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Deputado Elmar Nascimento (DEM-BA) é quem lidera o movimento de ruptura interna no partido| Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

O deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), que foi líder da sigla em 2019, lidera um movimento de insatisfeitos dentro do partido que promete romper com o bloco apoiado pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na eleição da Câmara. O apoio formal de partidos da esquerda — sobretudo o PT — ao grupo político de Maia não foi bem recebido pela ala antipetista do DEM, que conta com 13 congressistas — e pode chegar a 17 deputados.

A bancada do DEM tem um pré-acordo para reconduzir o deputado Efraim Filho (DEM-PB) à liderança do partido. O problema é que, ao assinar a carta que formaliza a composição junto ao PT e outros partidos que apoiam o nome escolhido por Maia, o líder da legenda constrangeu metade de sua bancada, que conta com 28 deputados. Desde a assinatura, Nascimento iniciou um movimento para pressionar Efraim a recuar e se alinhar ao bloco do líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), que é apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Deputados e interlocutores do DEM ouvidos pela Gazeta do Povo explicam, contudo, que o movimento liderado por Elmar Nascimento não é, necessariamente, de apoio incondicional a Lira na disputa pela presidência. Mas, sim, um gesto pragmático para preservar o partido de ser associado ao PT.

“Não queremos ser vistos como parlamentares alinhados ao PT. É incoerente com a própria história do partido [a legenda fez oposição aos governos Lula e Dilma]. Entre estar no bloco do Arthur [Lira], ainda que taxado de ‘candidato do governo’, e entre transformar o DEM em um partido de esquerda, fico com o bloco do governo”, diz um demista.

Para que o pré-acordo de recondução de Efraim à liderança seja concretizado, é necessário que a ata que daria concordância a isso esteja assinada, mas não está. Ou seja, o movimento liderado por Nascimento tem por intuito pressioná-lo a acatar a metade dissidente. “Se Efraim não colocar os votos na mesa e aceitar retirar o partido do bloco [do agora definido candidato emedebista Baleia Rossi], sua recondução à liderança não ocorrerá e elegeremos um novo líder”, explica um deputado.

Quem são os deputados que podem rachar o DEM?

O movimento costurado por Nascimento tem o voto dele e de outros 13 deputados. A Gazeta do Povo apurou que essa ala é composta, ao todo, pelos seguintes deputados:

  • Alan Rick (AC)
  • Arthur Maia (BA)
  • Carlos Henrique Gaguim (TO)
  • David Soares (SP)
  • Dr. Zacharias Calil (GO)
  • Elmar Nascimento (BA)
  • Hélio Leite (PA)
  • Igor Kannário (BA)
  • José Mário Schreiner (GO)
  • Leur Lomanto Jr. (BA)
  • Luis Miranda (DF)
  • Paulo Azi (BA)
  • Pedro Lupion (PR)

Cada deputado tem um motivo para apoiar o movimento de ruptura. Um deles é o apoio do próprio presidente nacional do partido, ACM Neto, que tem grande influência sobre a ‘sub-bancada’ baiana do partido. Ou seja, além de Nascimento — que, por si só, já tem um prestígio significativo junto a seus conterrâneos da sigla —, juntam-se Kannário, Leur Jr., Paulo Azi e Arthur Maia.

ACM Neto não é o único a ter influência sobre uma ‘sub-bancada estadual’. É dito, também, que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), também tem sobre os deputados goianos do partido. Por isso, dizem que Zackarias (GO) e Schreiner (GO) apoiariam Nascimento não por seu papel de liderança nesse movimento, mas, sim, por Caiado, um aliado do governo federal.

Os parlamentares evangélicos do partido também tendem a seguir Nascimento e, indiretamente, o deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), primeiro vice-presidente da Câmara e presidente nacional de seu partido. Pereira tentou viabilizar sua candidatura com o apoio da Frente Parlamentar Evangélica (FPE), mas decidiu apoiar Lira. Por isso, é dito que o movimento seja apoiado pelos evangélicos Alan Rick (AC), Soares (SP) e Miranda (DF).

Os três votos restantes viriam de Hélio Leite (PA), muito alinhado a Nascimento, de Lupion (PR), vice-líder do governo no Congresso, e Gaguim (TO), ex-vice-líder do governo na Câmara. Além desses 13 votos, Nascimento ainda espera contar com outros três parlamentares do partido: Kim Kataguiri (SP), Norma Ayub (ES) e Sóstenes Cavalcante (RJ).

Todos os três votos são incertos, mas Nascimento acredita que conseguirá obtê-los. É informado dentro da legenda que a deputada Norma não vem sendo atendida, apesar de seu “trabalho exemplar”, diz um interlocutor do partido. “Quase não foi vista na gestão do Maia. Já o Elmar promete cuidar daqueles que forem com ele”, reforça um parlamentar.

Kataguiri é apontado como alguém que “deve muito” a Nascimento durante o ano de liderança dele, em 2019. “O Kim foi prestigiado pelo Elmar em algumas situações”, afirma um demista. Por fim, Sóstenes, embora aliado de primeira hora de Rodrigo Maia, tem toda a sua base composta por evangélicos. “Seria totalmente incoerente ele ficar com o PT. O que ele diria para seus eleitores em 2022?”, indaga a fonte.

Entenda os bastidores da insatisfação interna no DEM

O movimento construído por Elmar Nascimento é fruto de supostas traições. Desde a vitória de Rodrigo Maia na disputa pela presidência, em 2019, havia um acordo para que o demista apoiasse Lira em 2021. Como o líder do Centrão decidiu compor forças com o governo — também por não sentir que Maia cumpriria o compromisso —, o presidente da Câmara construiu um acordo com a cúpula do DEM e do MDB de que, nas eleições do próximo ano, cada partido assumiria a presidência de uma das Casas do Congresso.

Dessa forma, o acordo entre Maia e o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, era de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), recebesse o apoio do MDB à reeleição. Em troca, esperava-se que Maia subisse à tribuna do plenário da Câmara e anunciasse formalmente que não seria candidato à reeleição. Isso teria um peso político, uma vez que mentir na tribuna é considerado crime passível de perda de mandato.

A formalização pública de qualquer tentativa de Maia concorrer à reeleição seria, assim, interpretado na política e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como um gesto significativo. Tivesse o presidente da Câmara feito esse gesto, a aposta é de que a Suprema Corte teria dado um jeito de interpretar a Constituição para viabilizar a reeleição apenas de Alcolumbre. Não foi o que aconteceu.

Por maioria, o STF rejeitou a possibilidade de reeleição para ambas as Casas, em uma decisão que foi interpretada dentro do DEM como uma traição de Maia a Alcolumbre. “O Davi teria conseguido maioria no Supremo se o Maia tivesse dito que não seria candidato. Esse era o clima entre os ministros, de deixar o Alcolumbre se reeleger, já que, ao contrário de Maia, ele ainda não havia sido reeleito”, sustenta um demista.

A impossibilidade de reeleição, contudo, é tratada como apenas uma das traições de Maia dentro do partido. Quando Alcolumbre desistiu de sua candidatura, o MDB começou a se movimentar para lançar uma candidatura, como mostrou a Gazeta do Povo. Isso abriu as portas para Elmar Nascimento se viabilizar para a disputa como o candidato do DEM na Câmara. “O Elmar e o Marcos Pereira procuraram o Maia para receber o apoio dele. A eles, disse: ‘conversa com a esquerda. Se ela te apoiar, eu apoio’. O Elmar chegou a ter 120 votos, mas o Maia os traiu”, diz um deputado, em referência ao “já esperado apoio a Baleia Rossi”.

Dentro de um grupo do DEM no WhatsApp, Nascimento chegou a desabafar. Confirmou ter recebido o apoio de partidos da esquerda, como antecipou Gazeta do Povo, e, de forma velada, chamou Maia de traidor. “Tive na presença do ACM Neto assegurada a simpatia do PT, do PCdoB, e o próprio [Carlos] Lupi, presidente do PDT, opinando que eu seria a melhor opção. No PSB, tive a defesa de oito valorosos amigos e a explanação do líder [Alessandro] Molon que me achava um excelente partido”, diz o demista.

“Apesar de tudo isso, meu nome vem sendo ‘estranhamente’ relegado. Fui traído inexplicavelmente por quem eu considerava meu melhor amigo. Quem eu mais confiava. Quem eu mais acreditava. Quem sempre segui cegamente em tudo”, criticou Nascimento. Os correligionários aliados do parlamentar justificam, contudo, não haver incoerência com o atual posicionamento de ruptura interna no DEM por causa da presença de partidos da esquerda no bloco.

Uma coisa, justifica um deputado, é conversar com a esquerda a fim de ganhar a referida simpatia dita por Nascimento. Outra é compor um bloco formal com os partidos de oposição. “Uma coisa é ele buscar os líderes e perguntar se teria o voto deles. Outra coisa é o PT virar cabeça de chapa, porque foi o primeiro partido a fechar o acordo com o Maia”, explica o parlamentar.

Baixo clero vira aposta de Elmar e Arthur Lira

O movimento de ruptura do DEM é meticulosamente estudado por Elmar Nascimento. Afinal, o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) tenta viabilizar sua candidatura no Senado — com apoio de Alcolumbre —, sobretudo após Rossi ser anunciado como o candidato apoiado por Maia. Ou seja, uma sinalização de que o DEM boicotará o candidato emedebista na Câmara pode retirar o apoio do MDB a Pacheco.

A articulação de Nascimento tem, naturalmente, o apoio de Lira. Os dois estavam brigados desde que o demista lançou sua pré-candidatura. Agora, sem o apoio de Maia, ambos reabriram o diálogo. Entre eles, a análise é de que uma divisão do DEM pode até encorajar parlamentares do próprio MDB a romperem com a orientação partidária e votarem em Lira.

Tanto Lira e Nascimento entendem que eles têm um vasto espaço a percorrer, sobretudo, junto a parlamentares do chamado “baixo clero”, composto, basicamente, por parlamentares de primeiro mandato e/ou sem grande representatividade e destaque na Casa. Um dos deputados citados por eles é Luís Miranda (DEM-DF). Na segunda-feira, o demista usou a tribuna do plenário para cobrar por um candidato que “represente” e “busque o consenso do baixo clero”.

Logo após a fala de Miranda, Lira o chamou à liderança do PP, onde conversaram a portas fechadas, segundo afirmam fontes ouvidas pela reportagem. No mesmo dia, após a reunião com o líder do Centrão, Miranda visitou Nascimento em sua residência em Brasília. Nos bastidores, comenta-se que, como presidente da Frente Parlamentar Mista da Reforma Tributária e vice-presidente da bancada evangélica, o demista possa ajudar a influenciar outros parlamentares do baixo clero.

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