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crise do diesel

Apoio popular e governo fragilizado: por que a greve dos caminhoneiros deu certo?

Paralisação das atividades por redução de impostos e preço dos combustíveis recebeu apoio da população, empresários e pressionou presidência da República, Congresso e Petrobras

  • Filipe Albuquerque especial para a Gazeta do Povo
 | Mauro Pimentel/AFP
Mauro Pimentel/AFP
 
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A hashtag #EuApoioAGreveDosCaminhoneiros ficou em primeiro lugar dos trending topics do Twitter Brasil durante praticamente toda a última quinta-feira (24). Foi nesse dia, quando a greve dos motoristas de carga completou quatro dias, que a população brasileira começou a sentir mais fortemente os efeitos da paralisação.

Havia filas em postos de gasolina, falta de alimentos em supermercados, frotas de ônibus reduzidas pela metade em diversas cidades e aeroportos restringindo voos por falta de combustível para aeronaves. Ainda assim, o movimento dos caminhoneiros recebia apoio daqueles que eram mais impactados pelo caos instaurado no país pelo desbastecimento. Como explicar isso? Simples: a reivindicação dos caminhoneiros é vista como justa por uma parcela significativa da população. 

Leia também: Após o “vai correr sangue”, líder grevista pede que caminhoneiros desocupem rodovias

A atual política de preços da Petrobras, que provoca reajustes quase que diários nos preços dos combustíveis acompanhando a cotação internacional do barril de petróleo, desagrada boa parte dos brasileiros – e não é de hoje. Ou seja, muita gente se viu representada por uma categoria de trabalho que exerce o direito legítimo de se manifestar. E com um detalhe: com alto poder de exercer grande pressão sobre o governo. 

Simpatia popular

Ao anunciar na sexta-feira passada (18) que a greve dos caminhoneiros se daria de forma pacífica e sem interromper o fluxo em rodovias – mesmo que não pudesse garantir isso –, o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) amenizava eventuais resistências da população. Obviamente, o movimento se radicalizou, mas a semente lançada na largada da paralisação germinou, garantindo a simpatia da maior parte dos brasileiros.

Monitoramento realizado pela empresa Torabit nas redes sociais durante toda a quinta e até o meio-dia desta sexta-feira (25), 52,2% das menções sobre a greve dos caminhoneiros são positivas em relação ao movimento. Outros 37,8% são neutros e apenas 10% dos comentários são negativos. A pesquisa reúne as reações explicitadas no Twitter, Instagram, Facebook e em seções de comentários de blogs e sites. 

Quando se analisa o conteúdo das mensagens na internet, 53,4% demonstram apoio explícito ao movimento, enquanto 27,2% são piadas, 8,4% são comentários sobre notícias, 6,5% recontam casos do cotidiano e 4,5% são totalmente contrários à greve. 

Outras categorias, como motoboys, motoristas de aplicativos e donos de vans, interessados também na redução dos preços dos combustíveis, também manifestaram apoio à mobilização dos caminhoneiros. Em São Paulo, motoboys realizaram manifestação na Avenida Paulista na terça-feira (22) e, por 15 minutos, interditaram todas as pistas da Marginal Pinheiros na quinta-feira. 

Governo frágil

Pesou a favor do sucesso da greve dos caminhoneiros a fragilidade do presidente Michel Temer na condução do governo. Em fim de mandato e com baixíssima aprovação junto à população, segundo as mais recentes pesquisas de opinião, Temer subestimou a força do movimento e o potencial de bagunçar o país rapidamente.

Uma semana antes de convocar a greve, a Abcam solicitou uma reunião com a Presidência da República para debater as reivindicações da categoria, sob risco de ocorrer uma paralisação nacional. A entidade foi solenemente ignorada. O governo só acordou, de fato, para o problema quando a crise de desabastecimento passou a ocupar as manchetes dos jornais. Mas era tarde demais. 

Fragilizado por investigações que o acusam de receber propina de empresas do setor portuário, Temer não teve outra alternativa a não ser chamar os caminhoneiros para negociar. Rapidamente aceitou zerar a Cide sobre o diesel. Em seguida, acatou boa parte das reivindicações da categoria. Na noite de quinta-feira, o governo divulgou os termos de um acordo para suspender a greve dos caminhoneiros por 15 dias, após sete horas de reunião com entidades que representam o setor.

Mas a principal entidade representativa da paralisação, a Abcam, não concordou com a proposta e a greve continuou nesta sexta-feira (25), frustrando as expectativas por uma solução rápida para os protestos. Pior para o governo, que saiu mais uma vez com a imagem arranhada.

Comunicação pelo WhatsApp 

Apesar de não ter abrangência nacional, a Abcam diz representar cerca de 700 mil caminhoneiros autônomos, e conta com o suporte de 600 sindicatos distribuídos pelo país, além de sete federações. O uso do WhatsApp e do rádio-comunicador para informar suas representações espalhadas pelo país sobre o direcionamento das ações do movimento foi crucial para a paralisação se espalhar rapidamente pelo país. “Tenho vários grupos espalhados pelo pais que estão se conversando”, contou José da Fonseca Lopes, presidente da associação e principal liderança do movimento grevista. 

A greve contou também com o trabalho de mobilização de Selma Regina Santos, de 48 anos. Caminhoneira e casada com um colega de profissão, ela criou três grupos no WhatsApp: Para Frente Brasil, Siga Bem Caminhoneiro e Rainha dos Caminhoneiros – este em homenagem própria. Uma articulação e coesão fundamentais para o sucesso de uma manifestação de tamanha envergadura.

Ao abandonar a reunião da quinta-feira com integrantes do governo para discutir a pauta de reivindicações e o fim da greve, Fonseca utilizou o aplicativo para comunicar, em vídeo, que não concordava com a proposta apresentada, defendeu a manutenção da paralisação e convocou a categoria a manter o movimento. Foi atendido. O poder de mobilização dele se mostrou maior do que se imaginava. 

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