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Caso Master

Depois da “Turma”, PF foca esforços em saber quem são os “Meninos” de Vorcaro

Daniel Vorcaro, banqueiro do liquidado Banco Master. (Foto: Reprodução / Youtube / Esfera Brasil)

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Além do grupo de troca de mensagens denominado “A Turma”, que está previamente identificado pela investigação da Compliance Zero, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, agora a Polícia Federal trabalha para esclarecer quem são e como operavam os integrantes de outro grupo, também criado em aplicativo de troca de mensagens, denominado “Os Meninos”.

Sabe-se, até o momento, que esse segundo grupo subsidiava o primeiro com informações extraídas de invasões e acessos ilegais a sistemas de informação e dados confidenciais, como a base da Polícia Federal, do Judiciário, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais como a Interpol.

A investigação tenta identificar se o grupo ainda está ativo e quem eram seus membros. Ao menos 20 pessoas são investigadas. Não foi descartada a possibilidade de membros estarem direta ou indiretamente ligados a jornalistas e influenciadores cooptados financeiramente para atacar o Banco Central e sua diretoria e defender os interesses do Master logo após a liquidação, em novembro do ano passado.

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Além disso, não se descarta que o grupo dos “meninos” também possa ser o responsável por hackear, invadir ou tentar derrubar páginas, reportagens e postagens contrárias ao Master.

A existência do grupo foi exposta no voto do relator do caso no STF, André Mendonça, que manteve Vorcaro na prisão. Ele citou a chamada “Turma”, já conhecida como um braço operacional e de intimidação física, e também o grupo “Os Meninos”.

A existência dessas duas frentes indica, segundo as investigações, uma estrutura com divisão clara de tarefas e atuação coordenada para atender aos interesses da “organização”, segundo André Mendonça.

A Gazeta do Povo procurou a atual defesa de Vorcaro para questionar a existência desses núcleos, a suposta forma de operação e interlocução entre eles, que se daria por aplicativo de troca de mensagens. Não houve retorno até a publicação da reportagem, mas o espaço segue aberto.

A antiga banca de defesa de Daniel Vorcaro negava as acusações e sustentava que as interpretações das mensagens e dos fatos estavam fora de contexto. Os advogados chegaram a dizer que o empresário não ordenou qualquer tipo de violência, ataque ou ação digital e que confiava no esclarecimento completo das investigações.

O ministro André Mendonça descreve, no entanto, "Os Meninos" como os membros responsáveis pelas "investidas de hackeamento e invasão digital" perpetradas pelo grupo maior, conhecido como "A Turma". Além das atividades digitais, o relator afirma que Vorcaro utilizava esse núcleo, juntamente com o homem que recebia o apelido de "Sicário", para a “execução de ilícitos variados”, inclusive alguns de “caráter violento”.

O voto também revelou detalhes financeiros precisos sobre o grupo, extraídos de mensagens do celular do banqueiro. Em diálogo com Vorcaro, o Sicário chegou a explicar como dividia o montante enviado pelo banqueiro, cerca de R$ 1 milhão por mês. "Os meninos mando 75 pra cada" (referindo-se provavelmente a R$ 75 mil mensais para cada um deles e ainda sem definição de quantos seriam).

Além do valor fixo, o auxiliar de Vorcaro relatou que, quando o banqueiro enviava "bônus", o valor também era rateado entre os "meninos" e o restante da "Turma". Uma mulher investigada no esquema participava, segundo Mendonça, da operacionalização desses fluxos financeiros destinados a custear as atividades de monitoramento e obtenção de informações realizadas por este núcleo.

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"Os Meninos" de Vorcaro flagrados pela PRF em dia de operação

"Os Meninos" de Vorcaro ficaram em evidência durante a deflagração da terceira fase da operação Compliance Zero. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) interceptou um veículo que seria do homem identificado como Sicário, que transportava "dois potenciais integrantes" desse núcleo.

No interior do carro, o ministro destaca que foram encontrados quatro computadores, caixas e malas, indicando que pelo menos um deles estava em processo de mudança, tendo inclusive já devolvido as chaves de seu imóvel à locadora.

O relator enfatiza que esses indivíduos “eram instrumentos de Daniel Vorcaro”, referindo-se a eles como os "Meninos dele [Vorcaro]". A existência e a atuação permanente deste grupo foram utilizadas pelo ministro como um dos fundamentos para justificar a contemporaneidade dos riscos à ordem pública e a necessidade de manutenção da prisão preventiva do banqueiro, tendo em vista que membros da organização ainda estariam em atividade e monitorando autoridades e sistemas sigilosos.

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“Os Meninos” atuavam em ações cibernéticas

Segundo os elementos reunidos até o momento na investigação, os “Meninos” atuariam em operações cibernéticas, incluindo invasões de sistemas e possíveis tentativas de acesso a dados restritos. Essa atuação complementaria o trabalho da “Turma”, fornecendo informações estratégicas e ampliando o alcance da organização.

A presença dos “meninos” indica, segundo a investigação, que a organização não se limitava a métodos tradicionais de coerção, mas buscava integrar práticas digitais ao seu modus operandi.

Entre as possíveis funções desse grupo estavam: tentativas de invasão de sistemas institucionais e privados; coleta de dados sensíveis por meio digital; apoio a estratégias de monitoramento; atuação em campanhas de manipulação de informação e reputação.

Há indícios, segundo Mendonça, de que essas atividades poderiam incluir o uso indevido de credenciais verdadeiras e válidas, além do acesso a bases restritas, o que, se confirmado, ampliaria a gravidade do esquema.

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O que era e como operava a “Turma”

De acordo com os investigadores e o próprio ministro Mendonça, a “Turma” funcionava como o núcleo mais ostensivo da organização. Tratava-se de um núcleo voltado à execução de ações de campo, incluindo monitoramento de alvos, coleta de informações e, sobretudo, práticas de intimidação. Essas ações foram negadas pela defesa de Vorcaro.

Relatórios da PF teriam apontado que esse grupo atuava como uma espécie de “milícia privada”. A denominação foi reforçada por Mendonça no inquérito.

Entre as atribuições estavam o acompanhamento presencial de pessoas consideradas adversárias, a vigilância de rotinas e até abordagens diretas com caráter coercitivo. Um dos episódios mais graves relatados envolve a ameaça a um ex-funcionário ligado ao empresário Daniel Vorcaro, que teria sido cercado por indivíduos descritos como “milicianos”, com ameaças dirigidas também à sua família.

A estrutura contava com coordenação definida. O homem que ficou conhecido como “Sicário”, que tentou suicídio na prisão, em 4 de março, dentro da Superintendência da PF em Minas Gerais e morreu dias depois no hospital, aparece como peça central na engrenagem. Ele seria responsável por organizar as ações, distribuir tarefas e intermediar pagamentos.

As mensagens analisadas, segundo Mendonça, indicam que havia repasses regulares de recursos para manutenção das atividades.

Além disso, a “Turma” não se limitava à intimidação física. O grupo também teria atuado no levantamento de dados sensíveis, utilizando contatos e conhecimentos técnicos para acessar informações estratégicas com o auxílio dos “meninos”.

Há indícios de participação de pessoas com experiência em segurança pública, o que teria ampliado a capacidade operacional da organização. Vale destacar que no dia 4 de março um policial federal aposentado também foi alvo da Compliance Zero, suspeito de integrar o esquema.

Outro ponto relevante é o armamento associado ao grupo. Durante a operação, foram apreendidas armas de diferentes calibres, incluindo pistolas e espingardas, além de munições.

Para os investigadores, esse arsenal reforça a hipótese de que a “Turma” tinha potencial para ações violentas, ainda que nem todos os planos discutidos tenham sido executados.

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A lógica de funcionamento da "Turma"

A atuação da “Turma” seguia uma lógica empresarial. Havia divisão de funções, metas e até remuneração estruturada. Pagamentos eram realizados por meio de empresas, numa tentativa de dar aparência legal às transações.

Esse modelo permitia que o grupo operasse de forma contínua, com capacidade de adaptação conforme as necessidades. Quando surgia um novo “alvo”, a engrenagem era acionada para levantar informações, monitorar deslocamentos e, se necessário, realizar abordagens intimidatórias.

As investigações também indicam que o grupo foi utilizado para pressionar não apenas adversários externos, mas também pessoas do círculo interno, incluindo ex-colaboradores e funcionários do banqueiro.

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