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Decifrando João Doria: afinal, ele é mesmo um bom empresário? E prefeito?

Atual prefeito de São Paulo acumulou um patrimônio expressivo depois de passar por dificuldades na infância. Na prefeitura, resultado ainda é uma incógnita

  • Brasília
  • Tiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo
 | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
 
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Dos 11 candidatos à prefeitura de São Paulo nas eleições do ano passado, João Doria Jr. tinha o maior patrimônio, disparado: declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ser dono de R$ 179,7 milhões, incluindo cinco imóveis, além de quatro carros e 165 quadros. Os demais concorrentes, juntos, somaram R$ 29,3 milhões. O próprio Doria investiu R$ 2,4 milhões em sua própria campanha.

Nem sempre foi assim: o atual prefeito da capital paulista construiu essa fortuna ao longo da vida. Na juventude, nos anos 1970, não chegou a passar fome, mas encarou alguns anos de aperto financeiro.

Nascido em dezembro de 1957, em São Paulo, ele tinha seis anos quando a família foi obrigada a se mudar para a França, porque o pai, o então deputado João Agripino da Costa Doria, teve os direitos políticos cassados pela ditadura.

Até aquele momento, a família tinha um bom padrão de vida. João pai era publicitário de sucesso. Tinha uma casa no bairro do Pacaembu e uma vasta coleção de pinturas de Di Cavalcanti – elas foram sendo vendidas, uma de cada vez, para sustentar a família na Europa.

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Bicos na adolescência

Em 1966, a mãe, Maria Sylvia Vieira de Moraes Dias, voltou para São Paulo com os dois filhos, João e Raul. Construiu na garagem de casa uma pequena fábrica de fraldas de pano e, quando a luz era cortada, empenhava suas joias para pagar a conta atrasada.

Em 1970, aos 13 anos, João Doria Jr conseguiu seu primeiro emprego: organizava negativos fotográficos na agência de publicidade onde seu pai havia sido diretor antes do exílio. Em maio de 1974, assim que venceu o prazo de dez anos da cassação de seus direitos políticos, o pai voltou para casa. Em agosto, a mãe contraiu pneumonia e faleceu. Mas a situação financeira da família voltou a se estabilizar.

Seguindo os passos do pai, Doria cursou Comunicação na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Concluiu as graduações de Publicidade e Jornalismo enquanto galgava postos dentro de grandes empresas de comunicação. Foi diretor da TV Tupi, passou pela TV Bandeirantes, chegou a diretor da agência de publicidade MGM. Tudo isso antes dos 25 anos.

Na sequência, fundou sua própria agência, a DLS, com Luiz Lara e Stalimir Vieira. Foi também sócio da Voice, uma empresa de relações públicas. Entre 1983 e 1986, fez uma primeira investida no setor público, quando foi secretário de Turismo da cidade de São Paulo. Entre 1986 e 1988, assumiu a presidência da Embratur. Nos anos 1990, sua carreira deu um novo salto. A essa altura, Doria já vinha construindo patrimônio – e comprando de volta muitos dos Di Cavalcanti que o pai havia sido forçado a vender na Europa.

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Seis empresas

Decidido a usar a experiência adquirida enquanto buscava patrocínios para os eventos governamentais, o empresário fundou em 1992 o Grupo Doria. O conglomerado de mídia engloba uma empresa de marketing, uma editora, uma organizadora de eventos e, principalmente, o Grupo de Líderes Empresariais, conhecido como Lide.

O Lide reúne mais de 1.600 empresas e tem o objetivo de organizar debates, fóruns e seminários. Já participaram desses eventos figuras políticas de todos os espectros, de Fernando Henrique Cardoso a Luiz Inácio Lula da Silva. Para participar, as empresas pagam cotas de patrocínio.

Sua editora publicou títulos voltados principalmente para empresários e pessoas muito ricas: Oscar, Arena, Fórum & Negócios, Líderes do Brasil, Caviar Lifestyle – esta última, aliás, recebeu R$ 1,5 milhão em anúncios do governo estadual comandado por Geraldo Alckmin (PSDB), o padrinho político de Doria, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo de setembro de 2015. O atual prefeito é também fundador do São Paulo Convention & Visitors Bureau, a organização que busca aumentar e diversificar o mercado de turismo na cidade.

Foi nessa época que ele começou também a escrever livros de autoajuda que se tornaram best sellers, como Lições para Vencer e Sucesso com Estilo. Na virada do milênio, ele já era um empresário de comunicações extremamente bem-sucedido. E também conhecido pelos telespectadores.

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Passagens pela TV

Em 1987, Doria construiu sua própria produtora, a Videomax, com o objetivo de criar o programa Sucesso, que ele apresentava na TV Bandeirantes. Depois apresentaria também o programa Show Business, veiculado pela TV Manchete e pela Rede TV. Doria ainda comandaria, também na Band, um programa de entrevistas, o Face a Face, e apresentaria O Aprendiz, da TV Record, em 2010 e 2011.

Dois desses programas ele ainda comandava em 2016, quando deixou as telas para ser candidato: passou o Face a Face, atualmente da BandNews, para a apresentadora Adriane Galisteu, e o Show Business, que hoje passa na Band, para a jornalista Sonia Racy.

Toda essa experiência influenciou a campanha política de Doria, e agora suas ações como prefeito. “Ele é um homem de mídia muito bem sucedido”, diz o especialista em comunicação política Carlos Manhanelli. “É um prefeito que sabe mexer com a mídia, ele sabe como funciona uma redação. Doria é um Jânio Quadros modernizado”.

E, afinal de contas, João Doria é um bom prefeito?

No dia 7 de agosto, o prefeito de São Paulo foi atingido por um ovo na cabeça enquanto caminhava no centro de Salvador. Quatro dias depois, ele realizou uma ação em parceria com uma granja de Minas Gerais. A empresa doou 10 mil ovos, usados para fazer 5.500 refeições, distribuídas entre moradores de rua da capital paulista.

Doria participou da doação de comida e gravou um vídeo em que cita o nome do patrocinador e afirma: “No setor privado, eu aprendi que do limão se faz uma limonada. Agora na área pública, eu aprendi que da ovada se faz a gemada”. O vídeo já teve mais de 800 mil visualizações. Todo esse episódio reúne várias das características do prefeito.

Em primeiro lugar, ele viaja muito. Estava na Bahia, já passou por Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Tocantins, Espírito Santo, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul. Além disso, ele não tem pudor algum em se manifestar a favor de empresas específicas. Já fez propaganda dos produtos da rede de farmácias de seu amigo Sydnei Oliveira, minutos antes de começar uma reunião de secretários. Sydnei, por sua vez, cedeu para a prefeitura seu espaço publicitário em placas exibidas em Montevidéu, durante o jogo Brasil x Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo.

Em terceiro lugar, Doria gosta de ações públicas de impacto, cuidadosamente planejadas. Começou varrendo ruas logo no primeiro dia de mandato. Fez vistorias presenciais de madrugada nos postos de saúde. Dirigiu um ônibus. Lavou uma estátua na Praça da República. Continua dizendo que é um gestor, e não um político.

Essas características fazem de João Doria Jr. um prefeito eficiente? Ou ao menos diferente dos tradicionais?

Pré-candidato?

Sobre as viagens, Doria tem respondido que não precisa estar na cidade para governá-la. O especialista em comunicação política Carlos Manhanelli concorda. “Quem mais trabalha numa prefeitura são os secretários. O prefeito precisa ter a capacidade de olhar a floresta, e não as árvores.”

Não é a opinião do cientista político Renato Eliseu Costa, professor de políticas públicas na Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo): “O mais importante é pensarmos qual o motivo que o leva a se afastar da cidade. Sair para buscar investimentos, negociar políticas públicas é importante e desejável a um prefeito, mas se afastar para recebimento de títulos e homenagens públicas ou negociar possíveis candidaturas não me parecer ser muito bem o que irá fazer a cidade avançar.”

Renato Costa acredita que essas viagens pelo Nordeste já colocam Doria como candidato a um novo cargo executivo em 2018 – ele assim repetiria o gesto de José Serra, que em 2006 deixou a prefeitura de São Paulo para se candidatar a governador do estado, em eleição que ele acabou vencendo.

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“Pelas disputas internas que tem se aberto no PSDB paulista, o esfriamento da relação da relação entre a prefeitura e o governo estadual, a constante reunião com importantes caciques políticos de outros partidos, suas constantes viagens para outros estados, sem pauta política da prefeitura de São Paulo, e suas constante falas direcionadas a ataques a políticos nacionais, tudo indica que em breve prefeito deve sim anunciar a candidatura a outro cargo do executivo”, diz Costa.

Já Carlos Manhanelli acredita que o projeto do atual prefeito é de longo prazo e busca solucionar uma dificuldade antiga do PSDB: os votos do Nordeste. “Nem Serra nem Geraldo [Alckmin] têm imagem nacional. Doria tem focado muito no Nordeste, assim como o Lula, lá nos anos 1990, foi fazer caravana para se apresentar à região.”

Uma possível candidatura no ano que vem, diz Manhanelli , só aconteceria se os principais candidatos do partido forem barrados pela Justiça. “Doria está se pautando como a terceira via do PSDB, para o caso de o Aécio Neves não poder se candidatar por causa das investigações contra ele, e também se o Geraldo Alckmin não puder por causa de denúncias com a licitação do metrô.”

Qual o “personagem” Doria está encarnando para a eleição de 2018? E os demais candidatos? Podcast da Gazeta do Povo discute o assunto. Ouça abaiso:

Privatização

Parte das viagens do prefeito aconteceram em busca de investimentos para a cidade. Mais especificamente, ele esteve nos Estados Unidos, nos Emirados Árabes, na Coreia do Sul e na China para divulgar seu projeto de privatização, que consiste em ceder para a iniciativa privada desde parques e praças até o centro de exposições do Anhembi, o Ginásio do Ibirapuera e o Autódromo de Interlagos. Um parquinho instalado pela comunidade no Largo da Batata, por exemplo, foi destruído recentemente e substituído por um programa de plantio de árvores bancado por um shopping da região.

Sobre os parques, num primeiro momento, serão concedidos 14 deles, incluindo o do Ibirapuera, o da Aclimação, o do Carmo e a Chácara do Jockey. Somados, eles representam hoje, para a prefeitura, 40% do total de R$ 180 milhões de gastos com manutenção dos 107 parques da cidade.

O professor Renato Eliseu Costa não vê maiores problemas, a depender de como se dará a concessão. “A grande questão é como a empresa privada irá arrecadar os seus recursos. Se cobrar taxas de entrada e de utilização de serviços como banheiro, quadras e brinquedos, isso irá limitar ainda mais o acesso a população ao lazer e à cultura”, diz. “Agora se esses recursos vierem da exploração de pontos de comércio e propagandas, não vejo problema.”

O Plano Municipal de Desestatização é o maior projeto do prefeito. Ele criou uma secretaria para lidar com o assunto e promete privatizar, ceder o repassar para iniciativas público-privadas um total de 55 ativos municipais, incluindo hospitais, teatros e bibliotecas e alguns serviços como drenagem urbana, iluminação pública, reforma de calçadas e sinalização de vias. O prefeito defende que, somados, esses equipamentos cedidos à iniciativa privada significariam R$ 5 bilhões de receitas extras, que poderiam ser investidos em saúde, educação e mobilidade.

Falta de propostas

Algumas iniciativas do prefeito provocam barulho e polêmica. Ele revogou a lei que reduzia a velocidade nas marginais Pinheiros e Tietê. Tirou a Virada Cultural das ruas da cidade e a transportou para cinco lugares fechados. Cobriu de cinza grafites famosos na capital, como parte de seu programa Cidade Linda, que pretende limpar os equipamentos públicos.

Colocou a polícia para agir na Cracolândia, a região do centro de São Paulo que há mais de 20 anos é conhecida pela grande população de usuários de drogas. Demoliu um prédio sem retirar todos os moradores e defendeu a internação compulsória.

Doria também anunciou que conseguiu zerar uma fila de exames para 485 pessoas, graças ao programa Corujão da Saúde, que disponibilizou equipamentos médicos de hospitais públicos e privados para uso da população durante as madrugadas.

Por outro lado, o prefeito apresentou pouquíssimas propostas para a Câmara de Vereadores: foram apenas 10 até o começo de agosto. Nenhum prefeito, em 32 anos, propôs tão pouco. O orçamento da cidade, por exemplo, é o mesmo de seu antecessor, o petista Fernando Haddad. Em compensação, ele conseguiu aprovar em primeiro turno seu Plano Municipal de Desestatização.

E a alegação de que ele é gestor, e não prefeito? “Esse slogan foi adotado por vários candidatos a prefeito na última eleição, por conta da crise de confiança nos políticos”, afirma o professor Renato Costa.

“Mas nem tudo está perdido na política, e adotar técnicas da administração de empresas privadas na gestão pública pode não funcionar. É preciso de mais gestão, mas gestão pública”, diz Costa. “Além disso, o prefeito faz um desfavor a sociedade ao criminalizar a política, que tanto foi importante para conquistarmos avanços como a democracia e um sistema se saúde e educação universal gratuito.”

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