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Monitoramento permanente é uma das medidas mais importantes para enfrentamento da estiagem no Paraná.
Monitoramento permanente é uma das medidas mais importantes para enfrentamento da estiagem no Paraná.| Foto: Alessandro Vieira/ AEN

Atualmente, além da pandemia do coronavírus, um outro assunto tem dominado a pauta no Paraná: a crise hídrica. Causada pela maior estiagem registrada no Estado nos últimos 50 anos, a crise atual colocou as cidades paranaenses em situação de emergência hídrica. Na região da grande Curitiba, o rodízio severo de água é uma realidade para a população há mais de seis meses.

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Especialistas afirmam que as intempéries climáticas tendem a piorar nos próximos anos e as “secas cíclicas”, que eram uma dura realidade das regiões de clima semiárido, devem se estender para todo o território brasileiro. Mas o que a experiência do Nordeste pode deixar como legado para o Paraná?

De acordo com a Superintendente de Operações e Eventos Críticos da Agência Nacional de Águas (ANA), Ana Paula Fioreze, os principais pontos para gestão e enfrentamento das crises é o monitoramento constante para a adoção de medidas de gestão de risco.

“A ANA coordena a expansão do Monitor de Secas para todo o Brasil. O Monitor começou em 2014 no Nordeste e foi sendo expandido a partir de 2018, chegando a região Sul em agosto de 2020, em meio à uma das maiores secas registradas em anos recentes. O Monitor de Secas é um processo de acompanhamento regular e periódico da situação e o principal produto é um mapa mensal que indica a ocorrência do fenômeno e a sua intensidade, construído conjuntamente por instituições dos estados e federais”, explica Ana Paula.

No Paraná, os parceiros responsáveis pelo monitoramento são o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) e o Instituto Água e Terra (IAT). O objetivo do sistema é fornecer dados mensais para facilitar a adoção de medidas mitigatórias em tempo adequado. Ana Paula destaca ainda que a participação de todos os atores envolvidos na gestão da água é fundamental para a articulação de medidas que podem diminuir os efeitos da escassez hídrica, “esse tipo de ambiente de articulação, focado em problemas específicos e promoção de soluções, foi originalmente concebido em 2013 para a seca do São Francisco, que durou até 2019. Desde então, a ANA instala Salas de Crise em diferentes bacias e regiões que atravessam ou encontram-se ameaçadas por eventos de secas ou cheias”.

A Sala de Crise da Região Sul está em operação desde o dia 9 de março de 2020 e reúne os órgãos gestores de recursos hídricos dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Participam da discussão as empresas dos setores elétrico e de navegação, empresas de saneamento, além de indústrias e outros usuários da água interessados nas condições hidrometeorológicas nos três estados.

Conhecer a realidade local

Um outro aprendizado das graves situações de seca registradas no Nordeste brasileiro nos últimos dez anos é a importância do conhecimento da realidade local. A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) mantém no país várias câmaras temáticas locais para a discussão de assuntos relacionados ao saneamento ambiental.

O engenheiro Josivan Cardoso, que atualmente é o Coordenador da Câmara Temática de Recursos Hídricos da ABES e já foi gestor de saneamento ambiental no Rio Grande do Norte, defende que a discussão das soluções para a crise hídrica precisam, necessariamente, envolver a comunidade local.

Segundo Josivan “a observação do cenário deve ser global, ou seja, é necessário levar em consideração as condições ambientais, sociais e econômicas de cada região. Por isso os comitês locais de bacias hidrográficas são essenciais para o processo construtivo das soluções a serem implantadas”. O engenheiro conta que na última seca registrada no Nordeste a atuação da comunidade foi determinante para que a escassez de água fosse minimizada. “Nem tudo é adaptável para todo lugar, a gente precisa saber que a legislação nacional é muito avançada, mas precisa ser permanentemente customizada para a realidade de cada região”, afirma Josivan.

Controle de perdas

Para diminuir o impacto das secas, a Companhia de abastecimento d'água e esgoto do estado de Alagoas (Casal), estado da região Nordeste do Brasil investiu fortemente nos últimos 6 anos no controle de perdas de água. O índice de perdas registrado pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) caiu para índices menores que 30%, tornando-se o melhor entre as companhias de todo o país.

De acordo com o último diagnóstico do SNIS, a companhia alagoana perde apenas 26,9% de toda a água produzida. "Os investimentos feitos pela Companhia quanto à redução das perdas, incluindo aí: melhoria no nível de hidrometração, com ampliação do parque de hidrômetros (macromedidores e micromedidores); revitalização de estruturas físicas de Estações de Tratamento de Água (ETA’s), com redução de perdas nas mesmas; automação de diversos sistemas; e aumento de fiscalização sobre as adutoras dos sistemas coletivos nas zonas rurais e nas redes de distribuição na áreas urbanas, principalmente nas ligações inativas, em todo o Estado de Alagoas impactou positivamente na otimização da utilização dos recursos hídricos", afirma Clécio Falcão, presidente da Casal.

No Paraná, o controle de perda de água é um dos indicadores estratégicos da Sanepar para a implementação de medidas voltadas à eficiência operacional. Atualmente, de acordo com os dados do SNIS, o Paraná ocupa o 5º lugar em eficiência no controle de perdas. A companhia paranaense perde 34,3% do volume de água produzida. De acordo com as informações da Companhia, o Índice de Perdas por Ligação de Água (IPL) é um dos indicadores mais estratégicos a serem considerados na implementação de medidas voltadas à eficiência operacional. Em 2019, o IPL estava em 229 litros/ligação/dia. Em 2020, o indicador foi reduzido para 220 litros/ligação/dia.

Na análise do indicador, estão incluídos os volumes de água utilizados na limpeza e manutenção do sistema (por exemplo, na descarga de redes para reparos e desinfecção, limpeza de reservatórios), além da água disponível para o combate a incêndios pelas unidades do Corpo de Bombeiros em todo o Estado.

Nesse cálculo, também entra a água consumida, mas que não é faturada, em fraudes e ligações clandestinas, que a Sanepar combate com o apoio de autoridades policiais. Além disso, há a submedição da água pelo desgaste dos hidrômetros que fazem a leitura do consumo. Estes fatores em conjunto podem representar até 30% do índice de perdas.

Com a chegada do outono, é provável que o Paraná enfrente novos períodos de estiagem. A estação é considerada a mais seca do ano. De acordo com a Sanepar, que já aliviou o rodízio no abastecimento porque o nível médio das barragens chegou a 60% na última semana, a orientação é para que a população continue a economizar. O rodízio só será suspenso definitivamente quando os reservatórios atingirem 80% da capacidade de reservação.

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