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Joe Biden Cúpula Clima
Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden| Foto: Mandel Ngan/AFP

Nas últimas semanas, o presidente americano Joe Biden recebeu quatro correspondências diferentes vindas do Brasil, todas sobre o mesmo tema: meio-ambiente. Em carta de sete páginas enviada no dia 14, o presidente Jair Bolsonaro escreveu: “Queremos reafirmar neste ato, em inequívoco apoio aos esforços empreendidos por V. Excelência, o nosso compromisso em eliminar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030”.

A fim de alcançar esse objetivo, argumentou, o país vai precisar de “recursos vultuosos e políticas públicas abrangentes”. Por isso, solicitou apoio financeiro “Inspira-nos a crença de que o Brasil merece ser justamente remunerado pelos serviços ambientais que seus cidadãos têm prestado ao planeta”. Pouco antes, ao final de março, o governo brasileiro apresentou o Plano Operativo 2020-2023 para controle do desmatamento na Amazônia.

Por sua vez, um grupo de 23 governadores, incluindo João Doria (SP), Flávio Dino (MA), Romeu Zema (MG) e Cláudio Castro (RJ), enviou um texto de três páginas criticando o presidente Bolsonaro e declarando-se “conscientes da emergência climática global”.

Teor semelhante teve a “Carta dos Parlamentares e da Sociedade Civil do Brasil aos Estados Unidos da América, em defesa da Amazônia”, que solicita que o governo dos Estados Unidos não negocie diretamente com o governo federal. Por sua vez, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) enviou em março um documento solicitando um canal direto de comunicação com o governo americano, sem passar pelas instâncias diplomáticas da gestão Bolsonaro.

Essa movimentação dá uma ideia da importância da Cúpula dos Líderes sobre o Clima, organizada pelos Estados Unidos. Realizado em dois dias, 22 e 23 de abril, o evento vai congregar, a distância, cerca de 40 chefes de estado, incluindo, além do próprio Bolsonaro, Justin Trudeau (Canadá), Xi Jinping (China), Ursula von der Leyen (Comissão Europeia), Mario Draghi (Itália), Emmanuel Macron (França) e Yoshihide Suga (Japão).

À parte as versões conflituosas apresentadas por diferentes lideranças nacionais, os Estados Unidos, que convocaram o evento, têm uma visão clara a respeito do que esperam do Brasil: querem compromissos mais ousados e concretos em relação ao desmatamento na Amazonia e ao aquecimento global.

Dinheiro, só depois

“O meio ambiente é importante para o Brasil, porque envolve a imagem e a reputação. Muitas empresas americanas firmaram acordos para não comprar soja de áreas de desmatamento ilegal da Amazônia. É importante não deixar alguns, que desmatam, prejudicar a reputação de todos”, declarou, recentemente, o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, durante um evento online realizado pela revista Exame sobre o setor de agronegócios.

“É importante haver um esforço extra de investigação, mas também do setor privado, para realmente enfatizar que o desmatamento ilegal não é permitido”, prosseguiu. “O desmatamento vai ser um tema importante para a gestão Biden”.

A Gazeta do Povo apurou que diplomatas americanos esperam o envolvimento do setor privado na proteção ao meio ambiente, para trazer recursos financeiros e ideias inovadoras. Consideram que comprometimento do Brasil também está ligado à limitação do aquecimento global a 1,5°C – esta é uma das metas declaradas da cúpula que começa nesta quinta-feira.

Também afirmam que os americanos não querem estabelecer uma meta específica para o desmatamento na Amazônia, mas acreditam nos dados gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e esperam que o Brasil, assim como os demais países do mundo, assuma – e cumpra – compromissos mais ousados, já que todos precisam se esforçar mais.

Por fim, a respeito do pedido de verbas realizado pelo presidente brasileiro, informam os diplomatas, qualquer apoio financeiro vai ser condicionado à obtenção de resultados concretos na política ambiental. Por outro lado, informam que não há relação entre a questão ambiental e a discussão sobre o envio de vacinas contra Covid-19 ao Brasil.

“O compromisso do presidente Jair Bolsonaro de eliminar o desmatamento ilegal é importante”, escreveu John Kerry, enviado especial do governo americano para assuntos de clima, em sua conta no Twitter. “Esperamos ações imediatas e engajamento com as populações indígenas e a sociedade civil para que este anúncio possa gerar resultados tangíveis”.

Para Pedro Roberto Jacobi, professor titular do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil deveria ter implementado ações mais concretas de combate ao desmatamento antes de solicitar dinheiro. “Os indicadores estão ruins e a estrutura de fiscalização foi reduzida, então fica difícil o país convencer ao exterior de que tem um plano concreto para a Amazônia”.

Cúpula do Clima busca que países façam lição de casa

Por outro lado, lembra ele, “as maiores emissões de gases poluentes são dos países desenvolvidos. Todos têm que fazer sua lição de casa, mas o Brasil não está fazendo a sua”. O momento, afirma, é favorável a ações mais firmes.

“O governo Biden mudou a direção que o presidente Donald Trump vinha seguindo. Deixou claro que vai cobrar metas ambientais de outros países, enquanto busca instaurar, nos Estados Unidos, um projeto de longo prazo para mudar a matriz energética de seu país”.

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