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Após quase três meses sem previsão para a retomada da licitação, o governo do estado do Paraná deve retomar o processo de intervenções urbanísticas previstas para a revitalização da orla marítima de Guaratuba. O Instituto Água e Terra (IAT) informou que pretende republicar o edital ainda neste mês após adequações técnicas e administrativas. O processo está suspenso desde 23 de abril para a realização de adequações no projeto.
O projeto prevê intervenções em 4,7 quilômetros da orla, abrangendo a Praia Central, a Praia de Caieiras e a Prainha. Além da ampliação da faixa de areia em até 100 metros, estão previstas obras de macrodrenagem e microdrenagem, novos calçadões, ciclovias, paisagismo e acessibilidade. Também estão incluídas novas estruturas de engenharia, como espigões, guias-correntes e headlands, para reduzir os efeitos da erosão costeira.
O prazo estimado para a execução da obra é de 24 meses após a emissão da ordem de serviço.
Projeto de Guaratuba segue o modelo adotado em Matinhos
A recuperação da orla de Guaratuba integra um conjunto de obras de requalificação costeira desenvolvido pelo governo do estado. O primeiro grande projeto foi executado em Matinhos, onde as obras começaram em 2022. A etapa de engorda artificial da praia foi concluída ainda naquele ano, enquanto os serviços de urbanização, drenagem, calçadões, ciclovias e paisagismo foram entregues ao longo de 2024.
O trabalho executado em Matinhos passou a servir de referência para os projetos previstos em outras cidades do litoral paranaense. Contudo, especialistas alertam que cada praia possui características próprias e que soluções semelhantes precisam ser adaptadas à realidade de cada trecho da costa.
Cada praia responde de forma diferente
Para o professor titular do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Lamour, a revisão do edital é comum em razão da complexidade do projeto. Segundo ele, as obras de engorda das praias dependem de estudos detalhados sobre ondas, marés, correntes, transporte de sedimentos e dinâmica costeira, para que as soluções de engenharia sejam compatíveis com o comportamento do local.
“O adiamento, do ponto de vista da engenharia, pode até ser benéfico. O inverno é o período mais desfavorável para executar esse tipo de obra, devido à maior agitação do mar, às ressacas e aos ventos mais intensos. Trabalhar nessas condições aumenta a dificuldade da operação”, explica. Por outro lado, ele observa que esse também é o período em que a erosão costeira costuma ser mais intensa, o que reforça a importância de um planejamento adequado.
Segundo Lamour, uma das principais lições deixadas pela revitalização da orla de Matinhos é que não existe uma solução única para todas as praias. Apesar da proximidade entre Matinhos e Guaratuba, as duas áreas apresentam comportamentos distintos, influenciados pelas ondas, pelas correntes, pelas marés e pela foz da Baía de Guaratuba.
O pesquisador reforça que a alimentação artificial não representa uma solução definitiva. “Toda obra desse tipo necessita de manutenção. Algumas duram cinco anos; outras, vinte, mas todas precisam ser monitoradas.” Como exemplo, ele cita que, após a conclusão da engorda em Matinhos, o governo do estado precisou realizar uma nova intervenção em razão da perda de parte do volume de areia depositado na praia.
Lamour destaca que a UFPR acompanhou a recuperação da orla de Matinhos e as diversas intervenções costeiras realizadas no litoral paranaense ao longo das últimas décadas, acumulando uma base de conhecimento sobre a dinâmica da costa. Segundo ele, esse histórico pode contribuir para o planejamento e a execução da obra em Guaratuba.
Comércio vê obra na orla como divisor de águas para Guaratuba
Procurada pela reportagem, a Associação Comercial e Empresarial de Guaratuba (Acig) afirmou que acompanha “com atenção e senso de urgência” o andamento do projeto de engorda e revitalização da orla.
Apesar de reconhecer que o projeto ajudará a alavancar o turismo local, a Acig demonstra preocupação com o prazo de início dos serviços. A associação teme que intervenções pesadas, que incluem pontos de interdição na praia, aconteçam durante o verão de 2027, período de maior movimento para a região.
"O projeto vai muito além da ampliação da faixa de areia em até 100 metros; ele traz drenagem contra alagamentos, novos calçadões, ciclovias e paisagismo. É a infraestrutura necessária para modernizar o turismo, atrair investimentos privados e combater a sazonalidade que afeta as empresas fora da temporada", diz a associação.
Embora a Acig reconheça que os ajustes do IAT são fundamentais para garantir a durabilidade e a segurança jurídica da obra, o setor produtivo manifesta preocupação com o prazo de execução de 24 meses.
"O maior receio do setor é que o atraso no início das obras empurre as intervenções pesadas, com o uso de maquinário e interdições na praia, para o período de pico do veraneio de 2027, o que traria prejuízos severos ao faturamento local", completa.
Prefeitura aguarda retomada de licitação para obras na orla de Guaratuba
Em nota, a prefeitura de Guaratuba informou que aguarda a republicação do edital para a engorda e revitalização da Praia Central. Segundo a administração municipal, a intenção deverá ampliar a capacidade de receber visitantes ao longo do ano, incentivar novos investimentos e movimentar o comércio, a hotelaria, a gastronomia e o setor de serviços.
A administração acrescenta que a obra também deve favorecer a geração de empregos, a valorização da orla e a qualificação dos espaços públicos, tornando a cidade ainda mais preparada para receber moradores e turistas.



