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“Devemos nos comportar como se todos estivéssemos doentes”, orienta pneumologista
| Foto: BigStock

Um isolamento social perfeito ocorreria se todas as pessoas se comportassem como se estivessem doentes e considerando que todas as pessoas com quem se relacionam também estivessem doentes. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia, o médico Jairo Sponholz Araújo orienta que é esse o comportamento que se deve adotar durante uma pandemia, principalmente quando se trata de um vírus de rápida propagação e com muitos portadores assintomáticos, como o coronavírus.

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“Isolamento social é a gente considerar que todas as pessoas com que estamos tendo contato estejam doentes. Não no sentido discriminatório, mas para tomarmos todas as medidas de proteção. Temos dados concretos que entre 50% e 60% dos indivíduos que contraíram o vírus não tiveram contato com alguém com quadro clínico da doença. A doença tem um percentual grande e desconhecido de portadores sadios por 10 dias, duas semanas. Então, isolamento social é pensar que todos podem estar doentes e se comportar como se também estivesse doente”, disse o pneumologista, que participou do podcast Pequeno Expediente, da Gazeta do Povo, que debateu a influência que a queda de temperatura, com a aproximação do inverno, poderá ter na pandemia em Curitiba.

“Onde temos inverno bem definido, é o período de explosão das doenças virais. A intensidade das doença respiratórias ocorre no inverno, em qualquer lugar do mundo. Falta de ventilação dos ambientes, pessoas mais tempo em ambientes fechados e menor exposição ao sol, favorecem a circulação dos vírus”, disse o médico.

Também participou do podcast o diretor do Centro de Epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, Alcides Oliveira, que confirmou que as autoridades municipais trabalham com a perspectiva de agravamento da situação no inverno. “Sempre, entre abril e julho, os internamentos por doenças respiratórias acontecem habitualmente, numa média de 50 mil internamentos por estas doenças neste período do ano. No panorama atual, já observamos aumento dos internamentos, inclusive por conta da Covid-19, mas não só por esta nova doença. A maioria de nossos internamentos ainda é por doenças como asma, pneumonia, sinusites agravadas, bronquites e agudização de sintomas em tabagistas crônicos”, relata.

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O epidemiologista explica que, com as baixas temperaturas, ocorre a oscilação da umidade do ar, o acúmulo de poeiras e aumento da poluição atmosférica. “Isso ocorre em todo o mundo periodicamente. No inverno, as pessoas adoecem mais dos vírus relacionados aos resfriados e à gripe, por exemplo. Ao longo de todos os invernos as pessoas são mais expostas a esses vírus”, diz.

“Os vírus dos resfriados, que são mais de 100 vírus, o grupo da gripe - as influenzas -  e o Covid propriamente dito, fazem com que as pessoas adoeçam mais no inverno e que várias delas precisem de internamento. Precisamos, então, evitar que o crescimento destes casos seja de forma muito rápida, para que a estrutura de nosso sistema de saúde consiga atender a todos esses casos”, conclui, reforçando a importância do isolamento social.

Alcides Oliveira, diretor do Centro de Epidemiologia da Secretaria da Saúde de Curitiba.
Alcides Oliveira, diretor do Centro de Epidemiologia da Secretaria da Saúde de Curitiba.| USUARIO

Sponholz Araújo cita que esse crescimento na circulação de vírus respiratórios já está ocorrendo na cidade e que isso, inclusive, dificulta o diagnóstico de casos de Covid-19. “A primeira morte de um caso suspeito em Curitiba, o paciente morreu de dengue hemorrágica. O segundo caso suspeito, morreu de influenza. Então, temos centenas de vírus respiratórios circulando e todos vão acabar sendo interpretados como Covid”.

Com esse exemplo, o médico critica correntes que defendem a medicação com cloroquina (medicamento que ainda está sendo testado para o tratamento da doença) na manifestação dos primeiros sintomas de Covid-19. “Além disso, se der remédio para todo mundo, pensando que a pandemia só será controlada com 50% da população contaminada, daremos remédio para metade da população e mataremos mais gente pelos efeitos colaterais do remédio – que já são de conhecimento da comunidade científica - que pelo próprio coronavírus”, diz. “Quando se toma decisões sem base em dado científico poderoso, estaremos fazendo mais mal que bem”, reforça.

Sem "solução salomônica"

O pneumologista lembra que estamos tratando de uma doença desconhecida, já que nunca houve pandemia de coronavírus na história da humanidade. “Assim, todo indivíduo que se apresenta dizendo que tem uma solução salomônica para a pandemia está sendo desonesto. Não temos solução para uma coisa desconhecida. O que temos são diretrizes, que são cheias de erros, mas são as melhores que nós temos, que estamos usando para tratar os pacientes em função da forma como se apresenta a doença. E é uma situação que tem que ser feita caso a caso. É complexo quando se lida com uma situação que não é de pleno domínio da ciência”, explica.

Assim, reforçando que a ciência não tem poupado esforços para buscar formas de prevenção e tratamento da doença, Araújo enfatiza que, no momento e já visando a chegada do inverno, é fundamental que sejam mantidas as medidas de isolamento social. “Estamos em franca epidemia, então temos que praticar o isolamento social perfeito, que é considerar que estamos todos doentes. Além de evitar aglomerações e sair de casa o mínimo possível, fazer a adequada higiene das mãos, usar o álcool em gel, as máscaras, mesmo que de pano, e ter a etiqueta respiratória, precisamos atentar para a alimentação adequada, a hidratação, ventilar a casa, deixar o sol entrar em casa. E ter a certeza que não tem nenhum remédio mágico para isso, mas os médicos estão trabalhando para escolher o melhor tratamento para cada paciente”, diz.

“Cada pessoa que deixa de circular ou que, quando o faz, adota todas as medidas de proteção e higiene, deixa de contaminar, deixa de ser um agente propagador do vírus, e pode estar fazendo um benefício indireto a milhares de pessoas”, conclui.

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