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Maquinário agrícola não é adaptado para uso de alternativas aos fertilizantes industrializados, como o esterco animal
Maquinário agrícola não é adaptado para uso de alternativas aos fertilizantes industrializados, como o esterco animal| Foto: Divulgação / AEN / Gilson Abreu

A Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) emitiram notas técnicas nas quais apresentam possíveis alternativas ao uso de fertilizantes industrializados pelos produtores no estado (aqui e aqui). Entre as recomendações está o uso de dejetos orgânicos, como o esterco oriundo de aviários e da criação de suínos no lugar dos produtos importados da Rússia, em guerra com a Ucrânia há mais de um mês.

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Porém, apesar de ter um enorme potencial para substituir esses fertilizantes industrializados por esterco, o Paraná ainda esbarra em questões logísticas que dificultam o acesso dos produtores de todo o estado a esse produto. A avaliação foi feita pelo técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP/SENAR-PR, Bruno Vizioli.

Em entrevista à Gazeta do Povo o especialista disse que no Paraná são produzidos anualmente cerca de 62 milhões de toneladas de esterco – deste total, 47 milhões de toneladas de esterco bovino e suíno e 15 milhões de toneladas da chamada “cama de aviário”. Ele reforçou um dos pontos enfatizados pelas notas técnicas – a necessidade de uma análise detalhada das características do solo antes do uso de alternativas aos adubos químicos – e explicou que não há muito o que possa ser feito a curto prazo a não ser otimizar o uso dos fertilizantes industrializados já estocados pelos produtores.

“A única alternativa que nós recomendamos é o uso racional do adubo industrializado. O produtor precisa fazer uma análise de solo e monitorar a lavoura para saber exatamente o quanto de adubo ele precisa. Hoje, em boa parte dos casos, não é feita essa análise de solo. Aplica-se uma quantidade qualquer, parecida com a aplicada pelos vizinhos, e não se considera analisar exatamente o solo de sua propriedade. É preciso conhecer onde se está produzindo. Se isso for feito de forma correta, a economia já seria considerável”, analisou.

"Oferta é gigantesca, mas falta logística de distribuição"

Sobre o uso de esterco e outros dejetos animais, Vizioli fez algumas considerações. Uma delas é que falta ao Paraná uma estrutura de processamento que facilite desde a coleta deste material até o transporte às áreas de produção agrícola. Segundo o técnico, são falhas logísticas que precisam ser corrigidas ao longo de pelo menos uma década antes de apresentar resultados efetivos. “A oferta é gigantesca, mas não há logística de distribuição. Não chega até os produtores, que reclamam que mesmo com todo esse volume não têm onde comprar o esterco”, pontuou.

“Há um senso comum”, explicou o técnico, “de que basta pegar esse material in natura e espalhar. Não é bem assim”, disse. Isso porque, de acordo com Vizioli, esses dejetos têm um potencial contaminante ao solo caso sejam utilizados de forma errada. “Não é porque é um produto natural, de origem animal, que pode ser aplicado no solo como o produtor bem entender. Se isso for feito da maneira incorreta, pode acabar contaminando o solo. A possibilidade de que isso ocorra pode até ser pequena, mas existe”, comentou.

Esterco exige adaptação de maquinários

Outro problema é a falta de uniformidade no material, que impossibilita o uso direto do esterco no maquinário calibrado para o uso de fertilizantes industrializados. “Os fertilizantes químicos granulados ou em pó são produtos de mais fácil distribuição. Não dá para colocar qualquer tipo de material no lugar. Tem alguns produtores que fazem essa modificação nos aparelhos, mas não há padronização no tamanho desse material dos aviários, pode danificar o maquinário”, alertou.

Quanto aos dejetos líquidos, como os resultantes da criação de suínos, as dificuldades apontadas por Vizioli são ainda maiores. Diferente do esterco seco, que tem uma eficácia muito próxima à dos fertilizantes industrializados, os líquidos perdem poder de ação por serem, em boa parte, formados por água. A demanda por logística de armazenamento também é maior do que a dos dejetos secos, o que pode inviabilizar o uso.

“Esses dejetos líquidos são mais difíceis de transportar, precisa achar um caminhão pipa que faça esse transporte. E por ser líquido, a eficiência cai justamente por boa parte deste dejeto ser água. Uma solução possível para o esterco líquido seria passar por um processo de biodigestor, gerar energia, secar o resíduo do biodigestor para só depois comercializar. Mas para tudo isso é preciso um investimento em escala industrial que nós ainda não temos no estado”, explicou.

Esterco esbarra na logística de transporte em longa distância

Vizioli observou que no entorno das regiões de maior produção animal no estado, como Toledo, Castro e Francisco Beltrão, o uso do esterco é mais viável pelo fato de as lavouras estarem mais próximas dos locais de captação de esterco. Estudos feitos pelo Sistema FAEP mostram que para distâncias maiores de 12 quilômetros, o frete dos dejetos suínos passa a ser inviável.

“Essas são regiões onde a pecuária é muito forte. Ali esses dejetos podem ajudar o produtor a afrouxar esse nó no pescoço. Mas para outras regiões isso acaba não sendo assim de tanta ajuda, falta essa questão industrial, essa logística que poderia ser suprida por polos industriais regionais. Não temos o produto industrializado e nem um sistema de transporte para que esse esterco chegue a produtores mais distantes”, ponderou.

Solução para o uso do esterco pode levar décadas

A saída está em atacar o problema o quanto antes, avaliou o técnico. Mas não há milagres e nem soluções a curto prazo, revelou Vizioli. Os impactos que a instalação desses polos industriais para o tratamento e distribuição de fertilizantes naturais baseados em esterco só seriam sentidos, nas contas do especialista, daqui a pelo menos 10 anos.

“Esse potencial poderia ter sido explorado há 10 anos, no início dos anos 2010. Se isso tivesse sido pensado lá atrás, a gente provavelmente não estaria tão preocupado quanto agora. Uma mobilização agora para a industrialização desses dejetos nos traria resultados nos anos 2030, 2040. Todo esse potencial que existe no nosso estado está indo literalmente para o lixo. O uso de dejetos não é o salvador da pátria, mas sim algo que pode resolver dois problemas: o ambiental e a falta de fertilizantes. Pode tirar um pouco dessa pressão pelos importados e evitar que muito desse material potencialmente poluente vá para a natureza de forma errada. Nosso potencial é enorme para que a longo prazo esse dejeto substitua totalmente os fertilizantes industrializados, mas essa não é uma solução para agora”, concluiu.

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