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Sheila Ohana Ratti, ao centro, passeia com os pais adotivos; “foi um encontro de almas”.
Sheila Ohana Ratti, ao centro, passeia com os pais adotivos; “foi um encontro de almas”.| Foto: Acervo da família Ratti

Dados recentes do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) mostram que existem no Brasil 5 mil crianças aguardando por uma família adotiva. Boa parte desses jovens já estão há vários anos na fila, e quanto mais o tempo passa, menores são as chances de encontrarem uma nova família. É uma triste realidade que vem aos poucos sendo modificada pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) por meio da plataforma digital A.DOT, que nos últimos três anos deu um final feliz para 35 adolescentes.

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O número, à primeira vista, pode até parecer pequeno. Mas o juiz Sérgio Luiz Kreuz, um dos idealizadores do projeto, reforçou a importância de cada uma das adoções viabilizadas pelo aplicativo. Em entrevista por telefone à Gazeta do Povo, o magistrado disse que o A.DOT é destinado para essa faixa considerada de difícil adoção, que muito provavelmente não teria outra oportunidade.

“Estávamos em busca de alguma forma de dar visibilidade às crianças que ainda não tinham encontrado seus novos pais pelos meios tradicionais de adoção. Quando lançamos o aplicativo, eu disse que se nós tivéssemos uma única adoção por meio do aplicativo já teria valido a pena. Para essa criança, esse adolescente, nós teríamos feito a diferença. Temos hoje 35 adoções confirmadas, todas essas pessoas agora têm uma família, e dificilmente seria assim se não fosse pelo aplicativo”, explicou.

Ele informou que a plataforma está acessível para os futuros pais adotivos de todo o Brasil, mas os dados dos adolescentes só são abertos para as famílias ou pessoas que já estão habilitadas para a adoção. O aplicativo foi criado no Paraná, mas vem sendo utilizado também pela Justiça da Bahia, Minas Gerais, Acre, Mato Grosso do Sul, Paraíba, São Paulo e Tocantins. Crianças mais novas não entram na base de dados do A.DOT, confirmou o juiz, já que a plataforma é tida como “a última chance de alguns desses jovens encontrarem uma família”.

“É para dar visibilidade a essas crianças e adolescentes. E é uma visibilidade que só aparece para quem já está habilitado para adoção, para quem realmente quer adotar. Isso é feito para não criar mais frustrações nesses jovens. São crianças que já passaram por enormes perdas afetivas. Muitas vezes passaram por várias instituições, pelas mãos de vários parentes. As perdas afetivas são muito grandes, então a gente tinha que ter um cuidado muito grande com elas”, explicou.

Foi assim com Sheila Ohana Ratti, que em 2019 vivia em um abrigo em Curitiba. Prestes a fazer 16 anos, ela desistiu de ser adotada junto do irmão, 4 anos mais novo, porque sabia que sua idade poderia ser um impedimento para que ambos encontrassem uma nova família. O irmão foi escolhido por uma família de Curitiba, e ela havia sido selecionada no aplicativo por duas famílias, uma de Londrina e outra do interior de Minas Gerais.

“Eu fiz esse primeiro contato, mas não consegui sentir a certeza se aquelas eram as pessoas certas. Meu coração dizia que não eram eles. Quando fiquei sabendo que teria uma terceira família, meu coração bateu mais forte. Não sabia nada deles, mas meu coração já sabia. Eu senti que era mesmo a minha família que estava ali”, contou a jovem, hoje com 18 anos, em entrevista por telefone à Gazeta do Povo.

A família que balançou o coração de Sheila antes mesmo do primeiro encontro era a de Cristiane Ratti. Moradores do interior paulista, ela e o marido resolveram adotar uma criança, uma vez que ela passava por um tratamento sério de saúde que precisaria ser interrompido para a gravidez. Em princípio, o perfil escolhido foi o de uma menina entre três e cinco anos de idade. Mas depois que eles acessaram o A.DOT pela primeira vez passaram a repensar a escolha que haviam feito.

“Nós vimos um depoimento de um menino que perguntava se só os bebezinhos tinham esse direito de ter uma família. Porque todo mundo quer adotar um bebezinho, mas ninguém olha para esses adolescentes. E ele perguntava: ‘nós, adolescentes, não temos esse direito?’. Isso mexeu muito com a gente, e fez com que a gente decidisse mudar o perfil. Em uma das entrevistas, durante a habilitação, nos perguntaram se eu e o meu marido tivéssemos tido uma filha biológica, qual idade ela teria agora. E a gente percebeu que seria nessa faixa dos 14, 15 anos. Porque nós também não temos mais toda aquela energia para ficar correndo atrás de criança pequena”, disse a mãe.

Ela lembra que encontrou o perfil de Sheila no aplicativo e logo solicitou a aproximação. Ela persistiu, e não desistiu do encontro mesmo quando soube que havia duas outras famílias à sua frente no processo de aproximação. Três semanas depois veio a notícia de que seria a vez dela de conhecer a adolescente.

“O juiz autorizou a aproximação e nós passamos uma semana em Curitiba. Mas a psicóloga alertou que uma semana era muito pouco para essa aproximação, e avisou que teríamos que voltar mais vezes. Mas foi tudo tão intenso, tão certo, tão de coração que a nossa filha pediu uma audiência com o juiz para dizer que ia voltar com a gente para o interior de São Paulo”, lembrou.

Sheila também leva boas memórias dos primeiros encontros. Ela conta que quase não conseguiu dormir de ansiedade no dia que antecedeu a primeira visita daquela que se tornaria sua nova família. “Quando eu tive o contato com eles pela primeira vez eu suei muito, minhas pernas tremiam. Minha mãe fez um carinho nas minhas costas, e isso me derreteu. Quando voltei para o abrigo, os amigos falaram ‘nossa, nunca vimos esse brilho no seu olhar’. Para mim foi um encontro de almas”, resumiu a jovem.

O processo de adoção de Sheila já estaria concluído se não fosse a pandemia de Covid-19. As últimas audiências necessárias para a decisão judicial estavam marcadas para abril de 2020, mas foram adiadas sem previsão. Para a jovem, que mantém contato quase que diário com a família que está adotando o irmão mais novo, o processo de encontrar uma nova família, apesar de ainda não terem sido expedidos os documentos, já pode ser dado como concluído. “Quando eu fiz o vídeo eu fui muito sincera. E a sinceridade que veio deles foi o que me conquistou. Tudo o que eles mostraram há dois anos é a mesma coisa agora”, disse.

O juiz Sérgio Luiz Kreuz disse esperar que a história de Sheila e Cristine seja cada vez mais a regra, e não a exceção. Ele lembrou que o Paraná é o estado recordista em acolhimento familiar pré-adoção. “De cada cinco crianças em situação de adoção no estado, uma é acolhida por uma família durante todo o processo. Comparado com a média nacional, que é de apenas 4% nossa realidade é muito boa. Mas ainda falta muito para chegar aos números da Europa, por exemplo, onde apenas cinco a cada 100 crianças vão para abrigos”, explicou. “Eu já vi coisas terríveis acontecendo nesses abrigos. O menino chega aos 18 anos de idade, completa a maioridade, e o presente de aniversário é uma sacolinha de lixo ou de mercado com as roupas dele e um ‘tchau, seu tempo acabou, não pode mais ficar aqui, se vira’. Muitas vezes todo o trabalho que se fez lá atrás quando essa criança foi acolhida se perde”, concluiu o juiz.

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