O presidente Jair Bolsonaro.
O presidente da República, Jair Bolsonaro.| Foto: Evaristo Sá/AFP

A Gazeta do Povo lançou o e-book Dossiê 2022, para que os nossos leitores tenham à mão todas as informações necessárias para acompanhar o xadrez político das próximas eleições presidenciais. A partir de perguntas formuladas por jornalistas, especialistas das mais diversas áreas dizem quais são fatores que vão influenciar o voto do brasileiro e como eles acreditam que serão as eleições. Este conteúdo é uma parte do e-book, que você pode baixar gratuitamente, na íntegra, ao fim do texto.

Uma pulverização de candidaturas de centro, direita e esquerda favorece ou prejudica o Bolsonaro?

PAULO KRAMER, cientista político com doutorado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Professor aposentado de Ciência Política (UnB), assessor parlamentar e analista de risco político.

À falta de uma candidatura forte de esquerda para contra ela polarizar, Bolsonaro tem como segunda melhor hipótese a fragmentação do Centro em várias candidaturas presidenciais. Acho, porém, pouco provável que isso ocorra: os adversários do presidente já compreenderam que precisam se unir para aumentar suas chances de derrotá-lo. Por ora, a minoria bolsonarista na opinião pública continua sendo maior que as minorias dos adversários. Qualquer mudança significativa nesse cenário, se ocorrer, deverá estar ligada ao coquetel para a saída da pandemia: vacinação + recuperação da economia.

O prolongamento da agonia coletiva antes da retomada da normalidade prejudicaria Bolsonaro não somente na eleição, mas já neste ano de 2021, desanimando/exasperando a base parlamentar governista.... Uma espécie de profecia autorrealizável: a economia cresce pouco ou quase nada, o desalento da população se agrava, o Congresso sofre uma recaída na lassidão fiscal e na inapetência para as reformas, e a economia cresce menos ainda. Um círculo vicioso.

RODRIGO CONSTANTINO, presidente do Conselho do Instituto Liberal. É formado em Economia pela PUC-RJ, e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalhou no setor financeiro de 1997 a 2013. É autor de vários livros, entre eles o bestseller "Esquerda Caviar". Foi colunista da revista Voto, dos jornais Valor Econômico, O Globo, Zero Hora, do site R7, e das revistas Veja e IstoÉ. É colunista da Gazeta do Povo, do ND, da revista Oeste e comentarista da Jovem Pan. É membro-fundador do Instituto Millenium. Foi o vencedor do Prêmio Libertas em 2009, no XXII Fórum da Liberdade. 

O melhor cenário para o Bolsonaro é o Lula ser candidato, ou um poste do Lula, como o próprio Haddad. E a esquerda relativamente unida entorno desse nome. Então, o Bolsonaro é o antípoda do Lula. “Você quer que a extrema esquerda volte?”. Esse é o grande bordão e aí o Bolsonaro vai disputar no segundo turno, se houver, com esse nome. Ele tem ótimas chances de reeleição. Uma candidatura sendo costurada ao centro, que eu venho chamando de centro-esquerda para ser mais fiel ao que representa (faz algumas concessões liberais na economia, mas tem toda a visão de mundo progressista) tenta furar essa polarização da extrema esquerda com o bolsonarismo, mas eu acho que as chances são remotas.

Eu acho que não tem nenhum apelo esse tipo de mensagem hoje ainda, até porque as pessoas estão vendo o grau de oportunismo dessa turma, desse suposto centro: exploração toda da pandemia e tudo mais. Isso gerou muita resistência a qualquer nome desses. Tudo leva a crer que vai ter mais uma vez a polarização da extrema esquerda e o bolsonarismo. E o bolsonarismo, na minha opinião, leva.

MÁRCIO COIMBRA, coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil. Diretor-Executivo do Interlegis no Senado Federal. 

A pulverização sempre favorece o incumbente, no caso, Bolsonaro. Isto ocorre porque na medida que o discurso se torna mais difuso, com muitos candidatos, torna-se mais fácil para aquele que se destaca, dar o tom da campanha eleitoral. O quadro eleitoral de 2022, entretanto, parece surgir com três vetores bem definidos. O primeiro deles é a direita representada por Bolsonaro.

Outro que certamente terá relevância é a esquerda representada pelo petismo, que pode ser encarnada por Lula, caso se torne elegível, ou um nome indicado por ele. No terceiro vetor existe um vácuo a ser preenchido, aquele que possui maior chance de vencer a eleição, caso afine o discurso. Este nome ainda não foi escolhido, mas pode surgir do acordo entre tucanos e demistas ou mesmo a chegada dos nomes de Huck e Moro por partidos menores, como Cidadania ou Podemos. Enquanto Bolsonaro deve navegar em torno dos 20%, o petismo deve também andar nesta margem, deixando para o centro um flanco aberto de outros 20%, especialmente se Moro decidir ser candidato, acompanhado por Mandetta ou Huck.

Isto significa que nenhuma destas três frentes está garantida no segundo turno. Bolsonaro pode ficar fora do embate final ou mesmo os petistas ou o centro. Em cada um destes embates, existe um favorito. Bolsonaro corre riscos mais elevados por carregar o desgaste da pandemia e da economia, que podem pesar na campanha.

DENNYS GARCIA XAVIER, autor e tradutor de dezenas de livros, artigos e capítulos científicos, é professor de Filosofia Antiga, Política e Ética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professor do Programa de Pós-graduação em Direito (UFU) e diretor acadêmico da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil (IMB). Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP - Bolsista FAPESP). Pós- graduado em Administração Pública pela Universidade UNICESUMAR, tem doutorado em "Storia della Filosofia" pela "Università degli Studi di Macerata", pós-doutorado pela Universidade de Coimbra (Portugal) e pela PUC-SP. 

(A pulverização) favorece em grande medida. Certo que Bolsonaro conduziu de modo infausto as pautas relativas à pandemia e que após o caso Queiroz acabou por abraçar aquilo que, desde a campanha para 2018, veio chamando de “velha política”. Lembrar do Bolsonaro candidato e vê-lo hoje em calorosos afagos a Collor, escolhendo Kassio Nunes Marques para o STF, atuando como cabo eleitoral de Arthur Lira e acompanhando em silêncio solene graves ataques à Lava-jato – para citar alguns dos casos mais recentes – não é exatamente inspirador, ao menos para seus apoiadores não-radicais (para os radicais, claro, imersos em elementos de irracionalidade e paixão, há sempre uma boa explicação para tudo, por mais absurda ou exótica que seja).

Não obstante isso, com forças políticas pulverizadas Bolsonaro poderá colher ocasião propícia e catalisar a falta de opção do eleitor médio. Sem alternativas razoáveis, sem uma oposição articulada, mobilizada, o eleitor acabará, uma vez mais, optando pelo conforto do que já conhece, mesmo com aquele retrogosto sabor frustração.

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