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Eleições 2026

Divergências entre lideranças e influenciadores testam direita em ano eleitoral decisivo

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Situação delicada de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão, é um dos motivos que geraram discordâncias entre diferentes alas da direita (Foto: EFE/Andre Borges)

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Uma série de acontecimentos recentes, desde a situação delicada de Jair Bolsonaro (PL) com a Justiça, que o levou à prisão, até o lobby liderado por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para articular reações do governo Donald Trump contra abusos do Supremo Tribunal Federal (STF), gerou uma onda de desentendimentos entre representantes da direita nos últimos meses, que se acentuou na reta final do ano.

As tensões – que não se resumem apenas a discordâncias entre setores conservadores e liberais, mas também atingem os próprios aliados de Bolsonaro – devem testar a direita nas eleições deste ano, que são vistas pela direita brasileira como uma das mais importantes devido à possibilidade de formar maioria no Senado contrária à escalada de abusos por parte de ministros do STF.

Na política, a marca dos atritos tem sido embates públicos em vez de resolução privada dos impasses. Já entre influenciadores, parte deles tem extrapolado as críticas e passado a ataques pessoais contra desafetos. Um dos principais adeptos do método é Kim Paim, que nos últimos meses mirou políticos, que vão desde Nikolas Ferreira (PL-MG) a Deltan Dallagnol (Novo-PR), até influenciadores, como o comentarista Rodrigo Constantino e o humorista Paulo Souza.

Fontes ouvidas pela Gazeta do Povo apontam que o cenário de acontecimentos desfavoráveis aliado à proximidade das eleições trouxe à tona divergências já comuns entre diferentes grupos dentro da direita, mas algumas vozes influentes têm usado as críticas como método para aumentar o engajamento nas redes sociais.

“Uma parte da falta de união que estamos observando agora não tem a ver apenas com a desunião esperada entre liberais e conservadores, mas estamos vendo entre os próprios conservadores uma dificuldade de marchar no mesmo ritmo. Há um inimigo em comum, que é o STF, e as inúmeras arbitrariedades dos ministros deveriam unir a direita, mas estamos vendo o contrário”, diz o jornalista Eli Vieira, coautor das reportagens do Twitter Files Brasil e da Vaza Toga.

A advogada e analista política Fabiana Barroso aponta que, apesar de atritos públicos serem uma constante desde as eleições de 2018, em que Bolsonaro foi eleito presidente, esses episódios fragilizam a direita e prejudicam a criação de um plano claro para enfrentar a esquerda e o STF nas próximas eleições.

“É completamente desnecessário isso acontecer quando há um inimigo à vista, que não é apenas a esquerda, e é essencial que haja união para retomar a legitimidade e a legalidade. A exposição dessas divergências se torna ainda mais negativa quando se parte para o pessoal, quando vira militância e atinge pessoas pelo trabalho que estão fazendo”, declara.

“Isso não quer dizer que não seja preciso discutir discordâncias, porque só ignorar também prejudica. Uma hora tem que acertar, mas a questão é que não seja em público. Expor pessoas nas redes sociais é desnecessário”, prossegue.

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Lobby nos EUA é visto como positivo, mas resultados dividem opiniões entre a direita

A atuação de Eduardo Bolsonaro e do jornalista Paulo Figueiredo nos Estados Unidos, que inicialmente obteve apoio quase unânime entre as alas da direita, acabou se tornando um dos episódios recentes de divergências. A ideia inicial era promover um lobby junto a autoridades ligadas ao governo Trump, congressistas e representantes da direita americana para impor sanções contra ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes.

A sanção ao ministro, no dia 30 de julho, pela Lei Magnitsky – usada pelos Estados Unidos para punir financeiramente estrangeiros considerados violadores de direitos humanos ou corruptos – foi bastante comemorada pela direita brasileira. No entanto, a sanção acabou sendo cancelada pelo governo norte-americano em dezembro.

Além disso, dias antes de aplicar a punição a Moraes, a gestão Trump também sancionou o Brasil com tarifas de 50% sobre diversos produtos. Mesmo a imposição de tarifas não sendo a intenção inicial de Eduardo e Figueiredo, ambos comemoraram a medida, já que autoridades do governo americano atribuíram a punição aos abusos do STF.

Mas, para além da questão econômica, a sanção americana também gerou efeitos positivos à imagem do presidente Lula (PT), que em agosto teve um leve aumento na aprovação ao seu governo, segundo pesquisas – o que não se manteve nos meses seguintes.

Representantes da ala mais liberal da direita passaram a criticar o lobby, e as cobranças foram aumentando conforme Trump se aproximou do governo Lula. Em reação, alguns influenciadores alinhados ao discurso de Eduardo Bolsonaro responderam com duras críticas públicas.

Kim Paim foi um dos principais expoentes desse contra-ataque que, junto com outros influenciadores, como o jornalista Allan dos Santos, passaram a mirar uma parte mais ampla da direita. O discurso era de que o governo Trump esperava uma reação massiva da população após as sanções, por meio de protestos contra os abusos do Supremo, mas que a população teria se acovardado, e lideranças da direita teriam feito pouco para mudar o cenário.

O fim da sanção Magnitsky contra Moraes gerou nova rodada de atritos públicos, desta vez com embates e acusações entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

Atritos após escolha de Carlos Bolsonaro como candidato ao Senado por SC

Outro fato que nos últimos meses gerou troca de farpas entre a direita foi o anúncio, por Jair Bolsonaro, de que o filho Carlos, com trajetória política no Rio de Janeiro, disputaria uma vaga ao Senado por Santa Catarina. Como o estado catarinense já conta com vários nomes da direita com intenção de disputar o Senado, como as deputadas Caroline de Toni e Júlia Zanatta, do PL, e Esperidião Amin (PP), que deve tentar a reeleição, houve reação de lideranças locais.

Uma das vozes que mais se opuseram foi a da deputada estadual e presidente do PL Mulher do estado catarinense, Ana Campagnolo. A parlamentar saiu em defesa de Caroline de Toni, alegando que a vaga da deputada federal ao Senado havia sido dada a Carlos Bolsonaro. Dias depois, Caroline disse que deixaria o Partido Liberal se ficasse fora da chapa ao Senado.

Em reação, Eduardo e Carlos Bolsonaro fizeram publicações nas redes sociais afirmando que Campagnolo seria mentirosa e havia se insurgido contra a liderança do ex-presidente.

Mas a discussão não parou nisso: o humorista conservador Paulo Souza, que integrava o grupo de humor Hipócritas, saiu em defesa de Ana Campagnolo e virou alvo de Kim Paim, que publicou um vídeo com comentários sobre a esposa do comediante. Como resultado, o influenciador, que dias antes havia direcionado ataques pessoais a Rodrigo Constantino, foi bastante questionado nas redes sociais pela postura adotada.

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Embate entre Michelle e filhos de Bolsonaro

Outro caso recente de divergências envolvendo o núcleo duro de aliados de Bolsonaro aconteceu no final de novembro, após a ex-primeira-dama e presidente nacional do PL Mulher, Michelle Bolsonaro, ter criticado a possibilidade de aproximação da direita com o ex-ministro de Lula, Ciro Gomes (PSDB).

A fala de Michelle foi contestada publicamente pelo deputado federal André Fernandes (PL-CE), que nos últimos meses se aproximou de Ciro, participando inclusive de seu ato de filiação ao PSDB, e por Flávio Bolsonaro, que classificou a ação da ex-primeira-dama como “autoritária”.

A divergência foi resolvida dias depois em uma reunião fechada. Mas, superado o conflito, um comentário de Allan dos Santos gerou nova tensão. O jornalista disse que "Michelle não tem nenhum aval dos filhos para falar o que ela está falando” e que “não estava quando o Bolsonaro foi preso, mas está viajando o Brasil como se o Bolsonaro já estivesse morto".

Em resposta, Michelle divulgou uma nota dizendo que Allan não conhece sua rotina, que "virou de cabeça para baixo" após a prisão do marido. Ela apontou que exerce simultaneamente os papéis de mãe, esposa e presidente nacional do PL Mulher, e que está sempre "em concordância e validada" por Bolsonaro.

Divergências são naturais, mas críticas públicas podem dividir a direita, diz Constantino

Na avaliação de Rodrigo Constantino, há disputas naturais e esperadas frente à aproximação das eleições, mas o cenário atual tem mostrado uma falta de coesão mais significativa após a prisão de Bolsonaro. Já em relação aos embates públicos nas redes sociais, ele aponta alto potencial de divisão da direita em um momento delicado.

“Todo mundo acerta e erra. O problema é que alguns têm uma postura estranha de manter ataques a todo custo, e outros são pessoas honestas, mas que às vezes não têm freio. Isso tem potencial de divisão, porque são pessoas que, mesmo que às vezes falem para algumas bolhas dentro da direita, influenciam muita gente”, diz Constantino.

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