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 | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Antigo militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná, Roberto Baggio é um dos organizadores das manifestações pró-Lula que ocorrem nesta quarta-feira em Curitiba. Baggio concedeu entrevista à Gazeta do Povo no acampamento do MST ao lado da rodoviária de Curitiba e falou sobre Lula, Lava Jato e financiamento do MST.

ACOMPANHE Em tempo real o depoimento de Lula

Sobre o depoimento do Lula em Curitiba, vocês acreditam que há motivos para ele ter se tornado réu na Lava Jato ou enxergam esse depoimento como parte de uma perseguição política?

Nós não temos dúvida nenhuma que as elites brasileiras golpearam o país, rasgaram a Constituição e estão tomando um conjunto de medidas de um governo ilegítimo, não eleito democraticamente. Portanto, nós não reconhecemos os golpistas como autoridades máximas da República. Como parte da estratégia do golpe, há uma ofensiva de tentar de criminalizar todos os que lutam: as organizações políticas e as organizações sindicais. Por isso, não tenho dúvida nenhuma que a grande mídia, articulada com o capital, está tentando criminalizar o Lula, tentando persegui-lo e fazendo um combate sistemático que se intensificou nos últimos anos.

Esse dia de depoimento, portanto, é uma luta contra a retirada de todos os direitos [dos trabalhadores], pois se o governo é ilegítimo, ele não pode retirar, não pode mexer na Constituição, não pode acabar com as políticas públicas. Somos contra toda essa retirada de direitos, da classe trabalhadora e da população. Ao mesmo tempo, estamos dialogando e discutindo a necessidade de um projeto para reorganizar a economia, as políticas públicas e realinhar a justiça social e o progresso e o país nessa perspectiva se recolocar no cenário internacional. Com força, com autonomia, com soberania e não como uma mera colônia aos interesses dos americanos.

Vocês são contra todas as reformas que estão sendo feitas? Não haveria uma necessidade de se fazer reformas?

Eu acho que o país precisa resolver seus problemas estruturais, ou seja, universalizar para que todos os brasileiros tenham acesso à saúde, educação, moradia, políticas públicas, terra, crédito. As reformas que precisam ser feitas são no sentido de atingir uma sociedade mais equilibrada, mais justa para todos. O conjunto das reformas que estão em andamento só retira os direitos e penaliza os mais pobres. Nós precisamos de uma reforma estrutural do Estado brasileiro, reformar por completo o aparelho judiciário, o aparelho judicial. A estrutura do Estado já não atende mais as demandas da sociedade, que tem um conjunto de problemas e esse aparelho de Estado só protege quem tem grande capital e a burguesia que domina a política e meios de comunicação.

Lula e diversos movimentos ligados à esquerda já criticaram abertamente a ação do juiz Sergio Moro na Lava Jato, é esse mesmo entendimento do MST? Qual a opinião de vocês sobre ele?

O aparelho judiciário, o aparelho de investigação e parte da estrutura do Estado atende os interesses da burguesia dominante. Então o Moro é uma peça que atende os interesses do capital. Ele atende os interesses da classe dominante, atendendo esses interesses, ele vai perseguir todos os que lutam contra a classe dominante.

E em relação à Lava Jato, ela tem recebido apoio de diferentes grupos da sociedade, qual a opinião do MST sobre a operação?

Nossa posição é o seguinte: achamos que tem que investigar, tem que punir os responsáveis, tem que responsabilizar. Somos favoráveis que todo o recurso público, que é um patrimônio sagrado, ele tem que estar a serviço da população, não pode ter recursos privados aqui. O que estamos visualizando é a instrumentalização política da Lava Jato, no sentido de criminalizar apenas alguns setores e não o conjunto das pessoas envolvidas.

Mais uma vez em relação ao depoimento do ex-presidente Lula, muitos tratam como um momento histórico, outros já entendem como “só mais um dia” na justiça, há ainda aqueles que consideram uma grande injustiça que está sendo cometida. Como vocês do MST enxergam isso?

O fato de amanhã ele revela que a sociedade está acompanhando e está entendendo, que a hegemonia que os meios de comunicação tinha de condenar, de prender e de processar rapidamente está se derretendo. Então, com toda essa onda de perseguição, a medida que não há provas consistentes no processo. Então é uma tentativa de induzir e iludir a opinião pública. Os milhares e milhares de paranaense que estão chegando a Curitiba, a população mais humilde de Curitiba, a classe trabalhadora e também as diversas caravanas do Brasil inteiro que vem para cá, revelam que a sociedade brasileira tem um carinho especial pelo presidente Lula, reconhecem do ponto de vista histórico a tarefa que ele cumpriu e nesse momento identifica que ele está sendo injustiçado e perseguido e, por isso, há uma solidariedade humana para ele nesse momento. É uma expressão coletiva, de uma sociedade que matura, que amadurece e percebe que está sendo iludida e enganada por um governo progressista que historicamente tomou uma série de medidas. Essas medidas resolveram alguma coisa? Não resolveram. Por isso que o país precisa de um projeto para fazer todas as reformas estruturantes para democratizar o estado e a riqueza e universalizar o conjunto de políticas públicas.

Outro aspecto em relação ao Lula é que muito se especula se ele sai fortalecido ou se será destruído politicamente com essa operação. Qual a opinião do MST quanto a isso?

O que está sendo revelado é que a burguesia, os meios de comunicação e o Poder Judiciário não estão conseguindo destruir o Lula. Pelo contrário, quanto mais batem, mais ele cresce. Ele é a expressão coletiva da maioria dos setores da sociedade brasileira, que identifica nele um sujeito capaz, que venceu na vida e quer colocar essa fase da vida dele a serviço de construir as mudanças que o país precisa. Me parece que quanto mais a burguesia bate, quanto mais ela persegue, mais o Lula ganha energia e se vigora.

Para esclarecer, em relação aos atos organizados por vocês do MST e outros movimentos pró-Lula, muito se comenta sobre o dinheiro que financia isso. Não é difícil encontrar na internet teorias que ligam o MST aos financiamentos de partidos políticos como o PT ou com desvios da Petrobras. Como funciona na prática essa organização de movimentos e atos e como vocês financiam isso?

A nossa filosofia política é estimular as pessoas que têm necessidade de se organizar e lutar. As que não têm terra se organizam e lutam pela terra, as que não tem casa se organizam e lutam pela moradia, os que não tem educação se organizam e lutam pela educação. É um jeito em que a própria população começa a se organizar para resolver seus próprios problemas. Cada caravana veio com sua comida, com seu ônibus, com seu caminhão, com seu kit militante, com a sua ferramenta, com seu material, com seu livro, com a sua propaganda e vem para cá, passar três ou quatro dias e regressa. As coisas são sempre feitas de forma organizada e autônoma, que resolve todos os problemas, desde contratar o ônibus, desde organizar a cozinha, de trazer a cozinheira, de trazer comida, organizar lista de passageiros, documentos. É uma expressão coletiva da sociedade brasileira.

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