ala ideológica
O embaixador Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, é uma das baixas da chamada ala ideológica do governo Bolsonaro em 2021.| Foto: Sérgio Lima/AFP

A reforma ministerial trouxe um baque significativo para a chamada ala ideológica do governo. A demissão do embaixador Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores representa um revés ao grupo que ano após ano perde força no Executivo federal e hoje já não tem a mesma proeminência que tinha no primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro.

A saída do governo de Araújo — visto como um ideólogo não apenas pelo Centrão, mas, também, entre entre seus pares — tem um simbolismo por representar o enfraquecimento da ala ideológica no primeiro escalão do governo. Mas esse declínio ocorre também em outros níveis do poder na Esplanada dos Ministérios. Menos de três semanas antes, o empresário Fábio Wajngarten foi demitido da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom).

Da configuração inicial do governo no primeiro escalão, apenas a ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves, e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, permanecem. "Embora o Salles não seja exatamente da base ideológica. Não é um olavista natural, de carteirinha. Ele se inseriu nessa ala. A base bolsonarista gosta dele", diz um interlocutor do Palácio do Planalto.

A leitura feita no Planalto é de que, com a queda de Araújo e Wajngarten, ambas sucedidas por outras mudanças com o passar da atual gestão, a tendência é o núcleo ideológico permanecer enfraquecido no primeiro escalão.

"A tendência é ir se enfraquecendo, ao menos nas posições de destaque, como ministros. Foi o que aconteceu no próprio Ministério da Educação", diz um segundo interlocutor do Planalto, em referência às exonerações de Ricardo Vélez e Abraham Weintraub. "Agora, tem um ou outro 'gato pingado' espalhado que deve ficar", acrescenta.

Por que a ala ideológica ainda mantém sua força

A desidratação do segmento ideólogo é um fato reconhecido no Planalto e aponta um alinhamento mais pragmático no cenário político, sobretudo em meio às pressões durante a pandemia. Contudo, é equivocado dizer que esse grupo perdeu força.

"O presidente não abandonou a ala ideológica. Ele fez uma rearrumação, retirou caras que não estavam rendendo ou causavam mais problemas do que ajudando, efetivamente, tipo Ernesto e o Weintraub, mas ele não abandonou a base ideológica em momento algum, apenas ficou mais pragmático", diz um interlocutor.

A manutenção de integrantes do núcleo ideológico é estratégico para Bolsonaro e, por isso, é improvável que ele seja desmantelado em todos os níveis do governo. "Esse pessoal fala diretamente com o bolsonarismo mais raiz, que é uma importante base de apoio do presidente", explica.

Parte do trabalho desempenhado por esses bolsonaristas da ala ideológica, segundo afirmam fontes palacianas ouvidas, é a de administrar as redes sociais de Bolsonaro. "É o tal do 'gabinete do ódio' que chamam por aí, que está bem mais enfraquecido [em relação a 2019], mas ainda é atuante. Por quê? Porque ainda tem acesso ao presidente", afirma um interlocutor.

Com menos presença no primeiro e segundo escalão do governo, a ala ideológica ainda tem presença nos escalões inferiores, ou seja, assessores normalmente subordinados a um secretário ou outra figura imediata com poder de chefia. No Planalto, é o exemplo do assessor-chefe da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos (SAE), Filipe Martins.

Envolto em uma recente polêmica por um gesto no Senado, Martins é subordinado ao titular da SAE, almirante Flávio Rocha, que, após a demissão de Wajngarten, também passou a assumir, simultaneamente, a Secom. É por conta dessa subordinação que interlocutores explicam que a ala ideológica ficou enfraquecida. "Antes da chegada do Rocha, haviam muitos ruídos na relação entre os militares e os olavistas", explica um assessor.

Apesar do enfraquecimento do segmento bolsonarista raiz, seus representantes mantêm força. "O poder deles é o acesso direto ao ouvido do presidente", justifica um interlocutor. Martins, bem como outros assessores tidos como "ideólogos" dentro do próprio governo, despacham no terceiro andar do Planalto, o mesmo de Bolsonaro. "Estar na antessala do presidente e falar com ele diretamente é algo poderoso em termos de influência", acrescenta o assessor.

Quem compõe a ala ideológica no Planalto

O cálculo político feito por Bolsonaro e até por militares — que não são afeitos à ala ideológica — é de que ele não pode se dar ao luxo de abandonar a base bolsonarista mais raiz. "Ele não pode, nem quer. Por isso, até, ele não tirou o Filipe Martins", explica um interlocutor, em referência às rusgas do Senado com o assessor-chefe da SAE.

Assessores como Martins são vistos como fundamentais para Bolsonaro manter a faixa quase intacta de 30% dos eleitores que aprovam o governo. Afinal, mesmo após perder apoio de parte do eleitorado da centro-direita, ele ainda detém um percentual muito semelhante ao de intenção de votos antes do primeiro turno em 2018.

Além de Martins, outros dois assessores da ala ideológica atuam no Planalto: Tércio Arnaud Tomaz e José Matheus Sales Gomes. Ambos são assessores da Assessoria Especial do Presidente da República. Até a semana passada, a estrutura era chefiada pelo agora ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França.

Os dois administram páginas nas redes sociais e grupos de WhatsApp em apoio a Bolsonaro, segundo informou o deputado federal Heitor Freire (PSL-SP) no inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que apura a disseminação de fake news. O deputado afirmou que a atuação é regionalizada e conta com colaboradores em diferentes estados, até em outras esferas do poder, por meio do apoio de assessores de parlamentares federais e estaduais.

Com essa rede de conexões — acusada como "gabinete de ódio" por atacar a honra de quem discorde do governo, segundo também informou o deputado Nereu Crispim (PSL-RS) no inquérito das fake news —, Arnaud Tomaz e Sales Gomes ajudam o governo a "falar diretamente" com os bolsonaristas.

Em dezembro do ano passado, Jair Bolsonaro saiu em defesa dos assessores e, também, do vereador fluminense Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), também apontado como integrante do "gabinete do ódio". "Inventam essas coisas, atacam covardemente o garoto lá, o Tércio, o Mateus, o Carlos", criticou.

"Agora, me aponte uma materialidade, uma matéria feita pelo 'gabinete do ódio', não apontam nada. O tempo todo é dizendo que o 'gabinete do ódio' faz isso ou aquilo, mas não apontam o que fez", acrescentou o presidente da República.

Grupo ainda mostra força em escalões inferiores

Além do Planalto, a ala ideológica se estende à Secom, mesmo após a demissão de Wajngarten. Ainda que remanescente, interlocutores desse segmento convenceram Bolsonaro da importância em manter aliados da base bolsonarista no comando de decisões estratégicas na comunicação do Executivo.

Três áreas são muito caras para o bolsonarismo: a educação, a cultura e a comunicação. A justificativa é de que, com o passar dos anos, esses setores foram ocupados pelo chamado "marxismo cultural".

Por esse motivo, a ala ideológica criou teias na Secom. Do Planalto, Mateus Matos Diniz, outro assessor acusado de integrar o "gabinete do ódio", foi transferido para o Ministério das Comunicações, onde é titular da Coordenação-Geral de Projetos Especiais da Secretaria de Publicidade e Promoção, desde setembro do ano passado.

Outros dois bolsonaristas "raiz" trabalham na Secom: o secretário de Comunicação Institucional, Felipe Pedri, um dos autores do manifesto de fundação do Aliança pelo Brasil, que entrou no governo como assessor especial na Casa Civil; e Mateus Colombo Mendes, diretor de Conteúdo e Gestão de Canais, que atua subordinado a Pedri.

Todos esses bolsonaristas trabalham subordinados ao almirante Flávio Rocha, que, por sua vez, enquanto titular da Secom, responde ao ministro das Comunicações, Fábio Faria. "Ou seja, estamos falando de uma ala ideológica que ocupa os terceiros e quarto escalões do governo, o que significa que detêm um poder que não deve ser menosprezado", alerta um interlocutor palaciano.

Militares defendem a subordinação da ala ideológica a Rocha por entender que ele tem a habilidade política para ouvir todas as alas do governo e apresentar soluções aos problemas estratégicos e de comunicação. "A ação do almirante Rocha ainda vai se fazer sentir. Conseguiu dar uma reorganizada boa no Planalto e vai buscar uma comunicação mais profissional na Secom", avalia um assessor.

Qual era o tamanho da ala ideológica até 2020

Apesar da força que a ala ideológica ainda mantém no governo, nem de perto esse segmento se compara ao tamanho que tinha até o ano passado. Somando os seis assessores da Secom e do Planalto aos ministros Ricardo Salles, Damares Alves e os ex-ministros Ernesto Araújo e Abraham Weintraub e o ex-Secom Fábio Wajngarten, outros ideólogos ocuparam cargos relevantes na Esplanada.

Uma das áreas que sofreram maior desmonte com o avanço do Centrão no governo e o fortalecimento dos militares foi o Ministério da Educação. Com a saída de Weintraub, a ala ideológica também perdeu a Secretaria de Educação Básica (SEB), então comandada por Ilona Becskehazy, tida como uma pessoa com o mesmo perfil do ex-ministro.

Além disso, o atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, também exonerou, assim que chegou, os assessores especiais Auro Hadana Tanaka, Eduardo André de Brito Celino, Sérgio Santana e Victor Sarfatis Metta, todos identificados como membros da ala ideológica.

Apesar dos reveses no Ministério da Educação, um olavista foi mantido, o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim. Apesar de ser aluno declarado do ideólogo Olavo de Carvalho, ele reiteradamente afirma ser um nome técnico da pasta.

Outra área onde o núcleo ideológico sofreu um revés foi a Secretaria Especial de Cultura. Ao fim de janeiro de 2020, Bolsonaro exonerou o ex-titular da pasta, o dramaturgo Roberto Alvim. Foi demitido em menos de três meses por um episódio em que fez um discurso com palavras semelhantes de uma fala de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista. Hoje o posto é ocupado pelo ator Mário Frias.

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