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| Foto: SERGIO LIMA/AFP

O site francês Mediapart, onde foram publicadas declarações distorcidas da repórter do jornal O Estado de S. Paulo Constança Rezende, desmentiu na tarde desta segunda-feira (11), em português, as acusações repercutidas pelo site Terça Livre e pelo presidente Jair Bolsonaro neste domingo (10).

No Twitter, o portal francês disse se solidarizar com Constança. “As informações publicadas no ‘club de Mediapart’, que serviram de base para o tweet de Jair Bolsonaro, são falsas. O artigo é de responsabilidade do autor e o blog é independente da redação do jornal”, diz a publicação.

A publicação original que acusou a repórter do Estado de tentar “arruinar” o governo de Jair Bolsonaro foi feita em um blog produzido por leitores do Mediapart. O texto, intitulado “Para onde vai a imprensa?”, foi publicado em uma seção do site chamada “Le Club”, uma espécie de fórum online no qual internautas podem manter blogs próprios.

LEIA MAIS: Bolsonaro divulga relato deturpado de conversa de jornalista

O texto original é assinado por Jawad Rhalib, que se apresenta como “autor, cineasta, documentarista e jornalista profissional”. O blog de Rhalib tem sete postagens, que começaram a ser publicadas em dezembro de 2018. Qualquer assinante do site Mediapart pode participar da seção Le Club. A assinatura custa dois euros por semana. O Estado procurou contato com Rhalib por e-mail e por telefone. Não houve resposta.

A publicação do site francês foi citada pelo portal bolsonarista Terça Livre para dar tom de veracidade à informação falsa de que a repórter do Estado Constança Rezende teria declarado, em uma conversa gravada, ter a intenção de arruinar Bolsonaro. Os áudios divulgados no blog mostram que a repórter não falou isso.

“Descompromisso com a veracidade dos fatos”, dizem OAB e Abraji

Para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o ataque de Bolsonaro ao jornal e a Constança Rezende mostra por parte do presidente o “descompromisso com a veracidade dos fatos” e se caracteriza como “o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas”.

Em outra nota oficial sobre o caso, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) “lamentam que o presidente da República reproduza pelas redes sociais informações deturpadas e deliberadamente distorcidas com o sentido de intimidar a jornalista e a liberdade de expressão”.

No Twitter, Bolsonaro endossou tese levantada pelo site Terça Livre, que falsamente atribuiu à jornalista do Estado a declaração de que teria “intenção” de “arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. A suposta declaração, que aparece entre aspas no título do texto do Terça Livre, foi atribuída pelo site à repórter. A frase teria sido dita, segundo “denúncia” de um jornalista francês citado pelo Terça Livre, em uma conversa gravada em que a repórter fala da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-motorista de Flávio.

A gravação do diálogo, porém, mostra que Constança em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. Em um deles, a repórter avalia que “o caso pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido.

Allan Santos, editor do Terça Livre, no entanto, expôs a conversa como evidência de suposta irregularidade. “Bomba!!!!! Jornalista do Estadão confessa: “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. A frase jamais foi dita.

Leia a nota na íntegra de Abert, Aner e ANJ:

A propósito do episódio relacionado à repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de S.Paulo, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) lamentam que o presidente da República reproduza pelas redes sociais informações deturpadas e deliberadamente distorcidas com o sentido de intimidar a jornalista e a liberdade de expressão.

Os ataques à repórter têm o objetivo de desqualificar o trabalho jornalístico, fundamental para os cidadãos e a própria democracia. ABERT, ANER e ANJ assinalam que a tentativa de produzir na imprensa a imagem de inimiga ignora o papel do jornalismo independente de acompanhar e fiscalizar os atos das autoridades públicas.

Brasília, 11 de março de 2019.

Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão

Associação Nacional de Editores de Revistas

Associação Nacional de Jornais

Leia a íntegra da nota da Abraji e OAB

Na noite de domingo, o presidente Jair Bolsonaro fez um novo ataque público à imprensa, desta vez valendo-se de informações falsas. Isso mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos, o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão. Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica.

A onda de ataques no domingo começou antes da manifestação do presidente. Grupos que apoiam Bolsonaro difundiram e amplificaram nas redes sociais declarações distorcidas da repórter Constança Rezende, de O Estado de S.Paulo, para alimentar a narrativa governista de que a imprensa mente quando se refere às investigações sobre as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro. Como é comum nesse tipo de ataque, a família de Constança também virou alvo. O grave nesse episódio é que o próprio presidente instigou esse comportamento, ao citar como indício de suposta conspiração que Constança é filha de um jornalista de O Globo.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se unem neste momento no repúdio a qualquer tentativa de intimidação de jornalistas. Profissionais atacados por fazer seu trabalho terão sempre nosso apoio.

Diretoria da Abraji

Felipe Santa Cruz - presidente do Conselho Federal da OAB

Pierpaolo Cruz Bottini - coordenador do Observatório de Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da OAB

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