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| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

O pacote de privatizações e reformas propostas por um governo pró-mercado, como é o de Michel Temer (PMDB), pode fazer o dólar cair. As projeções mais otimistas cravam que a moeda americana pode ir para R$ 2,50. Já as mais realistas acreditam que deve ficar na casa dos R$ 3. Em comum, analistas das duas correntes avaliam como positivo o movimento de desestatização da Eletrobras e apostam que a reforma da Previdência pode acelerar ainda mais o processo de valorização do real ante o dólar. Mas todo esse cenário já está intimamente ligado às eleições de 2018.

Em entrevista à Bloomberg, o sócio-diretor da Tendências Consultoria, Nathan Blanche, especialista em câmbio, avaliou que o dólar pode aprofundar a tendência de queda e chegar a R$ 2,50 num cenário otimista do mercado, com privatizações, reformas aprovadas e a eleição de um governo pró-mercado em 2018. Ele explica que o dólar encontrou um ponto de equilíbrio, em torno de R$ 3,20, mas que tem espaço para cair mais e que o Banco Central não pode impedir um recuo mais forte da moeda.

Se o dólar chega mesmo a R$ 2,50, só o tempo para mostrar. Mas a tendência de queda existe e é a eleição de 2018 que vai acabar consolidando esse cenário. “A privatização é boa e afeta o câmbio. Mas daqui a 15 meses a gente vai ter uma eleição e, em termos de impactos positivos de câmbio, isso vai ficar mais forte quando se refletir em números eleitorais mais positivos”, avalia Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, uma boutique de investimentos.

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O mercado também já assimilou o cenário de que a reforma da Previdência não deve sair esse ano. “Se o mercado já está acomodado sem a reforma, se ela sair, vai ser positivo e impacta no câmbio também. Lembrando que o câmbio chegou a R$ 3,10 quando estavam desenhando a reforma da Previdência”, avalia.

Para ele, esse ambiente leva o dólar mais próximo da casa dos R$ 3, mas ainda permite espaço para cair mais. “Não há nada na economia brasileira em termos de fundamento externo que diga que o dólar não possa ir abaixo de R$ 3. O nosso fundamento econômico permite, mas pensando em como o mercado entende, acho que precisa de algo a mais. Uma grande reforma da Previdência daria espaço para o dólar abaixo de R$ 3”, pondera.

Ao longo dos próximos meses, o cenário pode começar a assentar, com a indicação dos resultados de pesquisa para 2018. “Se a eleição for mais fácil, com uma esquerda mais fraca, é um caminho mais fácil para um governo pró-mercado assumir. E aí o dólar vai escorregando para baixo. Toda essa agenda de privatização vai ganhando contorno de impacto com o tempo”, avalia. Por outro lado, o impacto positivo das privatizações pode acabar caso o próximo ano comece com um candidato como Lula à frente das pesquisas. “Num cenário desses, o dólar volta a ganhar força”, diz.

O fator político ainda pesa

Mais pé no chão é a avaliação do economista William Castro Alves, da Valor Gestora de Recursos. “Não é pessimismo, é realidade histórica. O Brasil sempre criou muita expectativa e frustrou isso. A notícia da Eletrobras foi uma surpresa positiva, mas não é privatização: é desestatização. Frente ao que tem hoje é melhor, mas tudo passa pelo Congresso e aí é que complica”, lembra.

Na avaliação de Alves, os parlamentares podem frear o processo que traria benefícios para a economia brasileira. Por outro lado, aprovando a reforma da Previdência e fazendo as privatizações desenhadas pelo governo, o câmbio virá para baixo por uma questão de fluxo.

Ele lembra que após Donald Trump assumir o governo dos Estados Unidos houve uma movimentação do mercado de investimentos, com pessoas em dúvida sobre como aplicar seu dinheiro. Isso se refletiu em altas históricas nas bolsas de países emergentes, como a Índia. Mas o Brasil ficou para trás, por causa do cenário político complicado – muito embora a nossa moeda já não esteja tão desvalorizada como a de outros países emergentes.

No entanto, essa situação política instável – ainda voltada a Temer permanecer ou não no cargo – pode frear esse processo. “Tudo pode cair por terra se sair mais uma delação que envolva de novo o Temer. A equipe econômica de qualidade fica de lado quando um escândalo político vem atrapalhar”, diz.

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