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“A família real não tem o direito de dizer quem será o rei”, diz Dom João de Orléans e Bragança

Dom João Henrique de Orléans e Bragança, 63 anos, é o integrante mais famoso do ramo de Petrópolis

  • Tiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo
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No ramo da família imperial de Petrópolis, muitos dos atuais descendentes não concordam com a renúncia de 1908. Afinal, não havia um trono para se abrir mão, nem a carta do príncipe foi protocolada e devidamente reconhecida por autoridades civis brasileiras. Dos homens deste ramo da família, caso a renúncia fosse desconsiderada, Pedro de Alcântara Gastão de Orléans e Bragança teria herdado o trono e seria o rei até morrer, em 2007. Teria sido seguido por Pedro Carlos, mas ele se casou, duas vezes, com mulheres que não são da nobreza – o que reabriria a polêmica.

Mas o sucessor mais popular dessa parte da família é outro: o príncipe Dom João. Ele vive em Paraty, onde trabalha como fotógrafo e mantém uma imobiliária e a Pousada do Príncipe. Surfista, já pegou onda na Indonésia e mantém, desde a década de 1970, uma relação muito próxima com os índios Xingu. Todos os anos, oferece um almoço aos escritores presentes à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

LEIA MAIS: O Brasil ainda tem uma família imperial. Mas, por quê?

Em entrevista à Gazeta do Povo, Dom João Henrique de Orléans e Bragança afirmou que a família real não tem o direito de indicar quem será o próximo rei. Ele também falou sobre as prioridades de um monarca, o combate à corrupção e a relação entre Estado e religião.

O que a família real tem a oferecer ao Brasil hoje?

As monarquias parlamentaristas constitucionais, como existem em boa parte da Europa, funcionam com a vantagem de fazer a separação de governo e estado. Acredito que o parlamentarismo funciona melhor com um rei de chefe de estado. As famílias reais são educadas desde cedo a servir ao país, a dedicar sua vida à nação, sem querer nada em troca. É uma postura de idealismo e de patriotismo.

Em caso de retorno da monarquia, quem deveria ser o rei do Brasil?

Em qualquer democracia a lei é feita através do parlamento. A família real não tem o direito de dizer quem será o rei. A família não tem esse poder nem esse direito de indicar. O rei seria escolhido pela população através de seus representantes legais no Congresso. Não existe obrigatoriedade de ser um Orleans e Bragança.

Existe mesmo uma rixa entre os grupos de Petrópolis e de Vassouras?

Hoje existe um contato, mas um problema que existe é que dois membros do ramo de Vassouras (Dom Luiz e Dom Bertrand) são ligados a uma instituição de direita. Eles estão fora de qualquer postura aceita para uma família real. Eu sou suprapartidário. Já me pediram para eu me candidatar para cargos, o governador (do Rio de Janeiro) Brizola me convidou para entrar para o governo, trinta anos atrás. Mas eu sempre digo: eu faço política, mas não posso entrar em política partidária. É a premissa básica das famílias reais. Nos eventos políticos e culturais que faço na minha casa, recebo de frei Betto a Fernando Henrique Cardoso.

SAIBA MAIS:  Leia a entrevista com Dom Bertrand, integrante do ramo de Vassouras da família imperial

Um rei faria voltar o Poder Moderador, que dava poderes aos imperadores?

Nos parlamentarismos republicanos, o presidente também exerce um poder moderador porque representam não o governo, mas a nação. Essa é a vantagem do parlamentarismo, que funciona infinitamente melhor do que nosso presidencialismo de coalisão, ou de cooptação. E na Inglaterra, na Espanha, na Bélgica, na Noruega, na Suécia, na Dinamarca, os representantes da instituição, ou seja, o rei e a rainha, não dizem o que eles querem. Isso é regido pela constituição. A lei que rege uma sociedade é a força maior. Os reis, os presidentes, os deputados, os senadores, todos os servidores públicos devem servir ao país por ideal.

Quais seriam suas prioridades como monarca?

Veja bem, o rei tem como prioridade apenas o equilíbrio das instituições e a função de reger o acordo entre partidos. O chefe da instituição não dita políticas, mas tenta conciliar interesses do país, para que não batam tanto de frente com interesses partidários. Nem um presidente, num sistema parlamentarista, tem prioridades pessoais. Quem manda é o parlamento.

Como o senhor combateria a corrupção?

Volto a dizer: a grande mudança não é a monarquia, é o parlamentarismo. Num regime parlamentarista, Michel Temer já teria caído, sem crise, e a notícia nem teria tanto destaque na capa dos jornais. Hoje falta justamente alguém que concilie a divisão, a intolerância que está acontecendo no país hoje.

Apoiaria projetos de união estável homoafetiva?

Sou totalmente a favor. Há anos mando meu apoio para grupos LGBT e peço que acabe a intolerância em relação a todas as minorias.

Defenderia o fortalecimento da igreja católica?

Isso não faz nenhum sentido. A ligação entre Estado e religião é medieval. Vou te contar uma passagem de dom Pedro II, que foi um dos maiores estadistas do Brasil. Ele foi visitar a rainha Vitória, numa viagem particular, paga do bolso dele. Ela perguntou onde ele tinha ido pela manhã: à sinagoga de Londres. E onde iria à tarde: à mesquita. Ele falou: “tenho a maior admiração por essas duas religiões, elas têm grandes valores morais e éticos”. Essa postura é a minha.

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