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"Chegando ao limite”

Fim da escala 6×1 eleva custos em até 22% na indústria têxtil, aponta presidente da Faciap

Flavio Furlan, presidente da Faciap alerta para custos do setor produtivo no Paraná.
Flavio Furlan, presidente da Faciap alerta para custos do setor produtivo no Paraná. (Foto: Adilson Faxina/Faciap)

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Presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap), Flavio Furlan avalia que a aprovação do fim da escala 6x1 pela Câmara dos Deputados representa risco de aumento de custos trabalhistas de até 22% no setor têxtil, com reflexos diretos na competitividade da indústria e possível repasse de preços ao consumidor final.

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Em entrevista, Furlan detalhou como a Faciap atua na articulação entre as cerca de 300 associações comerciais filiadas, buscando fortalecer o ambiente de negócios sem perder de vista as particularidades econômicas de cada região do estado, que consolidou posição entre os principais polos empresariais do país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o estado soma 2,03 milhões de empresas ativas.

Furlan avalia que o cenário combina expansão do ambiente de negócios e aumento dos desafios para o setor produtivo. Natural de Toledo, empresário do setor têxtil e advogado especializado em Direito e Processo do Trabalho, o presidente da Faciap comenta os debates que envolvem as relações de trabalho e defende que soluções nacionais precisam considerar as diferenças entre os segmentos da economia.

“Não podemos tratar a economia como se todos os setores fossem iguais. Cada um tem uma realidade diferente”, afirma.

Confira a entrevista com o presidente da Faciap

Dados de maio de 2026 da Faciap e SPC Brasil acenderam um alerta: a inadimplência no Paraná cresceu 8,51% em um ano, e o ritmo mensal de aumento superou a média nacional. Mais de 61% dessas dívidas estão concentradas nos bancos. Como chegamos a esse cenário?

Flavio Furlan: O que está faltando é educação financeira. O governo federal criou facilidades que são ilusórias. Temos os empréstimos consignados que, embora a responsabilidade pelo pagamento seja do empregado, o repasse passou a ser responsabilidade do empregador.

Eu sou industrial, tenho 950 empregados na fábrica e praticamente 50% destes têm algum empréstimo descontado em folha. Isso acaba se tornando uma bola de neve. Se você não tem educação financeira e recebe a oferta de um empréstimo para cobrir as contas, com juros de 2% ao mês, pode parecer barato em comparação ao cheque especial, que hoje chega a 8% ao mês. Mas não é, porque em menos de um ano uma parte significativa da sua renda já estará comprometida com essa dívida.

Esse impacto hoje extrapola a saúde financeira dos trabalhadores?

Temos outros problemas. Entrou em vigor a NR-1, que passou a incluir os riscos psicossociais. Na prática, determina que as empresas adotem medidas para promover um ambiente de trabalho saudável. E a inadimplência afeta diretamente o bem-estar das pessoas.

Quem está endividado não passa bem. Isso traz impactos para a qualidade de vida, para a saúde mental, para o sono e para o desempenho no trabalho. Ou seja, cria-se um conjunto de problemas decorrentes da inadimplência, que muitas vezes é consequência da falta de educação financeira e do desconhecimento sobre o peso de assumir vários empréstimos ao mesmo tempo.

Já que entramos no tema, passaram a vigorar as novas regras do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Qual é o maior receio do empresariado quanto à fiscalização dessa nova norma?

A NR-1 não é uma norma recente, existe desde 1978. O que houve agora foi uma atualização para adequar os controles que as empresas precisam adotar no ambiente de trabalho em relação à segurança, tanto física quanto mental. No período pós-pandemia, tivemos uma transformação nas relações de trabalho. Muitas empresas passaram a adotar o home office, e o PGR ganhou uma abrangência maior.

Não basta o empregador dizer que o funcionário vai trabalhar em casa. É preciso oferecer condições adequadas para isso. O ambiente onde esse trabalhador vai prestar serviço precisa atender a requisitos de ergonomia, iluminação e outros aspectos relacionados à saúde e à segurança. Isso também passou a ser uma responsabilidade do empregador.

E como atender a essas novas normas?

Temos 38 normas regulamentadoras, que disciplinam a forma de trabalho e estabelecem programas de prevenção voltados à saúde física e mental do trabalhador. Ainda há muitas discussões sobre a forma de fiscalização dessas regras. Por isso, temos trabalhado, tanto no sistema federativo quanto nas associações comerciais, orientando sobre a necessidade de criar mecanismos e de olhar com atenção para essas transformações no mundo do trabalho. Convivemos com automação, teletrabalho e questões relacionadas à ergonomia. Não basta apenas evitar um trabalho repetitivo. É preciso garantir um ambiente de trabalho saudável.

A aprovação do fim da jornada 6×1 pela Câmara é outra discussão que gerou forte reação do setor produtivo no Paraná, com entidades apontando o risco de demissões e um aumento de até 22% nos custos trabalhistas. Como os diferentes comerciantes vão sentir esse impacto?

Existem situações muito diferentes de impacto entre a indústria, o comércio, a prestação de serviços, variando conforme o porte das empresas. Essa é uma discussão política, não uma discussão sobre a jornada em si. A construção civil, por exemplo, trabalha há mais de duas décadas com a jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso, compensando a jornada de sábado. Então, é preciso entender as particularidades de cada setor, mas ainda não temos clareza sobre esse impacto.

No setor têxtil, estimamos um aumento de 22% nos custos de produção, considerando apenas a folha de pagamento. Convivemos com uma taxa de juros extremamente alta, que dificulta novos investimentos.

Para absorver uma nova jornada, haverá aumento nos custos da cadeia produtiva, e isso, inevitavelmente, será repassado ao consumidor. Tudo isso reduz a competitividade da indústria brasileira em um mercado globalizado. O que nos preocupa é que não estamos preparados para assumir mais esse aumento de custos sem estudos específicos para cada setor.

Acredita que a forma como a discussão está sendo conduzida condiz com as demandas do trabalhador?

Historicamente, essa discussão sempre ocorreu entre sindicatos e empresas, respeitando as características de cada categoria. Hoje existem mais de 17 mil sindicatos no Brasil e, sinceramente, não sei qual será o papel deles se houver uma imposição legal sobre esse tema. Uma norma desse tipo engessa a negociação coletiva. Muitos sindicatos poderão perder espaço, porque restará apenas discutir a correção anual dos salários.

E essa é uma discussão muito limitada. Se a empresa perde competitividade, a margem para conceder reajustes além da inflação também diminui. Além disso, há uma confusão entre escala de trabalho e limite de jornada. Muita gente que participa desse debate não conhece, de fato, o custo das horas extras, a forma como esse cálculo é feito e o impacto que isso gera no custo de produção. Na nossa avaliação, se houver a adoção da jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso da forma como vem sendo discutida, haverá um aumento significativo dos custos, com reflexos na inflação.

A Faciap vê espaço para um meio-termo na discussão que tramita no Senado, como a flexibilização para 40 horas semanais por acordo coletivo, ou o modelo atual é considerado inviável?

Os estudos demonstram que a produtividade do trabalhador brasileiro ainda é muito inferior à de trabalhadores de países desenvolvidos. Se nem com uma jornada de 44 horas conseguimos atingir o nível de produção de um trabalhador americano ou chinês, não vejo como a simples redução da jornada possa beneficiar o trabalhador. De nada adianta ter mais horas livres e menos poder aquisitivo. Qual é a vantagem de ter tempo para levar o filho ao cinema se não há dinheiro para comprar a pipoca?

Na minha visão, a discussão deveria começar pela redução dos custos da folha de pagamento e da carga tributária incidente sobre ela. É claro que todo mundo sonha em trabalhar menos. Não é essa a questão. No cenário atual da nossa economia e diante dos elevados custos tributários sobre a produção, não vejo espaço para uma redução da jornada.

Desde o início do ano, o Brasil está em uma encruzilhada devido às guerras e ao tarifaço. Como isso tem chegado ao bolso dos empresários?

Esse aumento de tarifas para determinados setores anunciado pelos Estados Unidos abriu oportunidades em outros mercados. Logo após as primeiras notícias sobre o chamado "tarifaço" diversos países da África e do Oriente Médio, que não mantêm uma relação regular de importação e exportação conosco, procuraram a nossa federação por meio de suas embaixadas.

O que mais nos preocupa, porém, não é essa taxação específica dos Estados Unidos mas, por exemplo, as restrições à exportação de carnes para a Europa. Muitos dos produtos que mais exportamos para os EUA, como madeira, suco de laranja e café, ainda terão suas tarifas revistas ou até mesmo isentadas. A própria economia americana depende de diversas matérias-primas que o Brasil exporta, o que naturalmente levará esse tema ao debate interno.

O senhor avalia que a diplomacia brasileira tem sido técnica o suficiente para proteger os interesses de estados exportadores como o Paraná?

Esse cenário é como uma adaptação do mercado internacional, na qual precisamos melhorar e nos profissionalizar cada vez mais. O que me preocupa é a falta de proatividade do governo federal em algumas questões estratégicas. A restrição da carne ao mercado europeu é um exemplo.

Há anos a União Europeia alerta que é necessário implantar mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva, inclusive em relação aos agentes biológicos utilizados no combate a carrapatos e outros parasitas da produção animal. Se esse sistema de rastreamento estivesse plenamente implementado, provavelmente não enfrentaríamos esse tipo de barreira. O que temos observado é uma falta de atenção dos órgãos federais às novas exigências do mercado internacional.

Pensando nas eleições deste ano, quais são as prioridades que a Faciap vai colocar na mesa dos candidatos paranaenses?

Temos um mapeamento das necessidades e das prioridades para o desenvolvimento da nossa cadeia produtiva. O Paraná vive um crescimento exponencial, especialmente na indústria e na agroindústria, impulsionado pelas grandes cooperativas. No entanto, estamos chegando ao limite da nossa capacidade logística.

Não adianta ampliar a produção se não houver meios adequados para escoá-la. Há cerca de 30 anos discutimos a implantação de uma ferrovia que ligue o oeste do Paraná ao Porto de Paranaguá. Tivemos recentemente as concessões de pedágio, que preveem um grande volume de investimentos nos próximos sete anos, mas o setor produtivo precisava dessa infraestrutura para ontem. A necessidade de ampliar os corredores de escoamento é uma realidade.

O Porto de Paranaguá vem batendo recordes de exportação, mas também opera próximo do seu limite. Enquanto isso, Santa Catarina avançou. No Paraná, ainda enfrentamos discussões ambientais que precisam ser resolvidas em um futuro muito próximo. Precisamos do apoio do Ministério Público, especialmente do MP Estadual, e de um diálogo mais aberto e objetivo com os órgãos de fiscalização ambiental para que essas obras possam avançar com segurança jurídica e responsabilidade ambiental.

O que não pode acontecer é os órgãos responsáveis pela infraestrutura dizerem que, em comparação com outros estados, o Paraná está muito bem. Essa justificativa não se sustenta, porque cada estado tem uma realidade diferente e níveis distintos de desenvolvimento. No âmbito do G7, é importante destacar que essa não é apenas uma pauta da Faciap. Nossos associados incluem produtores rurais, prestadores de serviços, indústrias e o comércio.

Por isso, estamos alinhados com a Federação das Indústrias, a Federação do Comércio, a Federação da Agricultura e as demais entidades. Posso adiantar ainda que o G7 está desenvolvendo um estudo conjunto sobre políticas públicas, justamente para construir propostas integradas voltadas ao desenvolvimento do Paraná.

Além da infraestrutura, o que merece atenção no estado?

Precisamos olhar para cada ciclo da economia, especialmente para a agricultura, as safras e os insumos da produção, de forma específica. Quando se fala em benefícios para determinados setores, muitas vezes parece que são privilégios, mas é preciso acompanhar a dinâmica da economia global e entender as necessidades de cada segmento. Não podemos tratar a economia como se todos os setores fossem iguais. Cada um tem uma realidade diferente.

Um exemplo é a questão do kit escolar. O estado realizou uma licitação e a empresa vencedora é de São Paulo. Temos cerca de 21 mil empresas entre livrarias e papelarias no Paraná que deixam de faturar e, consequentemente, deixam de gerar arrecadação para o estado. Não podemos analisar uma situação como essa de forma simplista.

É necessário considerar os efeitos sobre a economia paranaense sempre que uma decisão desse porte é tomada. Abrimos uma pesquisa interna para identificar quais são as prioridades de cada setor e, a partir desse diagnóstico, elaborar propostas de políticas públicas que consideramos necessárias para apresentar ao governo do estado e aos futuros governantes.

Com a proximidade das eleições, reascende o alerta de assédio eleitoral no ambiente corporativo. Onde está a linha tênue entre o debate político saudável e as práticas que configuram abuso do poder econômico dentro das organizações?

Flavio Furlan: Trata-se de uma área bastante sensível, porque existem limites claros sobre o que pode e o que não pode ser feito durante o período eleitoral. O principal ponto é a liberdade de voto.

Nas eleições passadas, vimos diversas ações civis públicas propostas pelo Ministério Público do Trabalho contra empregadores que entravam nas linhas de produção para manifestar apoio a determinados candidatos e, em alguns casos, faziam ameaças, dizendo que, se determinado candidato não fosse eleito, os trabalhadores perderiam o emprego. Esse tipo de imposição ou intimidação precisa ser evitado.

O que defendemos é a orientação e a conscientização. As regras estão estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral, e elas deixam claro que qualquer pessoa pode expressar sua opinião pessoal. O que não pode ocorrer é que essa manifestação seja feita com caráter de ameaça, constrangimento ou qualquer forma de restrição à liberdade de pensamento e de voto dos trabalhadores.

Seed afirma que licitação não permite critério de localização

A reportagem solicitou ao governo do Paraná um explicação sobre a escolha da empresa vencedora do edital mencionado pelo entrevistado. Em nota, a Secretaria Estadual de Educação (Seed) informou que a contratação segue um processo licitatório garantindo ampla concorrência, isonomia entre os participantes e total transparência e, por isso, não pode escolhê-los com base em localização geográfica.

“Os editais não podem estabelecer critérios que restrinjam a participação de empresas em razão de sua localização geográfica. Assim, vence a licitação a empresa que atende a todos os requisitos técnicos e legais previstos no edital e apresenta a proposta mais vantajosa para a Administração Pública. Cabe destacar que, no contrato referente ao período de 2024 para 2025, a empresa vencedora era sediada em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. Já para o período de 2025 para 2026, a empresa responsável pelo fornecimento dos kits destinados ao Ensino Fundamental I e ao Ensino Fundamental II também é sediada no Paraná“, diz a nota.

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