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CVM

Dino manda União rever regra que permite emaranhamento de fundos de investimento

Ministro citou esquema do Banco Master, que utilizou labirinto para ocultar fraude em ativos.
Ministro citou esquema do Banco Master, que utilizou labirinto para ocultar fraude em ativos. (Foto: Gustavo Moreno/STF)

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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino acolheu uma provocação da organização Transparência Internacional e determinou que a União reavalie regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que, segundo ele, criaram brechas para estruturas financeiras opacas. A decisão deste domingo (20) se apoia, entre outros documentos, nas conclusões do grupo de trabalho criado pela própria autarquia para analisar o caso Master.

Dino atribuiu a uma resolução de 2022 a abertura para estruturas sucessivas em que fundos de investimento aplicam recursos em outros fundos semelhantes. A possibilidade, porém, já existia havia anos. No caso dos fundos de direitos creditórios, a CVM previa desde 2001 os chamados FIC-FIDCs, criados justamente para investir em cotas de outros FIDCs. A norma de 2022 ampliou essa modalidade, mas não criou o mecanismo.

A resolução foi aprovada pelo colegiado da CVM em dezembro de 2022, ainda durante o governo Jair Bolsonaro (PL). A autarquia era presidida por João Pedro Barroso do Nascimento, indicado por Bolsonaro e aprovado pelo Senado.

Segundo o ministro, a resolução passou a “admitir, de forma expressa, o investimento de fundos estruturados em cotas de outros fundos com características semelhantes, viabilizando a constituição de estruturas sucessivas de investimento sem limitação quantitativa máxima”.

"Tal disciplina normativa tem o potencial concreto de comprometer os alertas automatizados de inteligência financeira e tornar mais complexa a reconstrução dos fluxos econômicos por parte dos órgãos de controle", pontua.

O relator da ação proposta pelo partido Novo também questionou uma regra que permite que, em determinadas operações, o dinheiro passe temporariamente por uma conta ligada a quem vendeu esses créditos ao fundo antes de chegar ao destino final. Em outras palavras, o dinheiro pode fazer uma escala na conta de quem vendeu o crédito ao fundo antes de seguir seu caminho, o que, segundo Dino, dificulta reconstruir depois por onde os recursos passaram. Para o ministro, esse caminho intermediário pode dificultar o acompanhamento do dinheiro pelos órgãos de fiscalização.

Investigação aponta utilização do emaranhamento por Vorcaro

O emaranhamento citado por Dino aparece nas investigações sobre as fraudes financeiras do Banco Master. Um relatório do Banco Central (BC) detalha o esquema que começaria com a Reag, gestora de fundos ligada ao banco.

O Master concedia crédito a empresas, mas, segundo o Banco Central (BC), apenas uma pequena parcela dos recursos ficava disponível aos tomadores, enquanto a maior parte era direcionada a fundos de investimento. Um dos casos apurados é o da Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias. Em abril de 2024, o banco de Vorcaro concedeu R$ 459 milhões à empresa. Dois dias depois, R$ 450 milhões foram transferidos para o fundo Brain Cash, administrado pela Reag e que tinha a própria Brain Realty como única cotista.

Cerca de uma hora e meia de os recursos chegarem ao fundo, foram utilizados para comprar cotas do Fundo D Mais, também administrado pela Reag.

Parte dessas operações envolvia direitos creditórios, ou seja, direitos de receber pagamentos no futuro. Esse mercado permite, por exemplo, que uma empresa que tenha R$ 1 milhão a receber de clientes daqui a seis meses venda esse direito hoje a um fundo por R$ 900 mil. O fundo adianta o dinheiro e, se o crédito for pago, recebe posteriormente o valor integral.

No contexto do Master, um dos pontos sensíveis era justamente quanto esses ativos valiam de verdade. As autoridades apontaram indícios de que alguns créditos e outros ativos usados nas operações estavam avaliados acima de seu valor econômico efetivo.

Depois, os recursos eram transferidos por uma “complexa e extensa cadeia de fundos”, todos administrados pela Reag. De acordo com a autoridade monetária, isso ocorria, "na maioria dos casos, no mesmo dia". Cada passagem criava mais de uma camada, o que tornava difícil a identificação de quem foi o responsável pela falsificação no início.

No fim da linha, esse dinheiro era usado para comprar investimentos em CDB no próprio conglomerado Master. O dinheiro, portanto, saía de operações ligadas ao grupo, percorria uma sequência de fundos e terminava novamente aplicado em papéis emitidos pelo Master. O BC tratou o fluxo como indício de desvio de recursos, enquanto a Polícia Federal investiga operações envolvendo a Reag sob suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro.

Os documentos consultados, porém, não demonstram que essas operações dependessem especificamente da regra de 2022 que ampliou a possibilidade de fundos investirem em cotas de outros fundos semelhantes.

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