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Camila Lanes, candidata do PCdoB.
Camila Lanes, candidata do PCdoB.| Foto: Leonardo Costa/Divulgação

Dois anos após uma eleição federal de ânimos exaltados entre eleitores de posicionamentos políticos opostos, a candidata à prefeitura de Curitiba pelo PCdoB, Camila Lanes, prega diálogo entre a esquerda que representa e a direita. Em sua primeira disputa pelo Palácio 29 de Março, ela prega o discurso de que “política se faz para todos, não só um setor”.

Aos 24 anos, a candidata tem um longo histórico de militância estudantil. Nascida em Curitiba, teve contato com organizações sociais ao entrar, aos 16 anos, para o movimento estudantil de sua escola de ensino médio em São José dos Pinhais, onde murou alguns anos. Desde lá, conquistou espaço no meio, chegando à presidência da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (Upes) e, posteriormente, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

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Em Brasília, passou a acompanhar e fiscalizar de perto a política federal. Com o movimento estudantil, teve voz ativa em diversos enfrentamentos políticos pela defesa de interesses da educação. “Dessas intensas relações políticas e de estar dentro do Congresso e entender como a política de Brasília funciona, comecei a me aproximar das questões político-partidárias”, relembra.

De volta à capital paranaense, seu caminho político estava traçado. Em 2018, tentou o cargo de deputada federal. Agora, volta suas energias para Curitiba, onde espera ser eleita a primeira prefeita do município.

Nas eleições de 2018, o presidente Jair Bolsonaro teve votação alta em Curitiba, em ambos os turnos (acima de 60%). Seu partido está do outro lado político. A senhora acredita que pode dialogar com esse eleitorado que há menos de dois anos se inclinava para pautas ligadas à direita?

Sim. Quem está à frente da administração pública, seja da esquerda, seja da direita, precisa ter o entendimento, e eu acho que a gestão do Bolsonaro não ajuda com isso, que é de não se dialoga somente com uma parte da população. O Bolsonaro, eleito, não pode, embora não entenda isso, dialogar somente com a direita, com as alas mais conservadoras, e encerrar o diálogo com o outro campo. Em Curitiba é a mesma coisa. Eu tenho a impressão, e eu ponderei isso no discurso no lançamento da minha candidatura, que aqui em Curitiba não é necessariamente que o eleitor tenha um perfil mais próximo do setor conservador. Mas é a ausência das alternativas de projeto. A cidade tradicionalmente faz o que quase a gente pode considerar uma ‘política do café com leite’ [o termo se refere à alternância de poder somente entre membros das oligarquias na República Velha]. Porque os projetos, por mais que sejam elaborados por pessoas distintas, são muito próximos. Os interesses econômicos, os interesses comerciais, os pontos que falam de educação, que falam sobre a religião, que falam sobre a cultura... Eu vejo que a nossa cidade, inclusive, tem essa proximidade com essas pautas porque, de fato, não existiu ainda quem ousasse apresentar alternativa, uma nova lógica para a nossa cidade. Recentemente me perguntaram se eu acho que existe diálogo com quem votou 17 [legenda do PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro] nas últimas eleições presidenciais. Eu acho que sim. Os nossos candidatos e candidatas precisam entender que política se faz para todos, não só um setor. Se a gente tem, de fato, uma cidade mais conservadora, então vamos disputar a opinião desse conservadorismo, para que a gente possa garantir mudanças e avanços para a capital do Paraná.

Qual é a sua análise sobre a influência do movimento estudantil na política local e como isso pode ajudar na sua eleição?

O movimento estudantil é uma parcela dos movimentos sociais que muitas vezes é subestimado por ser composto, em sua maioria, por jovens estudantes. Mas, cada vez que eu me coloco e me aprofundo mais nessa vida político-partidária, que é muito distante do que é o movimento estudantil, eu vejo que muitas pautas que eu defendi durante toda a minha trajetória à frente das entidades estudantis encaixam muito bem nas propostas que a cidade precisa. Vou dar um exemplo: o passe livre estudantil. Essa pauta é mais do que histórica. É uma pauta que o movimento estudantil sempre reivindica. Quando você vai para o debate sobre Curitiba, numa ótica do transporte público, cai um pouco desse tema. A defesa da educação pública, a defesa do SUS, o fim da terceirização e privatização, a taxação das grandes fortunas. Todas são pautas que no percurso que eu tive nas entidades estudantis foram apresentadas e eu pude estudar e debater. Pude conhecer mais. O meu maior desafio hoje é fazer com que todos entendam que sim, a juventude curitibana tem condições de debater política, de ocupar a política. Eu tenho muitos amigos que são próximos que têm a mesma idade, ou são um pouco mais jovens, ou um pouco mais velhos, mas que vão se colocar à disposição para a vereança neste ano na nossa cidade. Isso demonstra que o jovem curitibano está interessado em ocupar esses espaços. A gente precisa entender como nós vamos garantir que, de fato, eles ocupem. Nossa Câmara de Vereadores e a prefeitura são dois espaços em que existe uma hegemonia. Ela precisa dar lugar a pessoas e projetos que falem de outras Curitibas que existem. Está na hora de a gente mudar isso, de conseguir ter uma ótica diferente. Tudo que eu aprendi no movimento estudantil me ajudou. Claro, não será um norte para o governo de Curitiba, que é uma grande capital que já ocupou lugares em rankings nacionais e internacionais como cidade-modelo. Não dá para diminuir Curitiba ao que aprendi no movimento estudantil. Mas tem muito do sentimento do que aprendi. Esse projeto que estou apresentando não é feito só por mim. É feito por várias pessoas. A ideia é que a gente traga justamente essa pincelada dessa irreverência do que é o movimento estudantil, mas com muita seriedade, maturidade e responsabilidade. Estamos falando da maior capital do Sul do país.

O que representaria ser a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe do Executivo municipal?

Curitiba é uma cidade majoritariamente feminina. Mais de 50% dos habitantes são mulheres. Nós temos uma carga muito grande. É chocante saber que a nossa cidade nunca teve uma mulher à frente da administração pública. Não podemos deixar de saudar as figuras femininas que estiveram pontualmente à frente da prefeitura. A Mirian [Gonçalves, vice-prefeita de Curitiba na gestão Gustavo Fruet – de 2013 a 2016] foi uma delas. Mas agora chegou o momento de a nossa cidade mudar a ótica de como a administração pública funciona. A gente tem uma série de questões que precisamos pontuar na cidade. Uma delas é a terceirização do sistema público de saúde. São temas que atingem em especial as mulheres, as jovens meninas. Tem temas em todo o território nacional. A gente vê cada vez mais as mulheres ocupando os espaços de opinião, os espaços de poder, a academia, os espaços de cultura...  Isso não deve e não pode estar distante da nossa cidade. Quando a gente fala de uma administração feita por mulheres, também é uma administração mais humana, mais humanizada, mais presente no cotidiano dos nossos curitibanos e, em especial, das nossas curitibanas. Curitiba foi um grande palco para o #EleNão [uma série de manifestações contra o então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, em 2018]. Eu estive na rua e eu fiquei arrepiada. E continuo arrepiada toda vez que eu lembro a quantidade de mulheres ocupando as ruas para dizer ‘ele não nos representa’. Está na hora de a nossa cidade também dar luz e voz a essas mulheres. Eu estou me desafiando a ser uma das portas-vozes das milhares de vozes que nós temos em Curitiba. Entendo que precisamos nos dedicar muito a entender a nossa Curitiba como uma cidade democrática, como uma cidade humanizada, uma cidade que tenha a política das mulheres, que tenha o olhar das mulheres no centro. A gente tem algumas provas de que quando as mulheres estão à frente, as coisas tendem a ser um pouco mais sensíveis. E não tenho medo de usar a palavra ‘sensível’. Acho que, sim, precisamos de sensibilidade para entender o que Curitiba precisa. E tenho certeza de que isso só será feito bem quando uma mulher estiver à frente.

Se a senhora fosse prefeita hoje, o que teria feito de diferente no combate à Covid-19 em relação à gestão atual?

A Covid-19 não é exclusividade de nossa capital. Infelizmente é algo de impacto no mundo. A gente tem milhares de casos em nossa cidade, centenas de mortes, ocupação dos leitos de UTI. Não posso culpar única e exclusivamente a atual gestão, a atual secretaria de Saúde, porque eu entendo que existe, sim, uma série de ações que estão sendo feitas para tentar diminuir os impactos da pandemia. Eu discordei e discordo de algumas decisões tomadas durante esse processo de combate, como a abertura precoce dos shoppings, das academias, dos bares. Acho que por melhor que tenha sido a intenção da decisão, ela foi precipitada, porque depois a gente teve que retomar o fechamento desses mesmos estabelecimentos por entender que, ao contrário do que se pensava, não diminuiu o impacto. Quando a prefeitura anunciou a bandeira amarela teve uma série de estabelecimentos que voltaram. É necessário que a gente tenha muito mais sabedoria sobre as decisões tomadas. A prefeitura tentou e fez muitos esforços. Eu mesmo critiquei algumas decisões que o [prefeito] Rafael Greca (DEM) tomou para o combate à pandemia. Mas não acho que posso ser desumana e responsabilizar ele ou responsabilizar terceiro ou quarto porque, se for para criticar algo, acho que nós pecamos na conscientização do curitibano sobre os impactos da pandemia.

Vejo isso pela volta da aglomeração em muitos bares, em muitos parques, e isso é a maior prova de que não existiu uma conscientização, em especial por parte da juventude, que não conseguiu assimilar que, por mais que nós não sejamos os mais afetados, nós somos os que mais transmitem o vírus. Penso que a gente tem que ter muita empatia e sentimento de pêsames às famílias que perderam seus membros. É um momento muito triste para todo mundo. Precisamos estar em vida rememorando todos os ensinamentos dos que partiram, mas vejo também que precisamos nos preparar para o pós-pandemia, se é que vai existir um pós-pandemia, garantindo que só retornemos de fato às atividades quando tivermos vacina para todos. Tenho uma preocupação enorme com a volta às aulas aqui no Paraná, seja das escolas municipais ou estaduais. E com a volta ao trabalho, porque a gente não está falando só sobre o trabalhador sair de casa, cumprir sua hora de trabalho e voltar. Tem todo um caminho. A gente precisa pensar se o transporte público de nossa cidade tem condições de apresentar distanciamento social real a todos os trabalhadores que o utilizam diariamente. Vejo que precisamos rever os cuidados com hábitos antigos. Tudo isso só vai acontecer quando a prefeitura tiver uma campanha real de conscientização.

Se sobrar recursos para investimento no pós-pandemia, em que áreas aplicaria esse dinheiro e por quê?

Saúde. Vou falar novamente sobre a terceirização das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Nossa cidade hoje tem uma única UPA terceirizada funcionando, que é a do CIC. A prefeitura já desejou e deseja fazer a terceirização em outras unidades: Cajuru, Boa Vista e Sítio Cercado. Existe uma briga judicial entre a prefeitura e os sindicatos, justamente porque existe uma investigação do Ministério Público para apurar o processo da terceirização dessas unidades. O maior desafio do ano de 2020 foi a crise sanitária. Foi inclusive entender o papel que o SUS tem no nosso município. Se existir de fato uma brecha financeira para conseguir trazer melhorias para os curitibanos seria usado na saúde. A gente tem um grande desafio para superar a pandemia. É necessário que a gente supere nossos problemas referentes a esses órgãos do nosso município que garantem o atendimento e o acompanhamento da saúde de milhares de curitibanos. A gente vê que a alta rotatividade de profissionais, a piora no atendimento da população, a falta de transparência na administração das unidades, o rito de saúde da população, em especial agora, nessa pandemia, a entrada da iniciativa privada para administrar os serviços públicos são alguns dos motivos que me fazem entender que a terceirização não é a saída para os nossos problemas. Ao contrário. Essa ideia do estado menor, quando a gente fala em políticas básicas, não pode cair. Tanto na Saúde quanto na Educação. São dois setores em que o nosso município precisam se empenhar mais e entender como melhorar, não diminuir.

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