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A corrida presidencial de 2026 no Brasil impulsionou o debate político entre as visões ideologicamente opostas acerca dos próximos passos do Mercosul, encabeçadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O confronto ganhou força depois de Flávio encaminhar ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) documento que critica o funcionamento do bloco. Ele endossou o discurso do presidente argentino, Javier Milei, por flexibilização e mais liberdade para negociar. Chegou até a propor uma área de livre comércio entre Brasil e EUA.
Lula reagiu dizendo que o Mercosul é instrumento de soberania e de proteção diante do avanço do protecionismo internacional. Ele voltou a defender que a integração regional não se sujeite a cada mudança de governo, reiterando o desejo de ampliar acordos comerciais conjuntos. O avanço no acordo entre Mercosul e União Europeia, após 25 anos de tratativas, entusiasmou representantes de todos os governos sul-americanos.
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Arcabouço jurídico do Mercosul e vieses políticos dificultam mudanças
Há, entretanto, limites na estrutura jurídica do Mercosul. O bloco funciona só por consenso entre os integrantes, mecanismo previsto desde o Protocolo de Ouro Preto (1994), barrando mudanças profundas sem aprovação unânime dos países-membros.
A regra reduz o impacto imediato das eleições nacionais. Mesmo hoje com a maioria de governos de direita e centro-direita entre os membros plenos, decisões relevantes — como acerca da Tarifa Externa Comum (TEC) e novos tratados comerciais — precisam do aval de todos os integrantes.
A composição política também revela cenário mais complexo do que a divisão entre esquerda e direita. Milei tem discurso crítico ao Mercosul e defende abertura, enquanto Santiago Peña, do Paraguai, tem postura liberal na economia, mas prega a estabilidade institucional do bloco.
Na Bolívia, Rodrigo Paz privilegia acordos voltados ao desenvolvimento, nas áreas de infraestrutura, energia e investimentos. Já o esquerdista uruguaio Yamandú Orsi, embora alinhado a Lula, mantém a pauta uruguaia por maior liberdade para negociações comerciais individuais.
Arranjos de setores econômicos predominam sobre ideologia política
Para Natália Fingermann, professora de Relações Internacionais da ESPM, o futuro do Mercosul depende mais dos interesses econômicos. “Os arranjos produtivos entre os países, como os de eletrodomésticos e automóveis, dificultam mudanças radicais, seja lá qual governo for”.
Daniel Augusto Silva, pesquisador da USP, diz que o debate político tende a simplificar questões estruturais anteriores à disputa eleitoral. “O Mercosul enfrentou várias crises econômicas argentinas, o avanço da globalização e a multiplicação de acordos comerciais no mundo”.
Silva observa que o Mercosul nasceu inspirado no modelo europeu de integração econômica, buscando ir além de simples acordo comercial. O projeto também teve papel importante na aproximação política entre Brasil e Argentina após décadas marcadas por rivalidades estratégicas.
Nesse contexto, o professor crê que o resultado da eleição presidencial brasileira até poderá influenciar o ritmo das negociações futuras, “mas tudo continuará condicionado às rígidas regras de consenso e aos interesses econômicos compartilhados que sustentam o Mercosul”.









