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Dona Lourdes exerceu o primeiro mandato político aos 77 anos
Dona Lourdes exerceu o primeiro mandato político aos 77 anos| Foto: Sergio Luis Moreira / Divulgação

O dia de Maria de Lourdes Beserra de Sousa, a Dona Lourdes, começava às 4h30 da manhã no bairro Santa Quitéria, onde morava sozinha. Preparava o café e ligava o rádio para escutar as notícias mais frescas. Se era dia de sessão plenária na Câmara de Vereadores de Curitiba, ela chegava no local às 8h30, meia hora antes do início. À tarde ou quando não havia reunião, se colocava a postos no escritório do bairro para atender as cerca de 80 a 100 pessoas que a procuravam por dia para atendimento. Uma rotina incomum para uma senhora de idade – foi eleita pela primeira vez aos 77 anos e seguiu como vereadora até 2020. No dia primeiro de abril, faleceu em decorrência de um AVC, aos 93 anos.

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O itinerário diário durou 16 anos e começou pela vontade de fazer mais pelas pessoas. E também porque Dona Lourdes gostava muito de política. Como ela mesma dizia, “ser mulher, idosa e parlamentar é uma honra”. Sem nunca ter faltado ou chegado atrasada a uma sessão, em 2017 ela foi reconhecida como a vereadora eleita mais idosa do Brasil, aos 88 anos. Porém, a disposição era de quem havia acabado de iniciar uma carreira. A colaboração dela com a cidade, em especial a população carente, teve início bem antes dos votos e da legislatura.

Depois de aposentada como telefonista, abalada pela perda do marido e de uma filha, Dona Lourdes literalmente abriu as portas de casa para as pessoas que precisavam de algum tipo de apoio. Assim, fez aflorar a sensibilidade às causas sociais, traço de personalidade que a acompanhava desde que era uma menina em Ituporanga, em Santa Catarina, onde nasceu. Um de seus principais trabalhos era buscar a documentação de quem nem sequer se sentia mais como cidadão por não ter certidão de nascimento ou de casamento para poder fazer outros documentos. Para isso, movia mundos e fundos. De seu próprio bolso, arcava com os custos do resgate desses documentos pelo Brasil todo.

Além disso, oferecia orientação jurídica, café da manhã todos os dias para quem não tinha condições de arcar com alimentação, informação e ajuda para que as pessoas acessassem seus direitos, como aposentadoria no INSS. Todo esse trabalho prosseguiu paralelamente à atuação na Câmara, mas ainda contando apenas com os recursos da própria Dona Lourdes. Grande parte do público que a procurava estava em condição de rua, em vulnerabilidade ou havia passado por traumas econômicos severos, como enchentes ou incêndios. A equipe conta que qualquer um que a procurasse no escritório do bairro saía de lá com seu problema resolvido ou pelo menos encaminhado para uma resolução.

Dona Lourdes virou tema de pós-graduação

Jane D’Ávila, chefe de gabinete de Maria de Lourdes nos dois últimos mandatos, chamava essa linha de atuação de “Legalização da Cidadania”, e transformou o mote em tema de uma pós-graduação. “Ela colocava a mão na massa e, com o apoio a projetos e o trabalho social, ia além da função de vereadora, de legislar para o povo”, conta Jane. Entre os projetos de lei de autoria ou coautoria dela – dos 40 projetos individuais, 36 se tornaram leis – está o que promove o acolhimento de circos itinerantes que chegam à Curitiba. Nesses casos, espaços públicos destinados a esse fim são oferecidos às companhias que necessitem.

O apoio aos artistas, em especial os de rua e circenses, era pauta preferencial para ela. Ainda na área cultural, se dedicava a levar a ópera e outros espetáculos culturais às escolas públicas não meramente como diversão, mas como ferramenta educacional. Na Câmara, desde a chegada até o “até logo”, tinha sempre um sorriso e um abraço a oferecer. A rotina recheada da mulher cuja idade jamais foi empecilho para a ação terminava com prazeres simples da vida, como uma boa refeição e dançar sozinha na sala de casa ao som de um samba-canção.

Maria de Lourdes Beserra de Sousa, Dona Lourdes, deixa uma filha, cinco netos e dois bisnetos.

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