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 | Geraldo Magela/Agência Senado
| Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A eleição que vai escolher o próximo presidente da República acontece daqui um ano. Se por um lado isso traz esperança de mudanças, a realidade logo se encarrega de jogar um balde de água fria. O sistema presidencialista de coalizão e a fragmentação partidária no Brasil exigem que o novo chefe do Executivo faça uma composição política para poder governar. E para ter base de apoio no Congresso, o presidente oferece cargos de primeiro e segundo escalão no governo aos aliados de conveniência, perpetuando na Esplanada dos Ministérios os mesmos políticos de sempre. 

Não por acaso, o brasileiro já se acostumou a ouvir nomes como Eliseu Padilha, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Edison Lobão e Romero Jucá, entre outros, nos principais postos de comando da República. Isso acontece desde a reabertura democrática, com a chegada de José Sarney à Presidência. Goste ou não e independentemente do seu espectro político, o próximo presidente vai precisar desses apoios.

“Isso mostra como os mesmos partidos são os fiéis da balança, independente do partido que o povo escolhe para o Executivo. Nosso sistema multipartidário e segmentado atua para manter os mesmo caciques no poder”, avalia Lucas Fernandes, consultor de Análise Polícia e Assuntos Legislativos da Barral M Jorge Consultores Associados. 

O próprio Michel Temer, que chegou ao Planalto como vice da ex-presidente Dilma Rousseff, já foi figura importante nesse tabuleiro. Ele foi presidente da Câmara durante dois mandatos no governo de Fernando Henrique Cardoso e depois no governo Lula. 

Mudou de lado? Não é isso. Partidos sem uma ideologia marcada, como os de centro e os mais fisiológicos, que transitam bem dentro de governos com orientação política diferente, tendem a permanecer mais tempo nesse tabuleiro. Isso também significa que é preciso atender aos diversos grupos distintos dentro desses partidos, prática que não deve sofrer grandes mudanças, na visão de Fernandes. 

“O PMDB vai continuar como o fiel da balança, independente de quem vier. Ele consegue ter quadros importantes, mas que não são conhecidos do público. Por isso, mesmo com alguns quadros do PT, ele pode se aliar”, afirmou. 

Renovação, em termos

Com a Operação Lava Jato e mais políticos condenados ou sob investigação, um cenário de renovação se torna mais possível, avalia Fernandes. A reforma política aprovada neste ano deve ajudar a promover uma renovação maior dos políticos do Executivo e Legislativo, mas só a partir de mais duas eleições gerais. Pelas regras que foram aprovadas, os partidos e políticos já consolidados devem se sair melhor no próximo pleito, avaliou Fernandes. 

Além disso, dificilmente o próximo governo eleito conseguirá governar sem se aliar ao PMDB, o que deve significar que ainda haverá mais do mesmo na Esplanada dos Ministérios no próximo ano. 

“Podemos esperar uma renovação um pouco maior do que nos outros anos, mas algumas figuras vão continuar. O voto proporcional e as coligações partidárias vão continuar. A gente consegue pensar numa renovação maior do que em outros anos, mas algumas caras devem continuar”, afirmou o consultor.

O cenário ainda é obscuro para o próximo ano, quanto a quem poderá disputar as eleições. Mas, pelas regras atuais, pode-se esperar um ministério composto por indicações partidárias da mesma forma como foi feito nas últimas décadas, a fim de aumentar a base do governo no Congresso.

“A longo prazo, o fim das coligações em 2020 e mudanças no fundo partidário vão favorecer que partidos menores se vinculem em um só. Estamos caminhando para ter partidos maiores. Daqui a umas duas eleições podemos ter um congresso mais palatável para o presidente, com menos fragmentação. Vamos continuar tendo multipartidarismo e dependendo da coalizão, mas que será um pouco menos custosa para o presidente”, disse Fernandes. 

Pais deixam herdeiros na Esplanada 

Para se perpetuarem, os grupos políticos criam seus clãs, colocando filhos como descendente de seus legados políticos. O senador Jader Barbalho (PMDB-PA), que foi ministro da Previdência no governo Sarney, deixou seu filho Helder Barbalho como herdeiro na Esplanada. Helder é ministro da Integração Nacional atualmente. O mesmo vale para o senador Fernando Bezerra (PSB-PE), que foi ministro na gestão FHC, voltou no governo Dilma e agora tem o filho Fernando Coelho como ministro de Minas e Energia de Temer. 

O ex-senador e ex-presidente José Sarney também tem seu herdeiro na Esplanada. Sarney Filho (PV-MA) foi ministro do Meio Ambiente de FHC e agora ocupa o mesmo cargo com Temer. Além disso, mesmo estando aposentado, ainda é notório o poder do grupo do PMDB chefiado por Sarney. Nesta semana, chegou ao comando da Polícia Federal um nome que teria sido indicado pelo ex-presidente.

Os mesmo de sempre

A orientação política de quem está no poder não importa para nomes como Renan Calheiros e Eliseu Padilha, aliados de primeira hora. Padilha, ligado ao PMDB do Rio Grande do Sul, foi ministro dos Transportes no governo do tucano FHC e voltou quando a petista Dilma estava no comando, como ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil. Agora, com Temer, é um dos homens de confiança do presidente, na Casa Civil, mesmo estando denunciado na Lava Jato. 

Renan (PMDB-AL) também soube transitar entre o azul tucano e o vermelho PT. Ministro da Justiça de FHC, Calheiros foi presidente do Senado durante grande parte dos governos Lula e Dilma. Hoje, tenta eleger o filho governador de Alagoas e se reeleger senador, colocando-se como aliado de Lula e na oposição de Temer. 

O impeachment de Dilma não alterou em nada o jogo de forças na Esplanada. Os tucanos ganharam algum espaço (quatro ministérios, bastante para quem estava na oposição à gestão anterior), mas os caciques do PMDB continuaram a dar as cartas.

Moreira Franco (PMDB-RJ) e Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) são exemplos dessa perpetuação no poder. Franco esteve bem próximo de Dilma, como ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos e depois na pasta que cuida da Aviação Civil. Na troca de presidente, continuou despachando no Palácio do Planalto, como coordenador do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) de Temer. Denunciado na Lava Jato, Temer deu um cargo de ministro a Moreira Franco, para evitar que ele seja julgado na justiça estadual. 

Já Geddel foi ministro da Integração Nacional do governo Lula, e depois foi alçado ao cargo de vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa Econômica Federal, no governo Dilma. Com Temer, Geddel foi ministro da Secretaria de Governo, mas se demitiu em meio a denúncias de tráfico de influência. Hoje, está preso após ser encontrado R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um apartamento que ele utilizava.

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