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O governo do Irã está aumentando a presença informacional no Brasil por meio de alianças com políticos do PT, influenciadores, jornalistas e veículos de comunicação com tendências de esquerda. A Gazeta do Povo acompanhou um evento de apresentação de jornalistas e influenciadores digitais arregimentados para viajar a Teerã e falar sobre o regime no Brasil.
A reportagem apurou que o 1º Seminário Geopolítico Arresala faz parte de um esforço iraniano de conquistar simpatizantes brasileiros. O discurso difundido pelos participantes é que os brasileiros estariam sendo enganados pela narrativa da "grande imprensa ocidental" e que seria necessário deter o que chamam de "imperialismo americano".
A organização do evento era da editora Arresala, que se define em página própria no Facebook como o Centro Islâmico no Brasil (CIB), "entidade social e religiosa sem fins lucrativos que tem como foco de trabalho a divulgação da religião islâmica através de variados projetos sociais e educativos".
As páginas oficiais da Arresala não deixam claro, no entanto, quais são as delimitações da relação com o Consulado Cultural da República Islâmica do Irã, ligado à Embaixada do país em Brasília.
Em julho, jornalistas e influenciadores viajaram ao Irã para testemunhar o funeral do aiatolá Ali Khamenei, morto em um bombardeio israelense. O convite e, sobretudo, o financiador da viagem não ficou claro nas notícias publicadas pelos veículos sobre o tema.
A Gazeta do Povo encontrou em um post no Instagram da TVT que uma jornalista estava "no Irã a convite da Arresala, Centro Islâmico no Brasil." A TVT é mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em parceria com o Sindicato dos Bancários.
Esses influenciadores participaram do seminário para contar o que viram no Irã. Os palestrantes foram o jornalista e comentarista do Brasil 247 Joaquim de Carvalho, o jornalista Tom Altman, CEO do site Opera Mundi, a jornalista e comentarista da TVT Laura Capriglione e o influenciador do canal Arte da Guerra, Robinson Farinazzo.
O seminário ocorreu na noite desta sexta-feira (28) em um hotel nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. Ele teve cobertura da HispanTV Brasil, canal de comunicação estatal do governo do Irã. A guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã completou seis meses na sexta-feira (28) e foi o principal tema. Embora o conflito esteja em um impasse, os debatedores tentaram explicar como os Estados Unidos estão sendo derrotados.
O evento foi aberto ao público e os interessados eram recebidos por uma mulher vestida com trajes muçulmanos e um hijab cobrindo os cabelos e o pescoço. Ela convidava as pessoas a preencherem seus dados em uma lista antes de entrar.
Nos materiais de divulgação do evento, apareciam lado a lado os logotipos do deputado estadual Mário Maurici, do Consulado Cultural da República Islâmica do Irã - Brasília; do 247; do Opera Mundi; da HispanTV Brasil; do Instituto de Amizade Brasil-Irã; e da Arresala Notícias.
Com cerca de 150 pessoas, o evento lançou o Grupo de Amizade Brasil-Irã, com a presença de jornalistas, religiosos e apoiadores que pretendem difundir a cultura do Irã no Brasil. O grupo é coordenado pelo deputado estadual do PT, Mário Maurici, no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Entre o público, havia diversas mulheres jovens e de meia idade usando o hijab, algumas com vestidos longos de tecido fino e bordado. No salão era possível sentir odor de perfumes sofisticados e ouvir música árabe ambiente tocando ao fundo, como que convidando os presentes a uma imersão no universo do Irã.
À frente da plateia, um telão exibia conteúdos complementares às falas dos convidados. Uma bandeira do Irã estava disposta à esquerda do telão, em posição oposta a uma bandeira do Brasil.
Por um período, o xeique Hossein Khaliloo, teólogo islâmico iraniano, recebia e cumprimentava os convidados que chegavam. Além de banners com informações sobre o seminário, havia ao fundo da sala duas mesas.
Uma delas exibia materiais impressos de divulgação do evento e do Irã, como um folheto voltado a crianças e outro voltado ao turismo. Na outra, estavam dispostos diversos livros da editora Arresala.
Evento tem exaltação a potencial bélico do Irã, que colocou os “Estados Unidos de joelhos”
A abertura do 1º Seminário Geopolítico Arresala foi feita por Nasser Khazraji, diretor da Arresala e do Centro Islâmico no Brasil, que chamou um recitador para “leitura de alguns versos do Alcorão Sagrado”. Na sequência à recitação, Nasser anunciou: “Sejam todos bem-vindos em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”, e chamou o xeique Hossein Khaliloo para discursar.
Coordenador do Grupo de Amizade Brasil-Irã, o deputado estadual Mário Maurici (PT) enviou um vídeo no qual se desculpou por não estar presente devido à campanha eleitoral. Ele defendeu a aproximação da causa com a Assembleia Legislativa de São Paulo e o multilateralismo e criticou o que chamou de interferências externas em assuntos de interesse do Brasil.
“Essa defesa também passa pela nossa posição diante do imperialismo e do sionismo”, afirmou Maurici, ao criticar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e parlamentares aliados por posições contrárias às que defende.
A mediação do Seminário foi feita pela jornalista Talita Galli, apresentadora do TVT News.
Nos discursos, o Irã foi citado como “corajoso” e “resistente” ao apoiar o estado palestino e inspirar outras nações a fazerem o mesmo. “Nós podemos sonhar, e sonhar que a gente pode se libertar do jugo do imperialismo americano", disse Capriglione.
"Podemos sonhar porque nós estamos vencendo essa guerra, e estamos vencendo essa guerra no Irã. Isso inspira os povos do mundo, e eu tenho certeza que isso vai ter muitos frutos e nós vamos colher essa vitória final contra os Estados Unidos e contra Israel", complementou ela.
Tom Altman, por sua vez, fez um relato sobre os preconceitos que perdeu ao visitar o Irã. “Faz muito tempo que o Irã é desumanizado pela mídia hegemônica. E isso é feito de caso pensado, porque quando você desumaniza um povo, você transforma aquele povo no vilão do mundo”, afirmou. Altman defendeu ser necessário "acabar" com os Estados Unidos, que eram classificados por membros da audiência como "comedores de hambúrguer".
Já o influenciador Robinson Farinazzo criticou a imprensa e comparou a cobertura tradicional brasileira sobre o Irã com o discurso sobre a Lava Jato. “O que a gente tem do Irã aqui no Brasil, como também da Coreia do Norte, da Rússia, da China, não é nada do que se fala aqui no Brasil”, afirmou, complementando que a sociedade está cansada da imprensa, principalmente por causa de uma coisa chamada Lava-Jato".
Ele complementou afirmando que o ataque do Irã às bases militares dos Estados Unidos na região do Golfo Pérsico “foi uma derrota acachapante”.
“Foi um negócio simplesmente genial e avassalador. Eles colocaram efetivamente os Estados Unidos de joelhos, o Trump não tem saída, ele não tem para onde correr”, disse ele.
Já o jornalista Ali Salman Farhat, opinou que o Brasil será um dos alvos de Donald Trump. “O que me preocupa hoje aqui é o Brasil. O Brasil é um país rico, um país exemplo no mundo pela convivência, pela tolerância”, afirmou. “Por isso, hoje no Brasil a gente tem uma missão de defender os outros para nos defender,”, afirmou, sendo complementado por Talita Galli sobre uma reserva de petróleo recém-descoberta na Amazônia.
O evento terminou com homenagens entregues a “personalidades, veículos e grupos que resistem à narrativa dominante, exercem papel fundamental na busca pela verdade e pela justiça” e se encerrou com um vídeo em branco e preto em memória dos jornalistas mortos na Palestina”.





