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Doria e Eduardo Leite prévias do PSDB
João Doria e Eduardo Leite são os principais candidatos nas prévias do PSDB| Foto: Divulgação/Governo de São Paulo e Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini

Se por um lado as prévias do PSDB para escolher o candidato à Presidência da República tentam mobilizar a legenda para seu projeto de retomada do protagonismo nacional, por outro escancararam rachas entre os tucanos — especialmente os ligados aos dois principais pré-candidatos da sigla, os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS). A campanha interna tem sido marcada por um clima de guerra, com acusações mútuas entre aliados dos dois de inscrições irregulares de eleitores, “cortina de fumaça” e busca da vitória “no tapetão”.

A disputa mais recente é sobre a possibilidade de que filiados após o prazo determinado pelo partido também possam votar nas prévias. A disputa colocou em lados opostos os diretórios de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia, que apoiam a candidatura de Leite, e o diretório de São Paulo, que apoia Doria.

O primeiro movimento foi dos aliados de Leite, que contestaram a inscrição de 92 prefeitos e vice-prefeitos paulistas na lista de aptos para votar nas prévias. A alegação foi de que as filiações haviam sido feitas após o prazo estipulado pelo partido, 31 de maio, usando datas retroativas que permitiram a inclusão deles no sistema de votação.

O PSDB de São Paulo se defendeu, dizendo que as filiações foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com data retroativa porque o diretório ficou um período sem cadastrar novas filiações por causa do luto pela morte do ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas.

O assunto, então, foi analisado pela Comissão das Prévias do PSDB, comandada pelo senador José Aníbal (SP), na última segunda-feira (1º). Dos 92 citados na denúncia, 44 enviaram esclarecimentos, com declarações e fichas de filiação. Contudo, a comissão entendeu que esses documentos não servem para comprovar filiação por serem uma prova unilateral, ou seja, algo que está no controle do diretório do partido. Como se trata de prefeitos e vices, figuras públicas, provas aceitáveis seriam declarações e registros na imprensa.

Com isso, a comissão decidiu que nenhum deles poderá participar das eleições prévias e que, para quaisquer casos, será considerada data de filiação aquela do cadastramento dos nomes no sistema de filiação partidária do TSE. Prefeitos e vices impactados pela decisão podem recorrer individualmente.

Após a decisão, a campanha de João Doria nas prévias emitiu um comunicado dizendo que, apesar da exclusão, está certa de que o governador paulista contará com a "ampla maioria dos votos dos 1.014 prefeitos e vice-prefeitos" filiados ao partido.

O PSDB de São Paulo, porém, não quis deixar a história acabar por aí. No mesmo dia em que a decisão da comissão foi anunciada, o diretório denunciou que 34 pessoas que se filiaram aos diretórios do Rio Grande do Sul, Bahia e Minas Gerais depois de 31 de maio aparecem como aptas a votar nas prévias.

“A regra tem que valer para todos”, disse Marco Vinholi, presidente do PSDB de São Paulo, explicando que foram cruzados dados do sistema de filiação partidária do TSE com a lista de inscritos para as prévias. "Com a decisão da comissão, eles não estariam aptos a votar".

Presidente do PSDB-SP, Marco Vinholi
Presidente do PSDB-SP, Marco Vinholi | Foto: Assessoria de imprensa PSDB-SP

A Gazeta do Povo apurou, a partir de informações enviadas pela assessoria de imprensa do diretório paulista, que nenhum dos 34 citados possui cargo eletivo. Portanto, o peso de voto de cada um deles seria menor do que o dos prefeitos, já que as prévias dividem os eleitores em quatro categorias diferentes, cada uma com 25% do peso dos votos:

  • Filiados;
  • Prefeitos e vice-prefeitos;
  • Vereadores e deputados estaduais;
  • Governadores, vice-governadores, deputados federais, senadores, ex-presidentes e o atual presidente do PSDB.

Os 34 estariam incluídos no primeiro grupo, um universo de 1,3 milhão de filiados tucanos, enquanto que o grupo de prefeitos e vices tem em torno de mil membros.

O presidente do PSDB, Bruno Araújo, anunciou na noite desta quarta-feira (3) que essas pessoas, assim como os 92 prefeitos e vices, não poderão votar nas prévias.

Falsa narrativa x fraude: a troca de acusações no PSDB

Ao comentar a contestação do PSDB de São Paulo, o presidente do PSDB do Rio Grande do Sul, o deputado federal Lucas Redecker, acusou Vinholi de estar "querendo criar uma cortina de fumaça em cima da comprovação das irregularidades cometidas na filiação em massa de prefeitos e vices com o claro intuito de influenciar no resultado das prévias do partido".

"É irresponsável a acusação de que outros diretórios fizerem o mesmo que São Paulo. No RS, não fabricamos eleitores. Temos responsabilidade e não cometemos atos ilegais para ganhar uma prévia", tuitou, dizendo ainda que o PSDB paulista incorreu em fraude.

Vinholi respondeu na sequência, sem mencionar Redecker, afirmando que os casos observados por eles "são idênticos" aos julgados pela comissão das prévias. "Democracia se faz com respeito, isonomia e justiça a todos. Cortina de fumaça faz quem quer apontar o dedo e não discutir o mérito da questão", afirmou em nota.

Leite e Doria buscam se afastar do assunto, deixando a discussão para os aliados. Mas houve uma troca de indiretas entre os dois pré-candidatos. "Quem se diz tanto na liderança das prévias não precisa fazer filiação extemporânea", comentou o governador gaúcho.

Em outra ocasião, Doria disse: "eleição não se ganha no grito, mas no voto. Eu aprendi a respeitar a democracia. Por que ter medo do voto? Não há razão para ter medo do voto", afirmando também que prévias não se ganham "no tapetão", ou seja, por decisões normativas.

"Me parece pouco maduro", diz Virgílio, o 3.º presidenciável do PSDB

O ex-senador e ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio, que concorre nas prévias com Doria e Leite, tem sido um crítico do que classifica como "futricas" e "picuinhas" internas do partido. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o ex-prefeito de Manaus disse que há falta de maturidade no episódio das filiações.

"Me pareceu pouco maduro... Acho que fizeram muita tempestade em copo d'água", disse, acrescentando que "de futrica em futrica, o PSDB vai perder sua chance".

Durante o primeiro debate das prévias tucanos, Virgílio já tinha criticado o clima belicoso entre as campanhas de Doria e Leite. "Meu apelo é pelo fim do 'trique-trique', do ciúme. Ciúme é normal, mas vamos acabar com isso. Esse país merece ter sua democracia consolidada, e seu desenvolvimento consolidado", disse o pré-candidato, que corre por fora na disputa.

Redecker, presidente do PSDB do Rio Grande do Sul, reconheceu que a situação é lamentável para o partido, mas que diante de "um ambiente em que se está tentando vencer as prévias fora das regras do jogo, não podemos ficar de mãos atadas e deixando que as coisas aconteçam".

 Lucas Redecker, presidente do PSDB do RS | Foto: Reprodução/Twitter
Lucas Redecker, presidente do PSDB do RS | Foto: Reprodução/Twitter

Vinholi, por sua vez, reiterou que o PSDB de São Paulo tem agido pela unidade do partido e que, na questão dos eleitores que ingressaram na sigla após a data estabelecida pelo partido, o diretório está apenas cobrando que a decisão da comissão de prévias seja aplicada para todos os estados. "Não existe ataque da nossa parte", disse.

Para o presidente do diretório paulista, a decisão publicada por Araújo nesta quarta coloca um fim à questão dos eleitores, mas as palavras escolhidas por ele mostram que a tensão interna está longe de se desfazer.

"Por dias os aliados de Eduardo Leite criaram a falsa narrativa de que houve fraude no procedimento de filiação realizado por São Paulo. Apresentamos oficialmente ao partido que o mesmo procedimento foi utilizado por aqueles que nos acusavam. Com a decisão se pacifica a verdade e a isonomia no processo eleitoral", afirmou.

Enquanto isso, o presidente do partido tenta acalmar os ânimos e justificar os desentendimentos. "As prévias do PSDB são um acontecimento inédito no Brasil. Por isso, é natural que ocorram questionamentos em relação a todas candidaturas, sobretudo no processo de construção e entendimento do regulamento", afirmou Bruno Araújo. "O fundamental é a boa-fé de todos que estão imbuídos na construção do fortalecimento do partido na contribuição de alternativas saudáveis para o país".

Quando acontecerão as prévias

A votação das prévias do PSDB ocorre em 21 de novembro. Antes disso, os três pré-candidatos se encontrarão para dois debates organizados por veículos da imprensa, marcados para os dias 11 e 17, ocasiões em que, provavelmente, Doria e Leite serão confrontados sobre o clima de tensão entre suas campanhas.

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