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A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de levar ao plenário a liminar que prorrogava a CPMI do INSS terminou em derrota expressiva — por oito votos a dois — e evidenciou a resistência da Corte a investigações com potencial de ampliar a crise institucional. Essa reação contrária é compartilhada pelo governo e pela cúpula do Congresso.
Embora visto por parte de analistas como um movimento arriscado, o gesto de Mendonça também foi interpretado como uma estratégia para explicitar a posição majoritária do tribunal diante de outro foco de elevada tensão: o escândalo do Banco Master. O placar do julgamento consolidou a percepção de alinhamento entre poderes para barrar novas frentes de investigação.
Ao mesmo tempo, os votos dos ministros reforçaram o entendimento de que a instalação de comissões parlamentares de inquérito é um direito constitucional das minorias parlamentares. Esse ponto passou a pressionar o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), a abrir a CPMI do Banco Master, travada há quatro meses mesmo tendo os requisitos formais.
Oposição sofre derrotas no STF e na votação do relatório da CPMI do INSS
A liminar de Mendonça atendia à oposição, que pleiteava mais prazo para aprofundar investigações. Ao justificar a sua decisão, o ministro sustentou tratar-se de uma prerrogativa da minoria que não podia ser mais ignorada por Alcolumbre, a quem cobrou ação. No plenário, porém, prevaleceu a tese de que a prorrogação requer ato político do Legislativo, não do Judiciário.
Na sequência, a base governista aproveitou a proximidade do fim da CPMI do INSS para derrubar na semana passada o relatório final do colegiado, de autoria do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). O parecer, com mais de 200 pedidos de indiciamentos, foi rejeitado por 19 votos a 11, um resultado festejado por aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A inclusão do nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, nos pedidos de indiciamento foi o maior motivador da avassaladora reação orquestrada.
Para Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, a rejeição do relatório esvazia a função das CPIs. “Sem aprovar o documento, não há qualquer encaminhamento formal ao Ministério Público, consolidação institucional de fatos apurados nem consequência concreta”, afirma, ao lamentar o aumento do descrédito da sociedade nesses instrumentos.
Decisão do STF ajuda apoiadores da CPMI do Master a cobrar Alcolumbre
O STF reafirmou que a Constituição garante à minoria o direito de criar CPIs, desde que atendidos requisitos como número mínimo de assinaturas e fato determinado. Por outro lado, fixou que a prorrogação dos trabalhos precisa seguir regras do Congresso. A distinção entre instalação (direito assegurado) e prorrogação (decisão política) passou a orientar o debate no Senado.
Juristas e parlamentares avaliam que o efeito prático da decisão foi duplo: encerrou a CPMI do INSS, mas pressionou as presidências do Senado e da Câmara, que estão segurando outras investigações. O entendimento do STF pode ter, então, impacto direto sobre pedidos de novas comissões, incluindo a que ainda pretende investigar o Banco Master.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, criticou o que chamou de reação corporativista do STF, mas destacou que a decisão fortalece o Senado para instalar novas comissões sem interferência externa. Com 51 assinaturas — mais que o dobro do necessário —, o pedido de CPI do Master ganhou novo impulso, apesar das suas barreiras explícitas.
Vieira e o senador Eduardo Girão (Novo-CE) defendem que não há mais justificativa para adiamento, já que a Suprema Corte devolveu ao Legislativo a palavra final sobre a matéria. Eles entraram com mandado de segurança junto ao próprio STF para garantir a CPI do Master e esperam que o contexto favoreça uma decisão favorável. O pedido é relatado por Nunes Marques.
Nos bastidores, cresce especulações se Alcolumbre convocará sessão do Congresso antes das eleições, na qual teria de ler o requerimento para a abertura de uma CPMI do Master. Para a oposição, a derrota de Mendonça acabou, paradoxalmente, abrindo caminho tanto político quanto jurídico para avançar na investigação do escândalo financeiro e institucional.
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Após o episódio, Mendonça passou a defender, em manifestações públicas, a necessidade de atuação estratégica no Judiciário. Em recente evento na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, ele ressaltou que “juiz não deve ser uma estrela”, mas precisa agir com a devida prudência e responsabilidade institucional para “semear um novo tempo”.
Para aliados e parte da oposição, o ministro tem usado a sua posição para explicitar tensões dentro da própria Corte. Entre esses pontos sensíveis estão relações suspeitas entre ministros do STF e o Master. O ex-deputado Deltan Dallagnol (Novo-PR) observa que Mendonça adota a estratégia de “expor abusos do STF” via atos formais e decisões com repercussão jurídica.
O jurista André Marsiglia criticou a decisão de Mendonça de levar a liminar ao plenário. Para ele, o juiz deveria esperar o STF ser acessado por terceiros na questão. Apesar de expor a posição dos ministros da Corte sobre o tema, o impacto negativo foi maior: a blindagem deles. “A CPMI foi encerrada não para ocultar desvios do INSS, mas para barrar apurações do Master”, diz.
Ainda que a derrota da liminar de Mendonça tenha sido clara no plenário, o episódio reposicionou o debate sobre o papel das CPIs, a autonomia do Congresso e o equilíbrio entre os Três Poderes — com efeitos que tendem a se prolongar no embate eleitoral de 2026. As pressões da opinião pública e da oposição ainda enfrentam enorme indisposição para qualquer avanço.








