos para abreviar o calvário oficial. Dos cinco com a corda no pescoço, apenas um, o ex-deputado Paulo Rocha, flor do buquê paraense, saltou a cerca de arame farpado. Os outros cinco petistas seguiram o conselho do deputado José Dirceu e decidiram correr o risco até o fim da linha. Teremos a crise servida na campanha eleitoral como prato de sustância.

Mas a obra-prima da barafunda institucional do país à matroca e com os três poderes saracoteando na fuzarca da irresponsabilidade chega ao seu grande momento com a inédita decisão anunciada pelo governo de não autorizar a concessão da verba suplementar de R$ 214 milhões para o pagamento dos subsídios dos parlamentares e dos salários dos funcionários do Congresso.

Um longo enredo de enganos da arrogância leviana. O ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), articulou a aprovação pelo Congresso do aumento dos vencimentos dos ministros, retroativo a 1.º de janeiro, com previsão para novo reajuste em 2006.

Surfando na onda, os funcionários do Congresso emplacaram o aumento de 15% a partir de setembro. Lula vetou a generosidade para os 35 mil servidores e aposentados com a média salarial de R$ 9 mil. O Congresso derrubou o veto. E agora descobriu que falta dinheiro para pagar subsídios e salários. O rombo inclui o aumento, no apagar da lamparina da presidência severina, de R$ 35 mil para R$ 44 mil da verba de gabinete de suas excelências, nicho de nepotismo e outras espertezas.

Não convém soltar foguete. Logo a Viúva condescendente abrirá o cofre para atender aos seus afilhados. Até lá, não é caso de ir à forra e gozar a aflição dos privilegiados na ciranda dos três poderes?

Bem feito!

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