
Ouça este conteúdo
A pavimentação da rodovia PR-092 em Doutor Ulysses, na Região Metropolitana de Curitiba, avança em um dos trechos rodoviários mais desafiadores do Paraná. Após décadas de promessas, a obra que liga o município ao restante do estado chegou a cerca de 22% de execução e representa um passo para reduzir o isolamento de uma cidade que por anos dependeu de estrada de chão para acessar serviços básicos, comércio e atendimento de saúde.
Receba as principais notícias do Paraná pelo WhatsApp
O investimento estadual de R$ 56,9 milhões contempla quase 12 quilômetros de pavimentação e inclui serviços de terraplanagem, drenagem e ajustes no traçado da rodovia. O objetivo é melhorar a ligação do município com cidades vizinhas e com a Região Metropolitana de Curitiba.
Historicamente, Doutor Ulysses figura entre os municípios com menor infraestrutura de acesso rodoviário no estado. Criado em 1990 a partir do desmembramento de Cerro Azul, o município passou décadas aguardando a pavimentação de sua principal ligação viária.
Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR), os investimentos começaram a ser planejados após a emancipação do município, mas recorrentemente enfrentaram obstáculos técnicos e logísticos. De acordo com a autarquia, a região possui relevo montanhoso e sinuoso, o que exige grande movimentação de terra e intervenções em encostas íngremes.
Doutor Ulysses figura entre os municípios com menor infraestrutura de acesso rodoviário no estado.
O difícil acesso, a escassez de materiais adequados para construção e o clima muito chuvoso também contribuíram para tornar a obra mais complexa ao longo do tempo. Além disso, os custos da pavimentação aumentam pela necessidade de transportar insumos por longas distâncias e pelos riscos técnicos associados à execução em um terreno instável.
VEJA TAMBÉM:
Desafio do terreno montanhoso na região do Vale do Ribeira
A rodovia atravessa a região do Vale do Ribeira, marcada por fortes variações de altitude e formações geológicas complexas. Essas características exigem grandes intervenções para adequar o traçado da estrada e ampliar a pista em trechos de encostas.
Entre os pontos mais críticos está a área conhecida como Serrinha, onde foi necessário reduzir em mais de 20 metros a altura do terreno para diminuir a inclinação da subida e melhorar a segurança da via. Segundo o DER-PR, o trecho exigiu estudos técnicos detalhados e grande volume de escavações para ajustar a altura e a inclinação da estrada.
Durante as obras, um dos principais riscos considerados foi a possibilidade de instabilidade nas encostas. O alto índice de chuvas da região também exigiu soluções específicas para drenagem e controle da água. O projeto inclui bueiros maiores, estruturas para conduzir a água da chuva e medidas de proteção do solo para evitar erosão e deslizamentos.
Mesmo com essas exigências técnicas, o DER-PR afirma que o custo da obra não é considerado muito elevado em comparação a outras intervenções rodoviárias mais complexas, já que o trecho não prevê a construção de pontes ou viadutos.

Intervenção na PR-092 em Doutor Ulysses contempla um impacto econômico
Além de melhorar a mobilidade, a pavimentação é vista como uma obra estratégica para impulsionar a economia local. Doutor Ulysses possui o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Paraná e depende fortemente da atividade agropecuária.
De acordo com o DER-PR, cerca de 67% da população economicamente ativa do município está ligada à produção rural, com destaque para culturas como o pinus e a ponkan. A melhoria do acesso rodoviário deve facilitar o escoamento da produção e reduzir custos logísticos.
A expectativa do governo estadual é que a obra estimule novos investimentos, amplie a integração regional e fortaleça setores como o florestal e o industrial. Para os moradores, a estrada de terra ainda impacta diretamente a rotina.
A cozinheira Josiane de Souza Ribeiro, que trabalha em um hotel na cidade, conta que a promessa de asfalto existe há décadas. “Faz cerca de 25 anos que ouvimos falar disso, desde que saiu o asfalto de Curitiba até Cerro Azul. Na época diziam que ia chegar até aqui”, afirma.
Segundo ela, o acesso precário dificulta desde tarefas simples até situações mais urgentes. “Ainda tem sido difícil, porque continua estrada de chão. Para ir ao médico ou resolver coisas de banco, por exemplo, muitas vezes a gente precisa sair da cidade”, relata.
Josiane também destaca que o comércio e os produtores rurais enfrentam problemas frequentes. “Às vezes falta mercadoria porque chove e ninguém consegue chegar. Os produtos ficam mais caros e quem produz na roça muitas vezes perde mercadoria porque não consegue levar para vender”, diz.
Ela acredita que a pavimentação pode representar uma mudança importante para o futuro da cidade, com mais oportunidades e melhor acesso a serviços. “Se o asfalto vier mesmo, pode melhorar bastante. Talvez apareçam mais empresas, mais produtos nas lojas e fique mais fácil sair da cidade”, afirma.
Com o avanço da obra, Doutor Ulysses deve deixar a condição de penúltima cidade do Paraná sem acesso asfaltado. Segundo o DER-PR, o único município do estado que ainda não possui ligação rodoviária totalmente pavimentada é Guaraqueçaba, no litoral.
Para esta região, o governo estadual informa que iniciou os estudos ambientais e o anteprojeto de engenharia da pavimentação da rodovia PR-405, que liga Guaraqueçaba a Antonina. Essa etapa é considerada necessária antes da licitação da obra.
VEJA TAMBÉM:











